13 Jan 2011, 19:15

Texto de Ana Isabel Pereira

Comes & Bebes

São Gonçalo em Gaia: E ele é nosso! E é, é, é!

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Para além do cortejo tradicional, ponto alto da romaria em honra do padroeiro dos homens do mar, o Mercado à Moda Antiga recria, na zona ribeirinha, os usos e costumes do final do séc. XIX, início do séc. XX.

Os festeiros rezam para que o novo ano lhes seja favorável. Foto: DR

“O Santo é nosso, o Santo é nosso…o corno é vosso. E ele é nosso! E é, é, é,!” Reconhece esta cantiga popular? É bem possível que já a tenha ouvido porque é característica da festa em honra de São Gonçalo, que, todos os anos, tem direito a uns minutos de fama nos canais de televisão.

Mas ver ao vivo esta festa, que assume uma importância imensa entre a população de Gaia, especialmente das zonas ribeirinhas, é outra coisa. A Praça deixa-lhe algumas luzes sobre o que vai encontrar nas ruas do centro histórico de Gaia, este sábado e domingo.

A primeira romaria do ano em Portugal homenageia S. Gonçalo, o padroeiro dos homens do mar, mas também S. Cristóvão, protector dos barqueiros do rio, e S. Roque, protector dos antigos carpinteiros navais e calafates e protector contra a peste. Confuso?

Nós explicamos – é aqui que fica a perceber também o sentido da tal cantiga. As origens desta festa remontam à Idade Média, quando o santo protector dos homens do mar, mareantes, marinheiros e pescadores era São Pedro Gonçalves. E, em tempos idos, todos os mareantes da zona, incluindo os de Vila Nova de Gaia, eram obrigados a ir à procissão organizada pela “confraria da sua invocação [fundada em 1394], também dita do Corpo Santo de Massarelos”, nesta freguesia do Porto, conforme explica o arqueólogo e historiador J. A. Gonçalves Guimarães, no livro “São Gonçalo e São Cristóvão em Gaia”.

“Ora, os mareantes de Vila Nova de Gaia, para além de serem obrigados a ir à procissão do Porto [no dia do santo, 10 de Janeiro], também tinham a sua procissão no domingo seguinte por autorização de D. Manuel I”, conta-nos o também director do Solar dos Condes de Resende.

O grupo mais antigo de festeiros a S. Gonçalo é o que chegou aos nossos dias. É da sede dos Mareantes do Rio Douro, na freguesia de Santa Marinha (na zona ribeirinha de Gaia), que sai, “todos os anos, numa manhã fria de Janeiro, o cortejo dos festeiros”, depois da missa na Capela de Nossa Senhora da Piedade.

Os que vão à frente vestem como “no tempo do Marquês de Pombal”. Um deles leva a cabeça de São Cristóvão e o outro a imagem de São Gonçalinho. Seguem acompanhados “de um cumpridor de promessa vestido de S. Roque”, explica Gonçalves Guimarães. Na cabeça, alguns figurantes levam cabeleiras restauradas, todos os anos, com minúcia por Israel Matos, o actual dono da casa centenária Cardoso Cabeleireiro.

É com o rufar dos bombos, tambores e caixas de guerra que o cortejo percorre as ruas de Gaia para saudar o “bom povo” e levá-lo consigo até à Igreja de Mafamude.

É no adro da igreja que, pela tarde, os mareantes se encontram com os dois grupos de festeiros da Rasa, da freguesia de Mafamude. Depois de os festeiros cumprirem o ritual de entrar na igreja com a cabeça do santo voltada para a porta, rezarem para que o novo ano lhes seja favorável e colocarem as ofertas no altar, o público presente irrompe numa explosão de alegria cantando: “E ele é nosso! E é, é, é!”

É “nosso” e não de “Massarelos”. Percebeu agora? O cortejo regressa depois à beira-rio e, este ano, acontece, pela primeira vez, uma reconstituição de uma “Merenda como Antigamente”. Acontece depois do cortejo, no centro histórico, na sede da colectividade.

Para além do cortejo, ponto alto da romaria, o Mercado à Moda Antiga recria, na mesma zona, sábado e domingo, os usos e costumes do final do século XIX, início do século XX. Domingo há uma Regata de Remo (12h30).  Entre sábado e 23 de Janeiro, decorre um evento gastronómico em quase 20 restaurantes de Gaia.

Sábado e Domingo