Image de Ó Elvas, como és linda e és tesouro deste Portugal!

Fotos: André Rubim Rangel

Imagem de Ó Elvas, como és linda e és tesouro deste Portugal!
Imagem de Ó Elvas, como és linda e és tesouro deste Portugal!

2 Abr 2017, 16:51

Texto de André Rubim Rangel

Praça

Ó Elvas, como és linda e és tesouro deste Portugal!

“Ó Elvas, ó Elvas,
Badajoz à vista.
Sou contrabandista
De amor e saudade
Transporto no peito
A minha cidade”
(Paco Bandeira).

Falar de Portugal no seu melhor – no bom e pleno sentido –, falar dos encantos nos recantos da nação lusitana e falar do mais belo que Portugal, como as suas terras, lendas, gentes e paisagens é, indiscutivelmente, falar também de Elvas, uma das mais lindas cidades na região alentejana. Para conhecermos melhor algumas das preciosidades turísticas deste tesouro fortificado, fomos in loco, em reportagem por uns dias e que aqui deixamos como uma ótima opção – dentro do país – para uma interrupção em torno da Páscoa e das festas pascais. Nessas preciosidades recomendamos, concretamente, a experiência por uns dias no Hotel São João de Deus (outrora convento) e no restaurante ‘A Coluna’. E quem não deseja ficar apenas por ali, sempre pode inserir neste programa um passeio pela vizinha Espanha, a outra cidade património mundial da Humanidade. Assim é Mérida, tal como Elvas, com o seu esplêndido conjunto monumental arquitetónico. Elvas assinalará cinco anos deste feito histórico – título concedido pela UNESCO – em junho deste ano!

C) 1.ª parte, entre o leed e o 1.º subtítulo

Quem não conseguir visitar Elvas, pela Páscoa 2017 (meados de abril), tem sempre outras oportunidades de interesse maior a registar na agenda, tais como: a feira anual no 3.º domingo de maio; ou o festival medieval de Elvas, a principal recriação histórica da cidade que se realiza, na zona do castelo, no primeiro fim de semana de julho; ou, ainda, as festas ao Senhor Jesus da Piedade, de 20 a 25 de Setembro (na periferia de Elvas), consideradas a maior romaria de todo o Alentejo. São um misto de sagrado (com a realização da «procissão dos pendões», uma peregrinação datada de 1737 e que assinalava um milagre) e de profano (com a feira já existente no séc. XVI). Embora o feriado municipal de Elvas seja a 14 de janeiro.

Não haja a mínima dúvida que, agora e em qualquer tempo, Elvas exige uma visita de carácter obrigatório. Estamos perante um espaço de cultura entre muralhas e uma das mais importantes fortificações abaluartadas do mundo – pelo menos das maiores (num perímetro total superior a 10km) e das mais bem conservadas –, com um riquíssimo legado histórico, por isso conhecida e reconhecida como a “cidade-fortaleza” ou a “rainha da fronteira”! Tem duas “cidades gémeas”, ambas espanholas: Badajoz (a +/- 10km de Elvas) e Olivença.

Elvas, sede de concelho e de comarca (dentro do distrito de Portalegre), alteia-se a 200 metros, numa encosta de monte áspero e penhascoso, sendo habitada por cerca de 25.000 pessoas (atingiu o seu pico no ano 1950, com 29.969 habitantes, desde que estatisticamente contabilizado a partir de 1864). Revigoram, nos seus campos férteis de pastagens, os cereais e as árvores de fruto. Em termos agrícolas (de sustento da terra) e industriais, de realçar que – para além dos muitos produtos alimentares que ali abundam (como o tomate, o arroz, o trigo, o centeio, a cevada e o milho) – Elvas possui fábricas de descasque de arroz, de conservas de tomate e de azeitonas, e de fabricação de gelados. No âmbito artesanal e cerâmico, mantém-se – naquela área – a produção de vasilhas de cobre e latoaria. Na área da saúde, localiza-se em Elvas o hospital de Santa Luzia, com vários serviços, e o centro de saúde. No foro desportivo/recreativo, Elvas possui alguns clubes e espaços inerentes às seguintes modalidades: futebol, hipismo, natação, pesca, tiro, caça, tourada e desportos radicais, para além de alguns pavilhões multiusos e auditórios.

