Image de Cabo Verde, uma «morabeza» de um povo e de suas terras (parte III)

Fotos: FT.A

Imagem de Cabo Verde, uma «morabeza» de um povo e de suas terras (parte III)
Imagem de Cabo Verde, uma «morabeza» de um povo e de suas terras (parte III)

19 Abr 2017, 11:18

Texto de André Rubim Rangel

Praça

Cabo Verde, uma «morabeza» de um povo e de suas terras (parte III)

“Nabucodonosor!
Nabucodonosor!
 
Onde estão a tua espada
e a tua raiva
nas brumas suculentas de Santiago?
 
Os templos caíram em ruínas
desde quando a eternidade
ruía defronte dos galeões
e desfazia-se nos basaltos das ribeiras
 
As cidades de tão velhas
metamorfosearam-se em aldeias
e cobriam as faces da amnésia
 
Os campos continuam perscrutantes
e oferecem olhares melancólicos às urbes
do nosso querer
 
Os homens esses encontram-se presos
em plena cidade
pelas âncoras do vento
 
Nabucodonosor!
Nabucodonosor!”

(«Mitologia Crioula», do poeta cabo-verdiano José Luiz Hopffer Almada).

Outros sítios a não perder

“KEBRA CABANA”: UM PROJETO JOVEM, INOVADOR E EMPREENDEDOR
“Kebra Cabana” é a área-esplanada central com restaurante e bar da praia Quebra Canela – o que elegantemente se chama e ali bem se justifica e aclama de “Beach Club” –, aberto desde 2012 e diariamente das 10h às 2h (à exceção de domingos, até às 24h, e de sextas e sábados, até às 4h). Em 2010 começou por arranjar o espaço, que aos poucos ia servindo apenas bebidas, com autorização da câmara. No ano seguinte, e com renovação do contrato, tinha já os bangalós e ia fazendo eventos para promover o espaço. Recentemente (em 2016), o Kebra Cabana foi remodelado e ampliado. Porém, mais do que um espaço de animação e restauração é um verdadeiro projeto fomentador de emprego jovem, apoiando cerca de 30 jovens que ali estagiaram e ali ficaram a trabalhar (com salários em dia, cujo dinheiro provém apenas das receitas obtidas no Kebra Cabana, não havendo comparticipações nem IEFP’s locais). O rosto fundador e líder, o grande obreiro/pioneiro deste conceito é Amarílio Barros – mais conhecido por Zeca. Trata-se de um jovem com uma personalidade determinada e firme; encontramos a sua força no seu pensamento, na sua vontade e na sua humildade. Jovens destes, com esta nobre atitude de singrar, de ajudar e de formar os outros – outros jovens que estavam desempregados –, são realmente de louvar! E o resultado do nome dado provém da fusão de Quebra Canela com Copacabana (uma referência internacional, no Brasil, onde estudou).

Com página de internet e de facebook (atualmente, com cerca de 18.681 “gostos”), este espaço dinâmico apresenta-se aqui do seguinte modo: “Junto à Praia de Quebra Canela, com a praia aos seus pés e uma vista privilegiada para o mar, encontra o Kebra Cabana Restaurante – Bar. Com um espaço moderno e sofisticado, proporcionado pela varanda suspensa sobre a areia e pelo espaço interior cuidado, é o local indicado para poder saborear os pratos de peixe fresco, carne, ou as sugestões de pratos fixos que pode encontrar na ementa. Kebra Cabana é o cenário perfeito para encontros de amigos, refeições de negócios, ou um jantar a dois para saborear, para além dos pratos, a vista agradável para o mar”. A sua visão é “ser reconhecido como o melhor restaurante da Praia, com expansão contínua no mercado, tornando-se referência de qualidade e bons serviços e manter um bom relacionamento com os clientes, colaboradores e fornecedores”, tendo para já o prémio do «TripAdvisor», com o respetivo certificado de excelência (apenas três o conseguiram na cidade da Praia). O Kebra Cabana assenta, portanto, nos valores do profissionalismo, do atendimento com excelência, da responsabilidade social, da confiança, da confidencialidade, da independência e do rigor. Deste modo e quanto à sua missão, o responsável explica que ela visa “servir, aos nossos clientes, pratos de sabor incomparável com atendimento primordial, oferecendo excelência em todos os nossos serviços, com o intuito de se tornar empresa líder de venda no mercado de restauração nacional”.

