5 Mai 2011, 18:30

Texto de Ana Isabel Pereira

Praça

Da editora à livraria palco de eventos culturais

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Na Rés, é possível assistir a um concerto de cravo, comprar livros raros ou ver uma peça de teatro. João Nuno e Joana reinventaram um negócio de família com 35 anos.

Rés Livraria

A Rés Livraria fica no Marquês. Foto: AIP

A editora Rés foi fundada há 35 anos por Reinaldo de Carvalho. Em 2010, a filha, Joana Carvalho, e o marido, João Nuno Marinho, alargaram o negócio de família a uma livraria que organiza eventos culturais e tem procurado estabelecer uma relação próxima com as várias escolas, colégios e externatos da zona.

A Rés Livraria fica na mesma morada da editora, na Praça Marquês de Pombal, 78, e recebe, uma vez por mês, e “às vezes mais do que uma vez por mês”, eventos culturais, desde concertos de música clássica – a Rés é a sede do núcleo do Porto dos Amigos da Orquestra de Câmara Portuguesa – a exposições, passando por momentos de teatro e por oficinas.

A abertura da livraria, em Julho passado, foi a solução natural para um negócio que “foi vítima dos anos 80”. João Nuno explica. É que a Rés é especializada em publicações das Ciências Sociais e Humanas e “é muito sensível às fotocópias”. “Aguentámos-nos, mas isto precisava de uma grande mudança”, sublinha o engenheiro mecânico de 36 anos.

Na sala principal, há todo o tipo de livros e um cantinho da Apple, que a Rés representa. Há 2 salas dedicadas à aos livros técnicos e aos livros infantis, respectivamente.

A editora esteve parada alguns anos e suas “últimas edições/reedições foram em 2006”. O relançamento da Rés ficará marcado, no dia 28 de Maio, pela apresentação do livro “Retratos da Arte na Educação”, de Sílvia Berény Teixeira Lopes, e sobre o projecto da OSMOPE e da Fundação de Serralves.

“Vamos publicar pouco por ano, mas vamos publicar títulos que têm muita qualidade”, explica João Nuno, sobre a nova vida da Rés, sublinhando que são da editora algumas obras de referência como a “História Mundial da Educação” ou o “Vocabulário da Filosofia”.

Uma casa com história

A casa onde sempre esteve sediada a Rés é de 1902. O imóvel e o edifício contíguo são gémeos e foram construídos por 2 irmãos que tinham feito fortuna no Brasil “em 1800 e tal”, conta João Nuno. Desses tempos sobreviveram o chão em marqueteria que vemos na sala principal da livraria, os estuques magníficos e os tectos que parecem ser em madeira mas não são.

“Este efeito era muito utilizado no fim do século XIX e esta foi uma das últimas casas no Porto onde foi utilizada esta técnica [trompe l’oeil]”, refere João Nuno.

Quando Reinaldo de Carvalho, o sogro de João, decidiu instalar no imóvel a sua editora, “viviam aqui 9 famílias, que estavam a estragar a a casa toda” – o chão em madeira estava coberto com alcatifa e a cozinha destruída por causa das “fogueiras que faziam no chão” desta divisória.

O sogro de João Nuno, entretanto falecido, estava então ligado ao Partido Socialista e conseguiu que aqueles inquilinos fossem “colocados nuns fogos novos que acabavam de ser inaugurados em Cedofeita”.

E como é que esta gente toda tinha ido parar à casa? A determinada altura, a LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária),  uma organização criada antes do 25 de Abril de 1974 e inspirada nos movimentos de guerrilha urbana de extrema-esquerda que existiam um pouco por todo o mundo desde o final dos anos 60 do século passado,  “achou que um casal [os proprietários] era pouca gente para morar aqui e implantou-se nesta casa contra a vontade dos donos”, recorda o responsável.

A Rés alugou o espaço da casa durante muitos anos e foi já debaixo da gestão de Joana e João, em 2010, que se deu a aquisição do imóvel. “O dono morreu e a família esteve 20 e tal anos em partilhas”, conta João Nuno.