Como cidade caracterizada e desenvolvida em função das suas muralhas e fortificações, Elvas não é exceção à estrutura comum de outras cidades-fortalezas, em ter o seu centro histórico dentro das muralhas e a parte habitacional fora das mesmas. Registam-se, assim – em toda a cidade com as suas freguesias –, a existência de 19 bairros e 14 urbanizações; 3 zonas industriais e 4 parques empresariais e/ou comerciais; 24 escolas (incluindo uma secundária, duas de ensino superior, três jardins-de-infância, dois colégios e dois semi-internatos, sendo o restante – a maioria delas – de ensino básico) e 7 universidades sénior; 2 parques de campismo, 3 parques de caravanas e 2 jardins; 8 museus e mais 5 espaços culturais (arquivo histórico municipal, centro interpretativo do património, biblioteca municipal, Casa da Cultura – antigo paços do concelho – e Coliseu de Elvas, com capacidade para 7.500 espectadores sentados); a estação ferroviária; os bombeiros; e, ainda, 2 rádios, 5 periódicos de imprensa e 6 portais (digital).

Particularmente interessantes, consideramos de eleição as seguintes ruas elvenses, dentro da área amuralhada: primeira e especialmente, a “rua das Beatas”, uma das mais cintilantes, picturais e turísticas de Elvas. Por ser estreitamente viçosa num corrido plantado e florido de cada lado da rua, com vários vasos e floreiras, contrastando com as paredes caiadas, com as casas bainhadas (na base) de um suave amarelo-torrado. Assim é, também, o envolto emparedado das portas. A própria câmara municipal apostou na beleza e caracterização daquela rua única e, em 2013/4, construiu ali alguns poiais e forneceu vasos aos moradores dessa rua, recuperando a tradição daquele recanto cheio de encanto. Que linda rua, mesmo linda!

Depois, aquelas vias especificamente dedicadas às profissões e ao trabalho/encontro que ali se realizava dessas classes sociais, como a “rua dos Oleiros” e a “rua dos Esteireiros”, a “rua dos Sapateiros” e a “rua dos Cavaleiros”, o “beco do Pintor” e o “beco do Provisor”, ou a “rua dos Frades” e o “beco das Freiras”, bem como a “rua do Sineiro”. De registar uma larga ‘praça’ chamada “parada dos Reformados”.

Também há aquelas ruas que – com o seu próprio nome – identificam os lugares com aquilo que neles se encontra. Por exemplo, a “rua das Seis Casas” (é sem saída, que só tem mesmo meia dúzia de habitações, umas em frente às outras), a “rua dos Currais”, a “rua da Cadeia”, a “rua dos Falcatos”, a “rua da Feira” e a “rua dos Lagares”.

Igualmente as ruas com materiais obras-primas da natureza: a “rua da Pedra” e a “travessa do Ferro”.
De designar aquelas ruas que não esquecem os animais e que os inserem na toponímia da cidade: a “rua do Touro”, a “rua do Cabrito” e o “beco do Rato”.

Por fim, para além daquelas ruas – mais usuais em qualquer urbanidade – atribuindo o nome a uma figura emblemática do país, a datas históricas e/ou a figuras populares religiosas, há ainda aquelas intituladas com o nome da família que ali vivia, como são os casos da “rua dos Fagundes” e o “beco do Aranha”.

DESCREVER ELVAS É ESCREVER HISTÓRIA…
Vamos, um pouco, à sua história, que muito compõe a História de Portugal. Elvas é uma terra bem antiga, habitada desde os tempos neolíticos. Estima-se que foi, primeiramente, povoada pelos Godos e pelos Celtas, alguns séculos antes de Cristo.

E o que nos fica deste período? Monumentos profundamente históricos e antigos, que merecem uma visita. São eles as Antas de Elvas. Há 18 antas, ou dólmens, à volta da cidade, divididos em dois circuitos: o de Barbacena (onde as antas da Coutada e do Torrão são considerados Monumentos Nacionais) e do Guadiana, circuito que contorna o rio.