Quem lê isto até pode pensar que tudo isto é mera persuasão, ênfase comercial e/ou estratégia de marketing para atrair e fidelizar clientes. Nada disso! É tudo verdade. Quem passa ali e está todos os dias durante algumas horas, ao longo duma semana – como aconteceu connosco para a realização desta reportagem – verifica que assim é, sem entornos nem contornos. Tudo é transparente, próximo, singelo, aprazível, apaixonante, verdadeiro e de qualidade, etc.. Não é só o espaço, mas são, mormente, o seu gerente Zeca, a sua assistente Jandira e os seus funcionários jovens, tão acolhedores e queridos, que rapidamente se tornam amigos. E é também por eles, principalmente por eles, que ficam as saudades de se voltar a Cabo Verde e, como é óbvio, ao Kebra Cabana! E é neste espírito festivo e magnânimo que, naturalmente, os clientes são atraídos e fidelizados, por si mesmos, (pre)enchendo rapidamente os cerca de 300 lugares que o espaço dispõe (sobretudo ao fim de semana à noite).

Em conversa com Zeca Barros, adiantou-nos que mantém-se à frente deste negócio e naquele mesmo lugar “por legitimidade à Kebra Canela e às pessoas, que lhe dão apoio”. Alguns dos seus patrocinadores sustentam esta visibilidade e notoriedade de imagem, como é o caso da Coca-Cola. E prosseguem, mesmo sem qualquer apoio ou subsídios da câmara municipal nem de instituições cabo-verdianas. Ao contrário do projeto de Kebra Canela e do seu mentor que já apoiaram vários grupos de jovens e de idosos, já realizaram campanhas de limpeza da praia, já plantaram árvores naquela área e já contrataram artistas de envergadura com música ao vivo. Alguns tentam, até, copiar o exemplo adotado no Kebra Cabana, tendo surgido já – depois de começarem – mais duma dezena de lojas com restauração. Ao que Zeca afirma: “eu adoro isso, pois a concorrência sempre faz-nos sair da nossa zona de conforto”. Mediante as regras e os ensinamentos que regulam a sua gerência, Zeca gosta de “estar sempre a um passo da concorrência e nunca a dois passos”.E) No texto, em 'Kebra Cabana...' -1)

No que toca ao desenho do projeto em si, o dirigente explicou que este “custou-lhe os olhos da cara, por ter ido procurar o melhor arquiteto e porque precisou de fazer um estudo de impacto ambiental”. Depois, levou um ano só para procurar e conseguir financiamento, tendo o projeto pronto desde 2011. E o que está na base do conceito deste projeto de Kebra Cabana? Zeca responde: “Este projeto é uma homenagem ao ‘Badio’, o nome que em crioulo se dá ao habitante da ilha de Santiago, alusivo ao facto da fuga dos escravos. E há os ‘Sampadjudos’, os que habitam as ilhas do norte do arquipélago, e mesmo a ilha de Fogo. Para nós, os de Santiago, são todos aqueles que não são Badios. E eles são ‘palhudos’, traduzindo literalmente, porque trabalhavam na rota da palha, colhendo-a. E quando vinham para cá a gente diferenciava-os, chamando-os assim. O crioulo deles é mais de influência portuguesa e o nosso, de Santiago, é mais enraizado na cultura africana. Portanto, este meu projeto é uma homenagem ao povo das ilhas, em particular ao de Santiago, onde estamos”.

