24 Mar 2012, 17:34

Texto de Pedro Rios

Praça

O arquivo dos Tavares mostra-nos o Porto que já não existe

António Tavares pôs no YouTube preciosidades do pai, António Tavares da Silva, um dos poucos portuenses com máquina de filmar em meados do século XX.

António Tavares

António Tavares fotografado em frente à antiga casa da família, na Rua do Bom Sucesso, no Porto. Foto: Pedro Rios

Num dos filmes, Barrigana, lenda do FC Porto, joga dominó em Vidago. Noutro, podemos ver o famoso Duque da Ribeira a dar aulas de natação numa piscina de Espinho, no final dos anos 1950. Mas há mais (muito mais): uma praia de Francelos de sonho, um Palácio de Cristal que já não existe, uma Rua do Bom Sucesso sem trânsito, com crianças a brincarem na rua.

O canal de YouTube lançado por António Tavares tornou-se um pequeno sucesso nas redes sociais, tornando disponíveis preciosidades registadas em filme pelo pai, António Tavares da Silva, a um público bem maior do que o progenitor esperaria, em meados do século XX, quando era um dos poucos portuenses donos de uma máquina de filmar.

“Um mimo para um doente”

Falar com António Tavares, 60 anos, é descobrir um arquivista ferrenho, organizado e metódico guardião do passado da família, exemplo do Porto industrial dos anos 1940 e 50.

O pai de António Tavares (falecido em 2011) começou uma “grande paixão pelo cinema” em adolescente, alimentada em idas ao Éden, no Palácio de Cristal, conta à Praça o filho. Apanhou o início dos filmes sonoros e começou aí a vontade de ser projeccionista.

Nascido no seio de uma família industrial, António Tavares da Silva viria antes a estudar Engenharia, antes de se tornar industrial, na Fundição do Bom Sucesso, negócio da família fundado em 1895.

Foi logo aos 13 anos que recebeu um projector de cinema. Foi “um mimo para um doente”, oferecido pelos avós em 1933. Deram-lhe um Pathé Baby, que usava película de 9,5 mm (o que o tornava “muito barato” se comparado com os equipamentos de 8 e 16 mm da Kodak).

“Era um projector económico”, mesmo que ainda caro para os padrões de vida da época, “de manivela, com uma pequena lâmpada”, descreve António Tavares. O ecrã era pouco maior do que uma folha A4 e o equipamento era fértil em problemas.

Em 1946, já António da Silva Tavares trabalhava na fundição (ficava na Rua do Agromonte, nas traseiras do actual centro comercial Península), investiu num novo Pathé Baby, comprado numa loja da Rua de Santa Catarina.

A vida de uma família

A II Guerra Mundial dava muito trabalho às fundições. A família Tavares enriquecia.

António consegue um acordo com a Pathé Baby, que lhe dá “carta branca” para filmar. “Não seria por falta de película” que isso não aconteceria, diz o filho. Em 1947, António da Silva Tavares compra a sua primeira máquina de filmar.

Filmou o jardim zoológico de Lisboa e o aeroporto da Portela; filmou as férias da família (um luxo para a época) no Algarve; eternizou uma Madrid quase sem carros, devido ao racionamento de combustíveis a que a Espanha estava sujeita; a Semana Santa de Sevilha; e, claro, no Porto, o Castelo do Queijo, os jardins do Palácio de Cristal e outros espaços frequentados pela família.

A partir de 1948, começa a filmar a cores. A família Tavares atravessava o seu período áureo (algures entre 1947 e 1955, situa António Tavares). “Tinha mais poder económico, podia viajar”, nota.

O que fazia com os filmes? “Eram projectados para a família”. Era um acontecimento: não havia televisão.

António da Silva Tavares fazia do projeccionismo um dos seus passatempos: adorava montar o projector em colégios, paróquias, salões de festas. Os filmes animavam, sobretudo, festas de aniversário muito concorridas na casa da família, que ainda existe, em frente ao Mercado do Bom Sucesso.

As filmagens acabaram no final da década de 1950. Antes, ainda teve tempo de filmar em película de 16 mm Kodachrome, a cores, cenas de férias nas praias do Porto, Francelos e Espinho, o Carnaval dos Fenianos e a inauguração do Estádio das Antas.

Do VHS para o YouTube

A saga arquivista de António Tavares começou em meados dos anos 1990, década em que a fundição da família fechou portas. O pai entregou-lhes os filmes e António mandou fazer cópias para toda a família. Mas as cassetes VHS saíram “muito fracotas”.

Em 2007, copiou os filmes de 16 mm em DVD, já com uma qualidade que o deixou satisfeito. Guarda também um projector do pai, comprado em 1947.

Entretanto, fez um site (aproveitando os seus conhecimentos de informática, adquiridos no sector da banca, onde trabalhou até se reformar), onde colocou fotos de família que lhe vão parar às mãos.

“Dar sentido” ao material recolhido pela família é o objectivo: “para que é que aquelas pessoas tiraram fotografias?”. Além disso, há “interesse histórico”.

Criou o site para fazer chegar as fotos à família, mas começou a receber “centenas de mensagens de todo o mundo”. Os vídeos no YouTube vieram depois – e com eles o feedback de muitos curiosos.

  1. Nuno Ferreira says:

    Adorei os videos, principalmente o video do palácio de cristal e o do petroleiro na praia de matosinhos, apesar de ter nascido em 1981, já deu para recordar o porto antigo de que tenho muitas saudades.Grande abraço bem haja.

    • Mário Valinho Cardoso says:

      Gostei de ver algumas imagens que me fz recordar os meus tempos de menino e moço e não só e de todos os passos que eu percorri nesta cidade que serviu de meu berço, nestes meus 80 anos de vida, graças a Deus.Mário Valinho.
      O seu comentário

  2. Manuela Vasconcelos says:

    Simplesmente adorei! Eu em pequenina e mais tarde os meus filhos fizeram muita praia naquela linda praia de Francelos e brincaram muito no parque infantil do Palácio de Cristal. No meu tempo ainda com o lindissimo “Plácio de Cristal” e no tempo dos meus filhos já a tigela invertida que infelizmente o substitui! Bem hajam por estas memórias!

  3. Fantástico, especialmente o areal da praia de Francelos que me faz recordar a infancia dos 4 aos 9 anos onde os dias de praia começavam pelas 6:30h da manhã para apanhar a camioneta das 7:30h e se prolongavam até ás 21:00h no areal, repletos de brincadeira com meus irmãos; …Os passeios mar adentro na maré baixa com água abaixo dos joelhos a mais de 300mts da orla da praia… jogar á bola até cair de cansaço e mergulhar… caminhar quilometros e quilometros pelo areal a molhar os pés na rebentação das ondas… MARAVILHOSO. Obrigado e muitos parabéns pela excelente ideia de pubicar estes arquivos.

  4. António José Rocha Ferreira says:

    Nascido em 1946, muitos destes filmes trazem-me recordações agradaveis. Eu ia para a praia da Circunvalação concessionada por Emilia Barbosa. A quinta do Bom sucesso era a casa dos meus bisavós. Já imagina o interesse com que vi os filmes. Muito obrigado por me permitir passar estes bons momentos.

  5. Rui Vieira de Castro says:

    Muitos Parabéns e muito obrigado por ter partilhado connosco, antigos ” banhistas” a beleza e o matar de saudades de locais que foram para nós, então crianças a concretização de alguns sonhos. Bem Haja. ( Nasci em 1947).