Há outros tipos de monumentos – os menires –, que também abundam pela província alentejana. Apesar de estes monumentos megalíticos tumulares terem sido construídos entre os milénios V e III a.C., por esses povos pré-históricos (e, porventura, outros também), as rotas turísticas para explorar o conhecimento das antas, do circuito arqueológico de Elvas, foi somente inaugurado no final do século passado (em 1999).

No séc. II a.C., por volta do ano -190, os romanos alargaram o seu império, entrando pelo sul da Península Ibérica, integrando assim esta terra e região, a quem deram o nome de «Helvas». Depois, no ano 714, os árabes conquistaram Elvas (que com o tempo perdeu o «h», ficando apenas ‘Elvas’) e deixaram marcas da sua presença.

Como é, por exemplo, o caso notável do castelo de Elvas, que assenta sobre uma estrutura muçulmana, podendo ser atualmente vista em duas cinturas das muralhas.

Prosseguindo, por esse mesmo séc. XIII. Foi D. Sancho II, em 1226, que conseguiu que a fortaleza / fortificação de Elvas ficasse definitivamente na posse de Portugal, depois de nova tomada aos mouros. O castelo foi restaurado e concluído em 1228, mantendo a sua estrutura militar medieval, e ficou pioneiramente registado no património de Portugal: é o 1.º imóvel classificado como «Monumento Nacional» (em 1906). Quanto à fortaleza, ela é imponentemente composta por sete baluartes e quatro meios-baluartes e completa-se com dois Fortes: o de Santa Luzia (construído entre 1641 e 1648) e o da Graça (entre 1763 e 1792, chegando a ter mais de 15.000 militares). E cada um no seu monte extremo, como que dominando e posicionando a cidade. Elvas foi elevada a esta categoria – de cidade –, por D. Manuel I, em 1513 (com novo foral, depois dos forais concedidos por D. Afonso Henriques – que conquistou Elvas, pela primeira vez, aos mouros – e por D. Sancho II).

E) DESCREVER ELVAS É ESCREVER HISTÓRIA…
Com a restauração da independência nacional (o feriado de 1/12/1640), Elvas tornou-se na primeira localidade fronteiriça permanentemente fortificada, tendo-se construído nova fortificação (sobre a que existiu antes, edificada por romanos e árabes) entre 1645 e 1653. Em termos de defesa territorial, de salientar que no período de 1643 a 1792, o conjunto atual da praça de armas contou – em tempo de guerra – com uma guarnição de 7.000 homens e foi depois defendida, no início do séc. XIX, por 557 peças de artilharia.

Ora, como referi antes, o dia de Elvas assinala-se anualmente a 14 de janeiro, por uma razão muito simples. Não se trata do calendário litúrgico de um santo popular. Não. Porém, da história da cidade e da insigne História do Condado Portucalense. A 14 de janeiro de 1659, Elvas conquistou a sua mais fundamental batalha de sempre (que se iniciou na segunda metade do ano anterior), saindo naturalmente vitoriosa perante os castelhanos, nessa batalha denominada de «Linhas de Elvas», com o desfecho da guerra da Restauração que ali impediu que os espanhóis rumassem a Lisboa. Com a batalha, outra batalha se impunha naquela altura e que muito dizimou a população e os demais soldados: um surto de peste em Portugal.

Recorde-se que Elvas, e a sua majestosa fortaleza, foi um lugar de eleição e especial cenário de muitas efemérides da alta Idade Média, a entrar na Idade Moderna. Ali se realizaram algumas batalhas, cortes, tratados de paz e contratos de casamento envolvendo portugueses e espanhóis. E Elvas não é só tudo isto, mas muito mais que vai para além da sua fortificação abaluartada. Em termos arqueológicos, é impossível não registar e não apreciar nem reparar no ‘ex-libris’ da cidade: o enorme aqueduto da Amoreira (do início do séc. XVI), que se percorre em cerca de 8km, desde o local da Amoreira até à Fonte da Misericórdia, no centro de Elvas. É o 2.º maior do país, atrás do de Águas Livres (em Lisboa). O belíssimo aqueduto da Amoreira ostenta quatro ordens de camadas sobrepostas por diversos contrafortes, numa altura máxima de 31 metros. Suporta galerias subterrâneas (numa extensão de 1.367 metros), bem como um canal ao nível do terreno. Antes da construção deste recurso de água, o abastecimento era feito pelo muçulmano Poço d’Alcalá, tendo-se tornado insuficiente, até com o crescimento populacional.