Vamos, agora, por partes, olhando para toda a estrutura do bar e percebendo a iconografia utilizada, com sua explicação histórica. Ora, ali vemos um balaio de tente (a dita bandeja), que serve para separar o milho da farinha, já que o milho foi o sustento, a base alimentar do crioulo. Por cima, temos uma cobertura que simula uma saia esvoaçando no ar. É uma saia da ‘Badia’, parecendo que está a dançar o funaná. A tradição é ter um pano amarrado à cintura, em que as mulheres seguram o ventre. Ali, esse pano é simbolizado pela lona, representando – juntamente com o balcão – uma “txabéta”: o segundo movimento e ritmo do batuque, que é o género musical e de dança cabo-verdiana, auferindo a um clímax orquestral num mesmo batimento polirrítmico conjunto em uníssono. A crioula ‘Badia’ está a dançar porque está numa festa e, se há festa, há sempre pessoas a pilar o milho e a tenter (no balaio). O bar é tudo isso, tão rico de significado cultural, humano e identitário.

Zeca Barros acrescenta que este valor arquitetónico do bar, pode também expressar um barco a velas dos antigos pescadores que se aventuravam no mar à procura de sustento, dado que antigamente não havia criação de gado – só de porco –, dadas as condições climatéricas da ilha. Este barco está ‘encrostado’ na rocha, dentro dela. Por isso este bar-restaurante tem a cave suspensa, que simboliza os antigos ‘Rabelados’, uma comunidade que ficou muitos anos isolada do resto – escondida numa colina no alto do Tarrafal –, que manteve modos de vida ancestrais e que perseverou a sua cultura até aos dias de hoje. Olhando para os muros, vemo-los ondulados, significando as ondas do muro e neles constam algumas figuras de símbolos marinhos, como a estrela-do-mar, o búzio, a concha, etc.. Tem, também, a rampa que dá acesso ao Kebra Cabana, que se traduz na antiga rampa dos pescadores e, como não podia deixar de ser, tem um batuque figurado, donde e para onde tudo se converge e harmoniza em redor. Não está fisicamente representado, mas configura-se no ambiente, na música que passa e está integrado em todo este conceito descritivo e liminarmente poético!

Este é um espaço em evolução, que ainda não está totalmente pronto (faltando apostar mais na cave). Esta é uma obra genuinamente crioula e de impulso juvenil que vale totalmente a pena conhecer, de perto, e apoiar! Zeca Barros tem, ainda, como grande objetivo desenvolver o turismo local, mas não só aquele de sol e praia, promovendo o turismo étnico através da gastronomia cabo-verdiana. Para conhecermos um pouco melhor alguns dos seus funcionários, falamos também com cinco deles. Criamos o seguinte quadro-inquérito baseado em onze itens, apresentados na primeira coluna (vertical).

Alex

Ariana

Jacqueline

Lianny

Valdir

Origem

xx

S. Lourenço dos Órgãos

S. Francisco

Paiol, Praia

Ilha de

S. Vicente

Idade

27

21

27

24

30

Habilitações

12.º ano

(Humanidades)

12.º ano

(Atendimento ao público)

12.º ano

(Restauração)

12.º ano

(Economia)

10.º ano

(esteve no Corpo de Fuzileiros)

Agregado familiar

Tem 2 filhos

(11 e 7 anos)

Xx

Solteira

Tem uma filha (4 anos)

Solteiro. Tem 2 filhos (6 anos e 3 meses)

Prato(s) preferido(s)

Uma boa

Cachupa

Bife e garoupa

Cachupa

Esparguete e sopa de frango

Mariscos e garoupa

Cor(es)

preferida(s)

Azul e preto

Amarelo e vermelho

Preto e vermelho

Roxo

Vermelho

Locais prefe-ridos de C.V.

Ilha de St. Antão, Ribeira da Barca e Tarrafal

Cidade Velha e praias da Prainha e do Tarrafal

S. Francisco, Cidade Velha

e S. Jorge

Praia do Tarrafal e ilha de S. Vicente

Ilhas de S. Nicolau e de St. Antão, Assomada, Cidade Velha e Tarrafal

Música

cabo-verdiana

Suzi”

(Gil Semedo)

Salvi ma ntaconsigue” (Erida Almeida)

Beta branca” (Codé di Dona)

Princesa” (Djodje)

Moda Bô” (Cesária Évora)

Qualidades

de C.V.

