29 Out 2012, 10:56

Texto de João Carlos Emílio

Comes & Bebes

Uma autêntica surpresa com um fim de boca divinal

O Quinta do Crasto Tinta Roriz 1997 é um vinho absolutamente excepcional. Com aromas bastante complexos e evoluídos, oferece uma explosão intensa de sensações.

Quinta do Crasto Tinta Roriz 1997

Quinta do Crasto Tinta Roriz 1997. Fotos: DR

Chego à entrada principal da Alfândega Nova, passo por baixo do frontão e entro, dizem-me que ainda é cedo e para aguardar um pouco. Anuo e murmuro que estarei no exterior a fumar. Saio do edifício neoclássico, mas não me afasto muito. Aproveito a sombra da sua fachada, deixando-me ficar nas imediações de um cinzeiro ali colocado.

Quem diria que um dia que acordou cinzento, sombrio e chuvoso, uma segunda-feira, um mau presságio, se tornaria num dia quente, com um sol de Outono forte rasgando o manto azul celeste.

Chamam-me, entro e sou conduzido pelas naves interiores deste imponente edifício, por estes corredores, pelos seus trilhos, passou muito do que foi o comércio deste burgo, mercadorias que entravam e saíam, uma porta para o mundo.

O evento pelo qual aguardava era uma apresentação de vinhos a distribuidora Heritage Wines, mas também lá havia azeites, chocolate e champanhe  A organização, profissional, revelou-se acertada e bem planeada. A presença dos enólogos e dos responsáveis acrescentou um brilho e uma mais valia inegável, dotando o evento de uma intimidade desarmante. Decididamente o mau agoiro não se concretizou, estou entre vinhos e champanhe, chocolate e azeite…

Encostei-me à Quinta do Crasto, e por ali estive uma hora e meia, acompanhando a prova dos vinhos com conversa com o enólogo Manuel Lobo e com a enóloga assistente Cátia Barbeta, falamos de tudo desde a vinha até ao copo. Ali também encontrei o Miguel Roquette e o Tomás Roquette, provando os seus vinhos e conversando. Enquanto efectuava a prova vertical dos vinhos, Cátia Barbeta foi-me falando dos projectos da Quinta do Crasto, em particular, de um projecto de catalogação e classificação das castas e dos clones nas suas vinhas velhas e que é de importância fulcral para o Douro.

A prova vertical que realizei foi excelente, sendo os vinhos em prova os seguintes: Quinta do Crasto 2005 e 2010, Quinta do Superior 2005 e 2010, Quinta do Crasto Reserva Vinhas velhas 2004, 2006, 2007, 2008, 2010, Quinta do Crasto Tinta Roriz 1997, Quinta do Crasto Touriga Nacional 1999 e 2006, Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2003 e 2006, Quinta do Crasto Vinha da Ponte 2004.

Realizei outras provas noutros produtores, mas não posso deixar de destacar a Quinta do Crasto, por 2 motivos, o Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas 2007 e Quinta do Crasto Tinta Roriz 1997, este último absolutamente excepcional.

São ambos vinhos de guarda, um deles já com 15 anos, raros no mercado, muito difíceis de encontrar, mas que poderão ser adquiridos com alguma sorte em boas garrafeiras. O primeiro custa 25 euros (PVP) e o segundo 45 euros. A distribuição quer de um quer do outro passou sobretudo por mercados estrangeiros (70% da produção foi para exportação).

O Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas de 2007, já com alguns anos de garrafa, tem um aroma frutado e floral bastante evidente, guarda ainda bastante frescura no nariz, e tem fruta madura, com alguma compota com pequenas matizes de baunilha e especiarias. No palato, notas de fruta silvestre, algum cacau tostado, corpo bem estruturado, complexo e bastante elegante. O fim de boca é persistente.

O Quinta do Crasto Tinta Roriz 1997, tem aromas bastante complexos e evoluídos, nem em demasia, nem com indícios de redução, uma explosão intensa de sensações, frutos silvestres já a fugir para as compotas, uma mistura de fumado com alguma especiaria, algum caramelo. Na boca, é perceptível uma integração de madeira excepcional, que não tolda os sabores dos frutos silvestres bem maduros e das compotas, do figo e um espectro fumado que também atravessa o palato. Corpo cheio, com um volume perfeito, estruturado e com uma frescura, decorrente do equilíbrio surpreendente dos taninos com a acidez, o fim de boca é divinal e parece perpetuar-se, maravilhoso, uma autêntica surpresa! Este foi um daqueles eventos em que o tempo parece correr demasiado rápido…