O FORTÍSSIMO PATRIMÓNIO RELIGIOSO DE ELVAS
Elvas foi diocese portuguesa entre os anos 1570 e 1881/2. O rei D. Manuel I ordenou a construção da igreja de N.ª Sr.ª da Assunção, há precisamente 500 anos (em 1517), num pequeno alto que se destaca na praça principal do centro histórico, onde em tempos se erguia um templo gótico. Com construção de Francisco Arruda e características manuelinas, ali passou a ser a catedral da diocese e uma das igrejas mais emblemáticas e visitadas da cidade. Elvas passou a pertencer, posteriormente, à arquidiocese de Évora.

No seu espólio, e de possível visita aberta ao público, a Igreja de Elvas tem – para além da sua antiga sé – mais 24 igrejas (dez das quais no centro histórico e uma delas colégio jesuíta, inspiradas desde o estilo românico, passando pelo gótico e indo até ao barroco), 5 conventos (crendo-se que apenas ativo o de S. Francisco, extramuros, e que um ou dois dos quais, transformados em hotelaria), 4 capelas (somente uma no centro histórico, precisamente a de N.ª Sr.ª da Conceição – séc. XVI –, com miradouro e construída sobre uma das portas da muralha seiscentista), um santuário (o do Senhor Jesus da Piedade, no parque da Piedade, onde se realiza a peregrinação e romaria anual), os passos da via-sacra e a quinta de S. João (S. Vicente).
De todas essas igrejas, destacamos pela sua singular beleza e raridade – que, segundo o sacristão, merece o espanto de todos quantos lá entram – a igreja das Domínicas (no centro histórico, junto ao pelourinho e a uma das portas da 1.ª cerca islâmica, antigamente denominada igreja dos Aflitos – ou da Consolação). É uma obra construída entre 1543 e 1557, de planta octogonal com o seu zimbório e completamente revestida a azulejos (do séc. XVII), com frescos renascentistas e talha dourada. Antes, era ali uma igreja antiga templária, do séc. XIII. Belíssima e única na península e, até mesmo, na Europa!F) O FORTÍSSIMO PATRIMÓNIO RELIGIOSO DE ELVAS
Enfoque-se, ainda no conjunto religioso de Elvas, a capela-mor (toda forrada a ouro) e o seu formoso retábulo barroco da igreja da Ordem Terceira de S. Francisco, do início do séc. XVIII.

Olhando para as delimitações da cidade e o respetivo mapa turístico, verifica-se a influência passada de religiões na identidade deste concelho, pois nele estão assinalados os perímetros da judiaria nova, o da judiaria velha e o da mouraria. Estão, também, especificadas a primeira cerca islâmica (séc. IX) e a segunda cerca islâmica (séc. XII) – zona da antiga alcáçova islâmica –, assim como as muralhas fernandinas e as seiscentistas.

Paralelamente com o património religioso, assenta tanto no centro histórico de Elvas como extramuros uma variedade de outros monumentos importantes, que podemos resumir da seguinte forma: 6 fontes (Misericórdia, S. Lourenço, Santa Mónica, S. José, S. Vicente e do Marechal – todos eles com toponímia de génese cristã, à exceção da última, que está extramuros), 6 quartéis, 3 portas de acesso no conjunto amuralhado, 3 fortins, 2 paióis, 2 pelourinhos (um dentro e outro fora da muralha), 2 chafarizes, 2 pontes (uma delas romana, a de N.ª Sr.ª da Lapa) a torre fernandina, o cemitério dos ingleses (onde jazem os oficiais britânicos mortos durante a Guerra Peninsular – séc. XIX), o arco N.ª Sr.ª da Encarnação, a obra coroa, a cisterna, o conselho de guerra, o edifício Arte Nova, a Casa das Barcas, o poço renascentista, o padrão da batalha das «Linhas de Elvas», a ermida de Santa Catarina e a anta de Barbacena. Para além do castelo de Elvas, dos dois fortes e do aqueduto da Amoreira – já mencionados e explanados anteriormente. Existem, também, um outro castelo (de Barbacena) e um outro aqueduto bem menor: o romano do Correio-Mor.

