Image de Em ‘casa’ dos tetranetos da Ferreirinha

Fotos: Nataniel Diogo

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Imagem de Em ‘casa’ dos tetranetos da Ferreirinha

11 Jun 2012, 16:32

Texto de Ana Isabel Pereira, com Nataniel Diogo (fotos)

Praça

Em ‘casa’ dos tetranetos da Ferreirinha

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O Hotel Rural Vínico da Quinta do Vallado é um projecto singular que conjuga o melhor que o Douro tem para oferecer: história, tradição, gastronomia e vinho.

Três palavras sintetizam a experiência do Douro que o novo Hotel Rural Vínico da Quinta do Vallado, em Vilarinho dos Freires, Peso da Régua, proporciona: tradição, modernidade, hospitalidade.

O edifício assinado pelo arquitecto Francisco Vieira de Campos e inaugurado em Abril veio dar outro cunho e dimensão ao projecto de enoturismo iniciado em 2005 pelos tetranetos de D. Antónia Adelaide Ferreira, João Alves Ribeiro e Francisco Olazabal – até aqui, a casa tradicional de cor ocre, que outrora pertenceu à lendária Ferreirinha e foi reconstruída há 7 anos, funcionou como guest house.

Aos 5 quartos, juntam-se agora 8, no novo edifício, uma ‘faixa’ revestida com xisto de Foz Côa, 2 pisos, tectos em betão à vista e mobiliário nórdico vintage que partilham o espaço com materiais de origem nacional.

“O enoturismo estava a correr bem. Com a casa, tínhamos uma taxa média de ocupação de 60% – no Verão estava sempre cheio – e chegou-se à conclusão de que era preciso crescer”, explicou à Praça a directora do hotel, Cláudia Ferreira.

A oferta dos 2 edifícios é agora complementar. “O ocre representa o passado e o xisto o momento actual”, observou, enquanto nos guiava pela adega, Cristina Pereira.

Dando a volta à casa, cujo piso superior está reservado para os donos da quinta, encontrámos uma antiga capela, com o brasão dos Teixeira, a família a quem a “Ferreirinha” comprou a quinta, e uma fonte de forma octogonal em granito.

“Se alguém pedir para visitar [a capela], nós mostramos. E na Páscoa celebramos aqui a missa”, diz a directora do hotel, Cláudia Ferreira.

Mobiliário nórdico e materiais nacionais

As zonas comuns foram decoradas com mobiliário nórdico de design, em madeira e peles, e são ‘acompanhadas’ por uma parede envidraçada que dá para o jardim-relvado no exterior e permite ver a A24 que nos trouxe à Régua, dissimulada pelas curvas dos socalcos vínicos do Baixo Corgo.

Na biblioteca, para além do mobiliário, impressionam a colecção de livros – os hóspedes também têm à disposição iPads com assinaturas de alguns jornais – e a lareira em xisto.

“Algumas peças são usadas e foram compradas em leilões na Dinamarca. Foram escolhidas pessoalmente pelo João Alves Ribeiro”, explicou-nos Cláudia Ferreira. Os livros – que folheámos e em cujas páginas encontrámos datas e notas escritas à mão – eram da casa e “estavam guardados em caixotes”.

Ficámos no quarto instalado por cima da recepção e, entre o aroma a flor de laranjeira – os quartos são aromatizados com cheiros cítricos da Castelbel – e o cheiro da terra e da relva húmidas, dormimos um sono retemperado, para acordar com o chilrear dos pássaros e o barulho da água que brota da fonte de pedra.

Mesa prendada

O segredo do luxo simples que se experimenta na Quinta do Vallado está nos pormenores. Os produtos da horta, que conduz os hóspedes à piscina, e os frutos que nascem na quinta – no nosso passeio a pé pelas vinhas, vimos cerejeiras, laranjeiras, oliveiras e nespereiras – são para uso exclusivo do hotel. Com eles, a quinta faz compotas e marmelada para ‘mimar’ os hóspedes na primeira refeição do dia.

E são usados por mãos prendadas, da terra. Um rosbife no ponto com batata palha caseira, sequinha, e laranja laminada em redução de vinho do Porto, flor de anis e pau de canela e com raspas de chocolate foram 2 das iguarias ‘simples’ que provámos no restaurante do hotel – que serve grupos e hóspedes mediante marcação. Ficámos com água na boca só de ouvir falar de outra: o cabritinho assado em vides, nas vides que vimos no passeio a pé pela quinta. Fica para a próxima!

No Verão, serão servidas no exterior do hotel “tapas, sanduíches, saladas e vinho a copo”, entre as 13h e as 18h, adiantou à Praça a directora do Quinta do Vallado.

A adega

A nova adega da Quinta do Vallado, desenhada pelo mesmo arquitecto que projectou o hotel e inaugurada em 2010, está entre os finalistas dos prémios FAD 2012 (que serão entregues 12 de Julho, em Espanha), um dos mais importantes galardões de arquitectura ibérica. E, em Novembro, já tinha feito furor na revista Wallpaper.

É possível visitar o edifício de segunda a domingo entre Maio e Outubro e de segunda a sábado no resto do ano. A visita – às 11h30, 15h30 e 17h30 – está incluída no preço do quarto; para quem vem de fora custa 7,5 euros por pessoa. Inclui a prova de 2 vinhos de mesa, um branco e um tinto, e um Porto Tawny 10 Anos.

Mas “há provas mais elaboradas”, diz Cláudia Ferreira. Por 25 euros, por exemplo, é possível provar 3 vinhos e degustar queijos e enchidos. Por 20, dão-lhe a provar 5 vinhos de uma gama mais alta.

Na loja, é possível adquirir os vinhos Quinta do Vallado “a preço de adega”.

Propriedade com história

A Quinta do Vallado é de 1716, ou seja, é anterior à demarcação do Douro pelo Marquês do Pombal e uma das 3 propriedades que asseguram a produção da empresa vitivinícola. “Foi adquirida pelo tio e sogro da D. Antónia um século depois”, explicou à Praça Cristina Pereira, responsável pela loja e pelas visitas guiadas.

No final dos anos 80, a propriedade seria vendida à Sogrape, regressando às mãos da família nos anos 90. “Começamos a produzir vinhos próprios e apostámos nos vinhos de mesa. Actualmente, estamos a tentar chegar às 500 mil garrafas por ano”.

Os preços para ficar no Hotel Rural Vínico da Quinta do Vallado variam entre 100 e 200 euros (noite em quarto duplo), sendo que este é o preço da suite na altura das vindimas.

Passar o tempo

Receber uma massagem junto à piscina (sob marcação), fazer um passeio pedestres guiado, andar de bicicleta, de barco e de jipe, pescar no rio Corgo, fazer um piquenique no meio das vinhas, assistir a aulas de cozinha tradicional, provar vinhos, aprender o bê-á-bá das provas de vinhos e participar nas vindimas são as actividades disponíveis para os hóspedes.

A poucos minutos do hotel, vale a pena observar a paisagem da Região Demarcada do Douro do alto do miradouro de São Leonardo da Galafura.