O seu turismo. A agricultura é também a sustentabilidade do país.

A cultura, a cor da pele, a gastronomia.

As paisagens, as mulheres lindas, vários espaços turísticos de interesse, como o Kebra Cabana, e boa cultura.

O conforto, a morabeza, a união no nosso sangue, a vontade de ajudar qualquer um e o acolher.

As praias, a morabeza, a gastronomia, as lindas paisagens e um bom mar.

Como estão as áreas sociais de Cabo Verde?

Há mais desvantagens do que vantagens. A política tem de mudar radicalmente, com um governo mais equilibrado e com mais visão global. E menos corrupção!

Há muito a melhorar. Há muitos jovens sem emprego. A Educação podia ajudar nesse sentido. É preciso criar mais emprego para os jovens.

Em termos financeiros, políticos, de saúde e de justiça, Cabo Verde está péssimo, sobretudo a nível do atendimento. É preciso mais consideração pelas pessoas. O resto está melhor.

Ainda está mal conseguido. Há pessoas que querem trabalhar e fazer progredir, mas ainda não se vê frutos. A política está péssima, são sempre os mesmos a ganhar e não cumprem o que prometem.

Estamos fracos nas áreas sociais. Para mim, devia apostar-se mais na Educação, Saúde e Segurança. É um problema do governo. Há gente com formação, mas não há lugar para todos. Há pessoas a trabalhar noutras áreas que não nas suas.

Uma máxima ou lema de vida

O valor que mais aprecia e o inspira é a humildade.

Eu sei que vou conseguir realizar todos os meus sonhos”.

A alegria de ser e de viver.

Eu posso, eu consigo”.

Defino-me como um lobo e uma águia: persistem e nunca desistem dos seus objetivos. Para ter sucesso, tenho de usar a minha cabeça e esforçar-me. Algo que mais ninguém pode fazer por mim.

De concretizar que o Valdir Duarte, mais conhecido por ‘Vatch’, é o “barman” principal do Kebra Cabana e exprimiu-nos que faz aquilo que sempre quis, ser “barman”. Neste sentido tem já alguns ‘cocktails’ inventados por si e que podem ser provados e aprovados neste bar: o “Amor à primeira vista” (à base de limão, Malibu, açúcar e coco ralado), o seu primeiro cocktail; o “Kebra Cabana” (sumo de maracujá, sumo de manga e sumo de morango, com chantili); o “Moranguinho” (Fanta morango com morango natural, limão triturado e gelo moído); o “Subterrâneo” (Sprite, menta, licor de menta e limão); e o “Tropicabana” (junção de sumo tropical com ‘pina colada’ e gelo moído). Deseja, um dia, abrir um projeto seu neste sector.

Curiosamente a bebida mais vendida no Kebra Canela é a «caipirinha», com uma adaptação própria que Zeca Barros trouxe do Brasil, daí a sua fama local (até mais do que a cerveja cabo-verdiana ‘Strela’). O “Amor à primeira vista” tem, também, grande sucesso e – a par do “Moranguinho” – é vendido em todos os bares da cidade, tendo saído do Kebra Canela. Já ao nível da comida, o que tem mais saída neste espaço são dois produtos realmente cabo-verdianos: a linguiça da terra com queijo e os búzios estufados. Outros pratos apelativos, e que aqui são eximiamente bem confecionados, são: “crepe à Kebra Cabana” (com camarão, leite de coco, ananás, cebola e caril); “crepe de frango à indiana” (com frango, maçã e caril); e “crepe de atum” (com molho bechamel, queijo derretido, cenoura e tomate). Além dos pratos de peixe: a garoupa ou a céra (tipo atum, mas branco) ou o moregal (tipo linguado).F) No texto, em 'Kebra Cabana...' -2)