O ANTIGO CONVENTO E ATUAL HOTEL SÃO JOÃO DE DEUS
É apontado como o melhor hotel da cidade de Elvas e da área envolvente. Confirma-se, indiscutivelmente, com as suas distintas 4 estrelas. É incrivelmente belo, hospitaleiro e inspirador com as suas influências hispânicas e árabes.
O convento de São João de Deus foi construído em Elvas em 1645 (o primeiro da sua ordem em Portugal) servindo de Hospital Militar. Em finais de 1641, D. João IV ordenou a construção de hospitais militares nas principais praças do país. Assim veio a suceder também em Elvas onde os enfermos militares foram socorridos pelos religiosos desta Ordem, ocupando o Hospital Militar parte do convento destes frades hospitalários. O edifício foi principiado em 1642 e em 1653 foi ampliado para a construção da vedoria geral, no entanto foi sempre pequeno para a quantidade enorme de feridos e doentes. Em 1659, ano da batalha das Linhas de Elvas, o hospital contava com 10 religiosos que podiam atender 350 doentes.

O Hospital Militar, ali durou até 1976, sendo depois o edifício deixado ao abandono. Em 2004 entrou em fase de reabilitação para ali ser construído o hotel, que manteve o mesmo nome. A igreja do convento foi construída junto a uma das torres da muralha fernandina que por lá ainda podemos notar. De resto é um templo muito simples e já fechado ao culto. Para percebermos melhor o que é o hotel e as suas transformações, remetemos umas questões à diretora – a espanhola Concepción Prieto –, cuja entrevista aqui publicamos:

:: O que a levou a adquirir um antigo convento e transformá-lo em hotel?
CP – Um grupo empresarial espanhol, sediado em Badajoz, adquiriu em julho de 2002, literalmente o que restava de um edifício outrora convento da Ordem de S. João de Deus e Hospital Militar. A estratégia era simples: potenciar as sinergias do grupo, através da proximidade entre os dois países (zona fronteiriça), com a criação de outros negócios em Portugal, sendo que o turismo e a logística eram duas apostas que faltam, nomeadamente em Elvas, que pela proximidade com Badajoz e Olivença, era local de eleição. Estando o grupo perfeitamente implantado em Badajoz e Olivença em diversos sectores de atividade tais como construção civil e obras públicas, agricultura, pecuária, energias alternativas e imobiliário. A empresa apostou no sector hoteleiro porque sentiu potencial e também porque visualizou naquele edifício, pela sua localização, história e beleza, que o único destino digno e proveitoso seria como unidade hoteleira. Agregando assim o factor negócio à oportunidade de dar aos turistas nacionais e internacionais a possibilidade de revisitar o passado, conhecendo parte da História de Elvas e de Portugal.

:: Que dificuldade teve de enfrentar e ultrapassar para resolver todo esse processo e manter a estrutura como hotel?
CP – As principais dificuldades centraram-se no processo, propriamente dito, de reconstrução/adaptação para unidade hoteleira, pois tratava-se de um edifício do séc. XVI, que se encontrava em muito mau estado de conservação: estava colocado ao abandono. Em segundo lugar, o processo de licenciamento, pois dada a intervenção do IPPAR – tanto no desenrolar da reconstrução como nos tramites administrativos, pela complexidade inerente ao facto de se estar a tratar com um edifício classificado –, implicaram uma demora adicional. E em terceiro lugar, a aprovação da classificação e atribuição de 4****, pela Direção Geral de Turismo, já que alguns dos requisitos exigidos não eram de fácil cumprimento. Em algumas situações colocavam em causa as características arquitetónicas e estruturais do edifício. Todavia, ultrapassadas as dificuldades, o hotel iniciou a sua atividade em setembro de 2004.G) O ANTIGO CONVENTO E ATUAL HOTEL SÃO JOÃO DE DEUS

