Image de Deixou tudo para ser artesã de ‘Pedaços de Cacau’

Fotos: DR

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Imagem de Deixou tudo para ser artesã de ‘Pedaços de Cacau’

10 Jun 2017, 16:47

Texto de Beatriz Carneiro

Comes & Bebes

Deixou tudo para ser artesã de ‘Pedaços de Cacau’

No final do ano passado, Raquel Lima abandonou a profissão que foi sua durante 13 anos. Agora, passa as horas a dar sabores e formas a chocolate. O Porto24 foi conhecer a história desta portuense.

“Artesã de Pedaços de Cacau deliciosos”. É assim que Raquel Lima, de 39 anos, se dá a conhecer a quem procura os chocolates que confeciona diariamente. O que começou por ser um hobby que conciliava com um trabalho estável, é agora um negócio que gere a tempo inteiro.

“Isto começou tudo no Natal de 2013”, começa por contar Raquel ao Porto24. Como acontece com tantas outras pessoas nesta época festiva, tinha de oferecer prendas aos amigos, mas queria primar pela originalidade: não recorrer às compras e fazer algo com as próprias mãos.

Raquel Lima

Raquel Lima

Foi nessa altura que o gosto pelo chocolate passou de abrir uma embalagem de bombons a fazê-los. “Vi na internet, comprei o chocolate, as formas e comecei a fazer. Fiz os chocolates em casa com recheios e tudo. Embalei e entreguei aos amigos e ainda fiquei com alguns para mim”, narra ao Porto24.

Ao fim de um mês, os bombons tornaram-se esbranquiçados. “Apesar de estarem comestíveis”, garante Raquel Lima.

A curiosidade para saber a razão do fenómeno estava desperta e foi saciada em março de 2014 num workshop.

Com tudo o que aprendeu, Raquel não teve dúvidas: “A partir do momento em que entrei naquele workshop a minha vida mudou completamente”. Entre técnicas e dicas, conheceu melhor o chocolate, as suas particularidades, e ficou “viciada”.

“Se já gostava de comer, nessa altura fiquei deliciada em fazer. E começou tudo”, afirma a artesã.

Uns meses depois, Raquel Lima recebeu a primeira encomenda. Uma amiga que ia de férias para Paris pediu-lhe alguns bombons para levar e oferecer quando lá chegasse. “Para quem não tinha nenhuma, foi uma grande encomenda”, confessa.

A estratégia tinha então de ser montada: “Se ela vai lá para fora levar os meus bombons tem que ter um nome e uma marca”. E foi em 2014 que Raquel tratou de registos, licenciamentos, carta de artesão e criou a Pedaços de Cacau.

“Isto é capaz de resultar” pensou na altura. “A partir daí a máquina já estava montada”, refere.

Ao mesmo tempo que tudo isto acontecia, Raquel mantinha um emprego como engenheira florestal. Estava “no quadro” e trabalhava na área em que se tinha formado e de que gostava, mas a certa altura “faltava qualquer coisa”.

“Sentia que a vida tinha que ter mais”, revela ao Porto24.

“Cansada e farta de estar o dia todo sentada em frente ao computador”, a portuense precisava de algo menos impessoal. “Faltava-me a componente humana”.

Foi então que em dezembro do ano passado, Raquel deixou a profissão que mantinha há 13 anos para se dedicar ao fabrico de chocolate. “Já não aguentava ter duas profissões”.

A Pedaços de Cacau crescia, as primeiras embalagens apareciam, depois as segundas, já tinha clientes e não se imaginava a fechar o negócio que tinha construído. A decisão estava tomada. “O amor pelo chocolate foi mais forte”, admite Raquel.

Raquel Lima

Raquel Lima

Em média, a Pedaços de Cacau produz 600 bombons por dia, todos feitos por Raquel Lima que, para já, ainda trabalha sozinha. Espera um dia ter uma equipa, e já começa a sentir essa necessidade, porque nas épocas altas como o Natal, a Páscoa ou o Dia dos Namorados, não há mãos a medir.

Os bombons variam entre vários sabores: limão, laranja, caramelo, creme de avelã, cacau crocante, frutos silvestres, mel e recentemente surgiu o de manjerico. Alguns deles até já receberam prémios.

Em 2016 o bombom de limão foi distinguida com “O Melhor Sabor” no concurso Great Taste, o equivalente a uma estrela Michelin em Inglaterra.

Este ano, o bombom de laranja recebeu a medalha de ouro e a distinção “O Melhor dos Melhores” no Concurso Nacional de Chocolates Tradicionais. No pódio com a medalha de prata ficaram ainda as tabletes de laranja e noz e pimenta-rosa.

Nas tabletes também se encontram vários paladares, mas todas têm algo em comum: são feitas de chocolate com 72 por cento de cacau e são vegan, ou seja, não contêm nenhum produto de origem animal. Tal não acontece com os bombons. De resto, a atenção passa por usar o máximo de produtos portugueses que for possível.

No menu encontramos ainda chupa-chupas de chocolate, paus de canela com chocolate para mexe o café, colheres de chocolate para fazer chocolate quente, entre outros.

Através de uma loja online, Raquel receciona os pedidos, confeciona-os, embala e envia. Os clientes distribuem-se de norte a sul, mas é no Porto e em Lisboa que a maioria se concentra.

“Ainda agora tive uma encomenda para Madrid, gostava muito que a marca crescesse para poder enviar para fora”, conta Raquel ao Porto24.

Para além dos clientes finais, colabora com hotéis, empresas, lojas gourmet e com outros profissionais, como é o caso do Chef Jorge Cordeiro.

Ao olhar para o Porto, Raquel nota que existem “mais lojas de chocolates, e isso é bom, quer dizer que há mais consumidores do produto também”. “Cada vez mais as pessoas estão agora a descobrir e querem experimentar coisas novas” fugindo aos produtos de supermercado, acrescenta.estudio 123

Embora o português não seja um consumidor ávido de chocolate, a artesã considera que essa é uma tendência em transformação e que hoje os clientes começam a ter um leque de oferta alargado sem precisarem

Raquel Lima

Raquel Lima

de olhar muito “lá para fora”.

Raquel continua a querer conhecer melhor a sua arte sempre que pode com cursos, leituras, workshops ou a ir ver como se faz, algo que fez numa viagem à Bélgica.

Só no final de janeiro deste ano é que a outrora engenheira florestal começou a dedicar-se totalmente aos chocolates. A adaptação à nova realidade ainda está a acontecer, mas na hora de olhar para onde chegou a resposta é fácil:

“Estou feliz, sinto-me livre. A motivação é completamente diferente”.