Para concluir, a humildade de Zeca Barros denota-se também nas palavras finais que deixa: “Temos muito profissionalismo e respeito aos nossos clientes e colaboradores, temos consciência da nossa missão e de contribuirmos para a nossa cultura. A ideia é deixar aqui um legado. Não fiz isto para mim. Fiz para a cidade, para ela ganhar algo de bom, de referência, algo de que elas sintam orgulho. Não precisam de sentir orgulho em mim, mas sim no empreendimento. Tanto que tento separar-me do próprio empreendimento. O meu ‘staff’ sabe disso e, para mim, são eles que mandam aqui. Tem vezes que eu passo dois-três meses sem vir aqui e isto funciona. Embora os clientes prefiram que eu esteja, como me têm dito, até pela promoção que faço do espaço e pela atenção personalizada ao ir à mesa de cada cliente, e dar uma palavra amiga e oferecer algum tipo de desconto”.

AS 7 MARAVILHAS DE SANTA CATARINA
Em agosto de 2013, o concelho de Santa Catarina de Santiago escolheu as suas designadas “7 maravilhas”, entre 12 selecionadas por uma equipa técnica. Os critérios, tiveram como base a beleza sémica e o seu enquadramento G) No texto, em 'As 7 maravilhas de...' -1)regional, a sua inserção no imaginário e na história local da comunidade onde está inserida, o seu valor científico na interpretação da história natural, a singularidade ou a raridade enquanto manifestação da natureza, a sua inserção no roteiro turístico nacional, entre outros. Foram, então, eleitas: a cascata de Águas Caídas, o miradouro de Pedra Branca, as bacias hidrográficas de Boa Entrada e a de Tabugal, o Monte Brianda, as grutas de Águas Belas e a baía e pilon de Achada Leite. Estas duas últimas só podem ser descobertas via mar, por barco, para se entrar em tais grutas deslumbrantes e se andar à volta desse curioso pilon. Para tal, contamos com a ajuda do presidente da câmara de Santa Catarina que, na pessoa do seu simpático executivo Nélson Veiga, nos proporcionou uma viagem no Atlântico (num barco de pesca) até junto dessas maravilhas e ao longo de uma hora e pico (ida e volta). Durante a mesma era frequente encontrar crianças a pescar nas rochas ao longo da costa e cujo único acesso se faz a nado (no caso delas). E muito nadavam elas para chegar a rochas longínquas da terra firme. Numa das praias, que se avistava ao longe, achamos uma grande manada de vacas a pastar nas suas areias, enchendo a paisagem. O ponto de partida e de chegada, para esta viagem pouco vulgar de barco (ainda não é uma aposta turística local) – portanto, um privilégio obtido para o efeito desta grande reportagem em Santiago / Cabo Verde – faz-se pela zona piscatória de Ribeira da Barca.

Ao chegarmos a esse local, estavam muitas crianças pequenas à beira dos barcos e na orla do mar, com peixes nas H) No texto, em 'As 7 maravilhas de...' -2)mãos – a descamá-los. Aproximamo-nos para vermos o que faziam e estarmos um pouco com eles, enquanto aguardávamos que o timoneiro trouxesse o motor para embarcarmos. Escamavam e cortavam o peixe com vidros partidos de garrafas «Super Bock». Oferecemos-lhes um rebuçado, a cada uma (tínhamos levado de Portugal), e a alegria saiu reforçada naqueles rostos negros carregados de um sorriso aberto e cândido, espontâneo e puro. Tão puro quanto inocente, como no caso de uma delas que escondera o seu rebuçado debaixo de uma pedra, dentro da água, para não lho tirarem enquanto brincava com um pequeno polvo, ainda vivo. Pouco tempo depois, quando ia a buscar a guloseima, encontrou-a derretida e melada. E assim estendeu-nos a mão e deixou que os seus olhos arregalados falassem, para poder receber outro rebuçado e vibrar, novamente, de júbilo. Só por isso, quanto valeu e soube bem dar aqueles singelos “pingos de neve”, para receber tão numerosos e esplêndidos sorrisos! Momentos que a memória não permite esquecer e cujas fotos também ajudarão, sempre, a reter.