:: Quais os critérios e condicionantes exigidas que imperaram para que mantivesse toda uma linha e sinais do convento?
CP – Pelo seu valor e importância histórica e pelo conjunto patrimonial (classificado) a que pertence, as exigências fundamentais respeitam ao exterior do edifício, pois teria de ser mantida a arquitetura do convento. Estamos a falar ao nível da pintura, cobertura, janelas e caixilharias, portas e zonas verdes exteriores.

:: O que prevalece ainda hoje do antigo convento?
CP – Praticamente toda a estrutura, observada do exterior é a do antigo convento. No interior, alguns espaços coincidentes mantêm a arquitetura clássica. No restauro mantiveram-se as estruturas arquitetónicas e os materiais antigos. O campanário, onde soava o sino, as guaritas vigilantes sobre o baluarte, as sacadas, os arcos, os muros de pedra, toda a arquitetura firme e resistente de outrora.

:: Como analisa este dualismo de estilo que cruza o antigo com o moderno, bem como com algumas das influências visíveis entre a hispânica e a do norte de África?
CP – A circunstância da necessidade de preservação da história e tradições do passado, que a nosso ver é perfeitamente correta e obrigatória. É o mesmo que trazer a nossa identidade para o presente, que é uma das exigências atuais. Porque o progresso é constante e fluido, o esforço e o êxito estão na capacidade para ligar, com estilo e originalidade, as duas épocas. Os impérios coloniais português e espanhol, dada a sua elevada expressão, à época, trouxeram com eles para as suas origens várias influências, a nível arquitetónico, religioso, gastronómico, social, entre outras, que perduram até aos nossos dias e das quais tiramos proveito. No nosso caso, ao nível de negócio. É de grande responsabilidade, a exigência da perfeição na dualidade e igualmente exigente é conservar e perpetuar as nossas influências. E isso também faz parte integrante do negócio e é investimento com retorno.

:: Por norma, o que mais cativa / encanta os clientes neste hotel?
CP – O facto de se terem mantido as características arquitetónicas complementadas com as que em seguida são descritas, bem como a sua localização são sem dúvida o que mais atrai e encanta os clientes. Os quartos estão decorados com mobiliário tradicional português, todos distintos, conseguindo em cada, um ambiente confortável e agradável. Dependendo da localização, dispõem de amplos terraços ou janelas com vistas sobre a cidade e os arredores. São 56 quartos que dispõem de casa de banho completa, com secador de cabelo, telefone, minibar, caixa forte, ligação à internet, climatização. Dispõe de um amplo salão, “Rei D. João IV” (de 750 m2 com capacidade para 1200 pessoas, no piso inferior do edifício), apropriado para encontros profissionais e acontecimentos privados. Conserva todas as colunas e abóbadas da sua primitiva construção em mármore, granito e tijolo. Renovou-se o chão com mármores atuais de alta qualidade. As suas dimensões e versatilidade de uso fazem dele um espaço adequado para casamentos, congressos, cerimónias, certames, comidas de empresa ou banquetes. O hotel oferece outro salão, o “Luís de Camões” (de 60m2, para pequenas reuniões com 50 pessoas, no máximo). Em direção ao baluarte abre-se um tranquilo pátio, antiga horta, ladeado de arbustos e plantas ornamentais, que convida ao sossego e à intimidade. Num piso mais alto, o adarve da muralha com vista para o pátio, um jardim de oliveiras centenárias orienta o caminho até às piscinas situadas por cima da fortaleza. Desde ali, a vista estende-se pela paisagem e recebe ao seu passo as imagens do forte de Santa Luzia e do Aqueduto da Amoreira. O restaurante do Hotel, “O Rei D. Sebastião”, com espaço para 90 pessoas, propõe um espaço acolhedor, tranquilo e inspirador.

