4 Out 2011, 15:03

Texto de Redação, com Lusa

Praça

“Do Desassossego” pela primeira vez no Porto

, ,

O texto, uma adaptação de Carlos Paulo da obra de Fernando Pessoa (aliás, Bernardo Soares) e um caso de longevidade no panorama teatral português, estará no Teatro Helena Sá e Costa entre quinta-feira e domingo.

Carlos Paulo

O actor Carlos Paulo. Foto: DR

O Teatro Helena Sá e Costa vai ser palco da primeira apresentação no Porto da peça Do Desassossego, que a companhia Comuna mantém em cena há 10 anos e na qual o actor Carlos Paulo tem o papel principal.

Do Desassossego estará no THSC entre quinta-feira e domingo e é um caso de longevidade no panorama teatral português, visto por cerca de 25 mil espetadores em 10 anos de reposições – a estreia foi em 2001, em Lisboa.

A peça é uma adaptação que o próprio Carlos Paulo fez do Livro do Desassossego, escrito por Bernardo Soares – um guarda-livros da cidade de Lisboa e um dos heterónimos de Fernando Pessoa.

Uma década volvida sobre a estreia, o conhecido actor ainda mantém a “esperança que, no final de cada noite, alguém saia diferente do que quando entrou, desassossegado para sempre, a sentir o que o escriturário da rua dos Dourados confessou: Nunca me sinto tão próximo da verdade como raras vezes em que vou ao teatro ou ao circo”.

Para João Mota, autor da versão cénica, encenador e director da Comuna, “é fascinante que um livro escrito há quase um século ainda levante questões incontornáveis no crescimento do homem enquanto ser humano”.

“A peça tem uma hora, escolhemos as passagens que são mais importantes e não alterámos nada” do que está no livro, explica João Mota, considerando que o livro de Bernardo Soares/Fernando Pessoa “é o mais triste alguma fez escrito em Portugal depois de ‘Só'”, de António Nobre.

O espectáculo tem 2 actores, mas tudo gira em volta de Carlos Paulo e da sua arte para conduzir pelo “desassossego em que vivemos e da alma”, acrescentou ainda João Mota.

“Foi uma encenação difícil de fazer”, referiu também.

Do Desassossego chega agora, 10 anos volvidos sobre a sua estreia, a um palco portuense, o que tanto para o encenador como para o actor é algo estranho.

“Tentámos tudo e nunca conseguimos”, lamenta João Mota, referindo que “a própria Comuna nunca foi ao Teatro Nacional São João nem ao Carlos Alberto”.

Carlos Paulo considerou mesmo que, “a partir de um determinado momento, a Comuna deixou de ter entrada na cidade do Porto”, porque, “em 10 anos, nunca ninguém conseguiu um espaço para receber a peça”.

O actor lembrou que “a Comuna é o grupo português que mais vezes participou no FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica)” e desta vez vai ao Porto por sua “conta e risco, com o apoio do Teatro Helena Sá e Costa, porque acredita que o público do Porto merece ver este espectáculo”.

É “uma vitória sobre a estranha cortina de silêncio que se fechou” em relação ao grupo lisboeta, concluiu.

João Mota recordou que, “antigamente”, a Comuna também ia ao Rivoli, “quando estava lá a Isabel Alves Costa”, mas tudo mudou desde então.

O encenador disse ainda que “devia ser a Câmara” a encarregar-se da programação do teatro municipal, “mas infelizmente não liga nada a cultura”.

Na tentativa de colmatar um vazio no que diz respeito à oferta de espectáculos dirigidos a um público infanto-juvenil, o THSC vai ainda receber, de 14 a 16 de Outubro, a peça clownesca Bão Preto, que, ao fim de quase 20 anos de interregno, está de volta aos palcos portugueses também pela mão da Comuna.