Terminada a soalheira manhã naquele ótimo contexto, seguiu-se a viagem terrestre rumo à cascata de Águas Caídas, no meio das montanhas e num acesso difícil e de quase “escalada” por entre vales e caminhos desnivelados e irregulares. No primeiro caminho, cheio de pedras, encontram-se várias raparigas a peneirar a areia, no meio de um conjunto alargado de cabras, porcos e galinhas que por ali andavam, todos juntos, e sem se assustarem com os transeuntes. E não era só no chão: também se viam ovelhas e cabras, com facilidade, nos telhados das casas I) No texto, em 'As 7 maravilhas de...' -3)(naquelas que tinham telhados). Desembocados, depois, num caminho já mais interior e mais tropical, o guia que nos acompanhava não se inibia de comer uns agriões, apanhados naquele instante do chão e salpicados num fio de riacho que ali passava. E além dos agriões, predominam no chão daquele percurso tantos cocos partidos, palmeiras, mangas caídas, rosmaninhos, zimbros e mandiocas. Após este magnífico cenário eis que se chega ao caudal da cascata, ainda com pouco fluxo de água, aguardando pela época das chuvas. Mesmo assim, não deixa de ser magnífico, pois de outro modo – se houvesse muita água e com o leito que gera – não se conseguiria estar mesmo por baixo da cascata, como nós estivemos, numa comitiva de cinco pessoas!

A VISITA OFICIAL DE PORTUGAL A CABO VERDE
Ao terminar esta grande reportagem, de reforçar que a mais alta figura da nação lusitana, Marcelo Rebelo de Sousa, foi recebido em Cabo Verde de 8 a 11 de abril, pelo seu homólogo cabo-verdiano Jorge Carlos Fonseca, estreitando-se assim as pontes existentes entre ambas as nações. Visitou as ilhas de Santiago, do Fogo e do Mindelo. A par da vertente político-institucional, esta visita integrou algumas iniciativas culturais, académicas e empresariais, encontrando-se com portugueses que aí vivem. Recorde-se que, antes desta visita, já tinha sido anunciada – pelo presidente da República Portuguesa – uma proposta conjunta de livre circulação na CPLP, referente à possibilidade de fácil mobilidade em todos os espaços da lusofonia. Pretende-se, assim, estabelecer um documento que permita “um estatuto de cidadãos da CPLP residentes”.

Com esta visita do chefe de Estado Português ao território cabo-verdiano – e tal como expressou a repórter da «Nha Terra Nha Cretcheu» –, demonstra-se que “as relações entre Portugal e Cabo Verde vão muito para além dos acordos governamentais. São mais de 500 anos de uma relação que se pode dizer umbilical, cheia de música, alegria e sabores”. Na oportunidade desta visita oficial, Marcelo Rebelo de Sousa homenageou a democracia cabo-verdiana, considerando-a “um exemplo singular” no contexto africano.

Concluindo esta grande reportagem, de realçar a seguinte afirmação de Jorge Xavier, diretor do Hotel Pestana, e que retrata bem todo o sentido da peça e o estímulo que ela quer traçar: “O povo cabo-verdiano é um povo herói, habituado a lutar contra todas as maleitas e dificuldades de toda a ordem. Nada lhes mete medo! Por isso, todas essas dificuldades, apenas nos fazem mais fortes e nunca deixamos de prestar o nosso serviço” (mesmo perante os altos índices de pobreza e desemprego em Cabo Verde).
Por fim, “not the last but the least”, os devidos agradecimentos muito especiais aos apoios concedidos e parceiros locais: ao Consulado Honorário de Cabo Verde no Porto, ao Pestana Trópico Hotel e ao Kebra Cabana (cidade da Praia) e à Câmara Municipal de Santa Catarina (Assomada).

jornalvp.arr@sapo.pt