:: Deseja torná-lo com a categoria de 5 estrelas? O que falta para tal e quando?
CP – A excelência deve ser sempre o objetivo de qualquer negócio. Temos a classificação de 4****, mas não foi fácil conseguir dadas as dificuldades atrás enunciadas. Consideramos já uma classificação de excelência, pois mais difícil que consegui-la é mantê-la. Todos os dias trabalhamos para isso, queremos cimentar e vincar cada vez mais a nossa posição e estilo e, naturalmente, a passagem ao outro nível surgirá. Vamos evoluir com a nossa cidade património mundial, somos uma empresa ainda jovem, por isso temos vontade de vencer mas sem pressa. A classificação implica mais investimento financeiro, com carácter regular e mais investimento nas pessoas.

:: Que ideias, novidades e projetos futuros têm para o hotel?
CP – Transformar o hotel numa referência nacional e internacional e ser um motor da economia local.

A GASTRONOMIA DE ELVAS E O RESTAURANTE ‘A COLUNA’
Há quem aponte o peru recheado como o prato típico de Elvas, mas seguramente outras especialidades se destacam, entre as carnes ensacadas, o bacalhau dourado (inscrito no ‘Livro do Guiness’, dado que o maior do mundo já feito foi confecionado em Elvas), as azeitonas de Elvas e o azeite do norte alentejano. A nível de doces / sobremesas, refiram-se o doce conventual sericaia, entre outros conventuais, o mel do Alentejo e as ameixas secas de Elvas, que se tornaram famosas no séc. XIX e com bastante exportação internacional. Sabe-se, por exemplo, que esta era o doce preferido da conceituada escritora inglesa Agatha Christie.

Entre os aproximadamente 27 restaurantes no centro histórico de Elvas (sem contar com os cerca de 55 extramuros) elegemos e demos preferência àquele que no mapa do município consta como o primeiro da lista, que sendo a coluna é o pilar da melhor comida portuguesa e, nomeadamente, a alentejana: o acolhedor restaurante típico ‘A Coluna’, regional e tradicional, que comemora este ano um quarto de século! Mais uma razão para merecerem uma, duas, três visitas… e a conclusão será de que, mesmo três, são poucas vezes face à tamanha qualidade da comida e da amabilidade do serviço e seus servidores.

H) A GASTRONOMIA DE ELVAS E O RESTAURANTE ‘A COLUNA’
Algumas das figuras públicas que já estiveram n’A Coluna e que comprovam a sua exímia qualidade são: Aníbal Cavaco Silva, Mariza, Fernando Mendes, Roberto Leal e Paco Bandeira (que é natural de Elvas).

O lugar onde se encontra o restaurante ‘A Coluna’ (sito na rua do Cabrito, n. 11) era, antigamente, um estábulo. E o nome deu-se de facto à coluna central existente no restaurante, eixo comum das suas quatro abóbadas. Havia um restaurante mais pequeno que os gerentes tinham – há, precisamente, 25 anos – e que passou depois para este mesmo espaço. A gerência familiar Raimundo e Carlos Martins, pai e filho, permanecem como baluartes desta arte da cozinha e da preservação dos excelentes produtos da terra e da região (como se nota e denota pelo elegante mostruário presente num canto do restaurante com vários artigos alimentares, de vinhos e licores e do artesanato local, exponenciado pela olaria e pelas rendas e bordados).

Este espaço tipo “loja gourmet”, dentro do restaurante, surgiu em 2013 e é um dos motivos completamente diferenciadores dos outros restaurantes elvenses. Tudo é alentejano, à exceção de um produto também colocado à venda – do Porto para o país e para o mundo: o genuíno vinho do Porto. Esta ótima imagem, que ‘A Coluna’ dá, tece-se no cuidado e aposta que fazem numa estratégia de marketing consolidada, tendo uma boa parceria com o posto de turismo local. Sinal disto mesmo foi o facto de terem sido, há quatro anos, um dos restaurantes oficiais da Presidência da República aquando das comemorações do 10 de junho em Elvas (2013), assinalando o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Alguns segredos revelados na cozinha de ‘A Coluna’…
Todavia, não é apenas esta veia negocial que faz a diferença quanto aos restantes restaurantes: distinguem-se n’A Coluna os pratos de bacalhau (os espanhóis procuram-nos muito – seja o “dourado” ou o “à lagareiro” –, sendo eles a nacionalidade de turistas mais visitantes e clientes certos deste restaurante), o porco preto ibérico, o arroz ou açorda de marisco e as migas alentejanas.

