23 Set 2012, 23:48

Texto de Pedro Rios

Praça

A velha Lille ganhou nova vida graças à arte

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Capital Europeia da Cultura em 2004, a discreta cidade francesa, ligada ao Porto pela Ryanair, tornou-se um pólo cultural interessante para uma escapadela.

Foto: DR

Foto: DR

Temos à nossa frente um prato com umas generosas batatas fritas. Envolvidos no molho, castanho, pedaços de bife cozinhados em cerveja esperam o nosso garfo. Estamos num restaurante tradicional na Rue des Vieux Murs, na “Velha Lille”, e à nossa frente estão carbonnades flamandes.

Merecemos o repasto, regado a cerveja de produção local, nesta espécie de adega com omnipresente cheiro a queijo (é o bem local Maroilles). As gentes de Lille chamam a sítios como este estaminet (o nosso chama-se Au Vieux de la Vieille).

Merecemos o repasto, dizíamos: é que Lille é uma cidade média (tem 220.000 habitantes, pouco menos que o Porto), mas tem muito para ver.

Nos últimos anos, muito por culpa de ter sido Capital Europeia da Cultura em 2004, esta discreta cidade do Norte de França, vizinha da Bélgica, tornou-se um pólo cultural interessante para uma fuga de fim-de-semana. Coisa fácil e barata: a Ryanair liga, desde 2009, o Porto a Lille.

No coração da cidade

A 10 minutos a pé do nosso estaminet está a Grand Place (na verdade chama-se Place du Général de Gaulle, mas quase ninguém usa o nome oficial). É um bom local para começar uma visita a Lille.

Estamos no coração da cidade onde nasceu, em 1890, aquele general e Presidente francês.

Já foi o mercado da cidade, agora é um dos locais preferidos do povo de Lille nos dias de sol – não faltam cafés e restaurantes com vista para um concentrado da rica história arquitectónica da cidade, muito diferente da maioria das urbes francesas devido à influência flamenga.

Na Grand Place, encontramos a elegante Velha Bolsa (Vieille Bourse), aberta no século XVII, onde hoje se vendem objectos usados e o povo joga xadrez nas horas vagas.

Do outro lado da praça, está a Furet du Nord, uma das maiores livrarias da Europa, na Grand Place desde 1959. Num dos edifícios olha para nós um sol dourado com o rosto de Luís XIV. Deve-se ao “Rei-Sol” a existência da Porta de Paris – o monarca queria uma porta digna para entrar em Lille.

Gaufres de Estado

Caminhamos um pouco e estamos na pâtisserie preferida de Charles de Gaulle em criança, a Meert. É a mais velha confeitaria e casa de chá de Lille (e talvez de França), fundada em 1761. Provamos os famosos gaufres, obras de arte gustativas com açúcar, manteiga e baunilha Madagáscar, e percebemos a fixação de de Gaulle. O estadista gostava tanto deles que os oferecia às visitas de Estado.

Ali perto, encontramos o Palais Rihour, convertido em posto de turismo. É um edifício de poucos confortos, um reflexo da sua idade – com construção iniciada em 1453, é um dos raros vestígios de arquitectura gótica flamejante (típico de França) em Lille. Recuperado em 2004, está de cara lavada.

Mergulhamos na medieval Velha Lille (onde comemos as nossas carbonnades flamandes), exemplarmente mantida. O centro histórico é também o centro comercial da cidade, com as suas casas e casinhas com fachadas de cores quentes e cuidadas composições de tijolos e pedra.

Património mundial desde 2005, o edifício da Câmara de Lille tem uma torre que olha a cidade do alto dos seus 104 metros. Subir os seus infinitos lanços de escada não é para qualquer um, mas a vista recompensa. Foi o primeiro edifício em França com mais de 100 metros a ser construído apenas com betão armado.

Cidade dentro da cidade, a citadela, um forte em forma de estrela construído entre 1667 e 1670 (um tempo de recorde só conseguido pela mobilização de milhares de populares) por ordem de Luís XIV, que tinha conquistado a cidade.

A citadela é uma obra-prima da arquitectura francesa, militar ou não. Vauban, o arquitecto, quis fazer a rainha das citadelas. Os militares ainda a ocupam, mas podemos fazer uma visita guiada organizada pelo posto de turismo.

Uma cidade de arte

Lille pode ser pequena, mas tem atractivos de sobra para quem gosta de cultura. A cidade apostou nas artes para se renovar e, em 2004, foi Capital Europeia da Cultura.

A vida cultural de Lille tinha já locais de relevo como o L’ Hospice Comtesse, um hospital do século XIII transformado em museu, mas, sobretudo, o Palácio de Belas-Artes, considerado um dos melhores museus generalistas de França.

Nos seus 22.000 metros quadrados há quadros de pintores europeus (Rubens, Van Dyck, Goya, Delacroix), desenhos de Rafael, esculturas de Rodin e outros mestres.

Na colecção destacam-se também os vários mapas em relevo de 15 cidades fortificadas do Norte de França e da Bélgica, usados pelos reis franceses em períodos de guerra. Ficámos impressionados pelo detalhe, mais ainda quando demos conta de que olhávamos para mapas do século XVIII.

Vale a pena sair da cidade e percorrer uns 14 quilómetros até Roubaix para descobrir um museu em que esculturas (de Rodin a Picasso) repousam junto a uma piscina.

Estamos em La Piscine, uma piscina dos anos 1930, maravilha art déco desenhada por Albert Baert, que, depois de desactivada, deu lugar a um museu, em 2001. A visita justifica-se pelas obras e pela história do espaço, construído como um verdadeiro “templo de higiene” para ricos e pobres. À saída, ou numa pausa, podemos provar os gaufres da Meert no restaurante do museu.

Mas a Capital Europeia da Cultura deu um fôlego de modernidade a este cenário. Transformou edifícios industriais abandonados em maisons Folie, verdadeiras “casas da cultura” usadas por artistas e populações.

A Capital Europeia da Cultura durou apenas o ano de 2004, mas deixou marcas profundas na cidade. Estimulou uma prática regular de aposta na cultura, nomeadamente através da organização Lille3000.

Entre 6 de Outubro e 13 de Janeiro de 2013, a cidade volta a deixar tomar-se pelas artes com o programa “Fantastic” (haverá exposições, intervenções urbanas, peças, concertos, ateliês). Uma óptima altura para viajar até Lille.

A Praça viajou a convite da Ryanair e do Turismo de Lille.

  1. filipa freitas says:

    boa tarde!
    parabéns por ajudar Lille a estar no mapa da cultura pelo fotos que pude vir é uma cidade linda….gostaria um dia de puder visitá-la…
    não sei se me poderá ajudar no esclarecimento de uma informação, é que a minha mãe teve 2 filhos nessa cidade e na altura, 1973 a câmara de lille dava um certo valor monetário a essas crianças, acontece que a minha mãe voltou pouco depois para a ilha da Madeira onde reside desde então….no outro dia estavamos à conversa e ela falou de esse assunto…chegou a abrir conta em nome dessas crianças mas passaram-se estes anos todos cerca de 39 anos e nunca mais soube o que foi feito desse valor monetário. Foi aí que resolvi pesquisar na net onde se situa a câmara e a ver se obtenho respostas a este assunto….
    obrigada pela atenção e se tiver alguma informação que me possa ajudar agradeço imenso,
    Bom ano,
    Filipa Freitas