12 Jun 2011, 10:30

Texto de Ana Isabel Pereira

Praça

Ficção guiada pelo espírito dos lugares

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A Visões Úteis propõe 4 percursos em mosteiros do Grande Porto que cruzam identidade cultural, criação artística, inventário religioso e turismo.

No Mosteiro de Santo Tirso de Riba d’Ave, tocam os sinos e ouvimos a voz de um professor – talvez de História – que nos descreverá ao pormenor o claustro e a igreja. De vez em quando, será interrompido por outras vozes que contam histórias paralelas, numa visita encenada e feita de auscultadores na cabeça e leitor de MP3 na mão.

A Praça fez um dos Audio-Walks que a companhia portuense Visões Úteis propõe em 4 mosteiros do Grande Porto. Não se trata de visitas guiadas, como as dos museus.

São 4 percursos de cerca de 25 minutos, que cruzam identidade cultural, criação artística, inventário religioso e turismo. A experiência está disponível desde 23 de Maio e ainda não tem data para acabar. “Depende muito dos sítios. Nós acordamos com cada mosteiro os horários e as condições de visita e são voluntários que entregam o material ao público”, explica Ana Vitorino, co-directora artística e de produção da Visões Úteis

A também actriz explica que a partir do final do mês, os Audio-Walks e outros conteúdos artísticos relacionados com o projecto estarão disponíveis online, para visualização e download.

A Visões Úteis foi convidada pela Diocese do Porto a criar estes percursos artísticos no âmbito de um projecto chamado Viagens com Alma, que pretende dar visibilidade e dinamismo ao património cultural da Igreja no distrito e realçar a influência de Cluny, uma Ordem Beneditina fundada há 1100 anos, neste património, depois de a companhia ter apresentando uma instalação multimédia nas comemorações desta efeméride, em França.

“Os 4 Audio-Walks estão ligados e, no entanto, têm grandes diferenças entre eles, porque os 4 mosteiros também são muito diferentes”, explica Ana.

Há várias vozes que se repetem nos 4 percursos, como a da personagem principal, o professor de que já lhe
falamos. Há instalações artísticas que diferem de uns para os outros e que se confundem com a arquitectura dos espaços.

A ideia é mesmo essa, diz Ana Vitorino: “fazer com que as pessoas queiram saber mais sobre o próprio sítio”.

“E o C, é de quê?”

Em Santo Tirso, o Audio-Walk começa no claustro do mosteiro. Era aqui que, em tempos idos, enterravam os mortos. Por causa disso, as fundações do mosteiro, que já existia no século X, chegaram mesmo a ceder, obrigando a Igreja a transladar os corpos e a refazer as arcadas.

Nas arcadas, somos confrontados com um mistério: a tumba número 21 tem uma inscrição que ninguém consegue explicar. A letra C está gravada no granito, mas “C que quê?”, perguntam insistentemente as vozes deste Audio-Walk.

A igreja seiscentista foi construída por Frei João Torreano, monge de S. Bento e engenheiro mor do reino. O professor chama a nossa atenção para os detalhes da sua construção. Tem uma única nave, coberta por uma ampla abobada, e apresenta elementos de “vários tipos de barroco: o joanino, o nacional, o rococó”.

É por uma passagem estreita que saímos da igreja. Lá ao longe, no Audio-Walk, ouvimos 2 ladrões planearem o assalto à igreja.

Este Audio-Walk termina onde começou, no claustro do mosteiro. Aqui, ouvimos agora a história do sacristão
cego, responsável pela limpeza do órgão de tubos da igreja, que faleceu faz pouco tempo. Em cada um dos 4 Audio-Walks, há uma história de um sacristão que é cego e que tem um dom especial. Um destes sacristães existiu de verdade, mas ao público nunca é dito em qual dos mosteiros.

“Nem tudo é real, nem tudo é ficção e muitas coisas são reais mas não aconteceram no sítio onde as pomos a acontecer”, resume Ana Vitorino.

Os Audio-Walks têm entrada gratuita e estão disponíveis nos mosteiros de Santo Tirso de Riba d’Ave (3ª a sábado, 15h30-17h30), de São Pedro de Cête (sábado, 17h-19h), de São Salvador de Paço de Sousa (3ª, sábado e domingo, 15h-17h) e de São Salvador de Vairão (domingo, 15h-18h).