E dois destes pratos são os mais procurados e com maior saída n’A Coluna: o bacalhau dourado e as migas. Vamos, primeiro, ao bacalhau dourado, sendo este prato original de Elvas. O gerente Carlos Martins adiantou-nos que a receita original não leva cebola, nem azeitonas, nem salsa, embora se possam acrescentar esses ingredientes, dependendo do cozinheiro. Confidenciou-nos também, quanto às migas alentejanas, que o segredo reside no pão alentejano e que tem de ser duro. É depois embebido em água. De seguida leva azeite e alho, cozinhando-se como se fosse uma omeleta. E outro segredo foi-nos manifestado: a qualidade do azeite, não podendo ser qualquer um. Neste restaurante usam o azeite Reguengos / Monsaraz.

Por fim, junta-se o entrecosto e o chouriço frito. Para terminar a refeição e fechar-se com a “chave de ouro”, disse que a escolha dos clientes vai para a sericaia com ameixas.

VISITA AOS TEMPLOS ROMANOS DA CIDADE DE MÉRIDA
Há uma estreita ligação do passado entre Elvas e Mérida, graças aos romanos que – como já referido – povoaram o sul da Península Ibérica nos três primeiros séculos antes de Cristo. Ora vejamos. Aqui terão erguido um pequeno “castellum” que vivia na esfera de «Pax Augusta» (Badajoz) e que patrulhava as trocas comerciais e os transeuntes da via romana que ligava «Emerita Augusta» (Mérida) a «Ebura» (Évora) e «Olisipo» (Lisboa). Enquanto os grandes vestígios romanos existentes em Elvas são os rurais, as suas “villae” (estão identificadas 23 “villae”, 15 necrópoles , duas pedreiras e inúmeros habitats e outros achados isolados), os de Mérida são bem mais visíveis e maiores, no seu conjunto monumental: o teatro romano, o anfiteatro romano e a casa do anfiteatro; o circo; as barragens e aquedutos; as estradas, pontes e vias; os foros; a alcáçova; a casa do Mitreo; os columbários e o “xenodóquio”, etc..I) VISITA AOS TEMPLOS ROMANOS DA CIDADE DE MÉRIDA

O teatro romano começou a ser escavado em 1910, tendo-se revelado uma grande descoberta arqueológica. O resultado está à vista e não ilude nem desilude! Foi o cônsul Marco Agripa que o mandou construir e que estaria pronto nos anos 16-15 a.C.. A bancada, dividida em três sectores, tem uma capacidade para 6.000 espectadores. A boca de cena assume uma espetacularidade magnífica, mesmo naquilo que se mantém intacto e que ainda hoje pode ser vislumbrado nas suas colunatas, com cerca de 57 colunas (quase todas completas) – divididas em dois pisos – e com arquitraves, frisos e cornijas “ricamente decorados”. De realçar, conforme inscrição em placa de mármore no local, que aquelas pedras milenárias do teatro romano ganharam vida desde 18/06/1933, com a louvável fundação do festival de Teatro Clássico de Mérida, que ali se realiza e recria todos os anos, nessa mesma data.

Já no anfiteatro e na respetiva arena, “realizavam-se jogos de gladiadores e lutas entre os animais ou entre homens e animais – «venationes» – que, em conjunto com as atuações do circo, eram as preferidas pelo público”.

Portanto, não faltam motivos – e até bem emotivos, das nossas raízes históricas e com as co-raízes criadas e entrelaçadas com outros povos e culturas – para uma visita (ou revisita) tão peculiar a Elvas, sobretudo, e de Elvas até Mérida, numa escapadela de um dia durante a estadia na formosíssima cidade alentejana. Ou seja, um dois em um em termos de patrimónios da Humanidade muito bem declarados. E boa viagem, de viagens!

jornalvp.arr@sapo.pt

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