26 Mai 2012, 10:49

Texto de Marc Barros

Praça

A combinação única entre um bom charuto e um Porto generoso

A suavidade, os açúcares, a diversidade de aromas primários, a frescura e a acidez do Porto vão bem com as notas mais quentes e de especiarias que dominam os charutos à venda em Portugal.

Charutos

Escrever sobre charutos não é fácil. Não apenas pela enorme diversidade que o tema implica – estilos e vitolas diferentes, origens e tipos de tabacos utilizados –, mas também pelo facto de ser um tema de conotações negativas: o tabaco, perseguido implacavelmente no século XXI, muito por culpa desse “primo” adulterado, feito de picadura de tabaco, chamado cigarro, cada vez menos encontra tolerância nas sociedades actuais, histéricas face ao pânico do que pode “fazer mal à saúde”, “fumar mata”, “diminui a qualidade do esperma” e outros slogans inquisitórios, que nada podem contra o elementar bom senso de cada fumador.

Esclareçamos: fumar charuto (e, já agora, cachimbo) não é o mesmo que fumar um cigarro. O objectivo do charuto não é domar o vício, mas apenas fruir os aromas que emanam de um conjunto de folhas de tabaco inteiras, tratadas, que sofrem um complexo processo de maturação e são enroladas inteiras, de preferência à mão.

Aos citados juntam-se outros preconceitos – charuto é para gente rica, malandros capitalistas sempre prontos a explorar o próximo, ou então alter-mundialistas caviar que idolatram Che Guevara e Fidel Castro.

As conotações são imensas e nem sempre abonatórias. Pobre charuto… até a Sigmund Freud, grande apreciador de puros, foi perguntado se o charuto não teria conotações fálicas, ao que este respondeu: “Por vezes, um charuto é apenas um charuto”.

As anedotas e ditos em torno dos charutos são imensos (e Churchill, o maior dos fumadores de charutos, foi o rei deles todos, tanto que até deram o seu nome a uma categoria de charutos, os Churchill, “roubada” a outro eminente político, o francês Clemenceau) e dizem bem de quão especial os charutos são. E, uma vez entrados neste mundo, não há saída possível. “Um bom charuto fecha a porta à mediocridade da vida”.

Charuto casamenteiro

Falar de charutos equivale ainda a abordar a relação entre o fumo e o complemento ideal. Não por acaso, todos os anos decorre em Havana, capital do país que, segundo os apreciadores (e os que gostam de passar por tal), são feitos os melhores charutos do mundo, o chamado Festival do Habano.

Um terço dos 400 milhões de charutos feitos à mão vendidos anualmente em todo o mundo é proveniente de Cuba. Durante uma semana, estes especialistas juntam-se para degustar as novidades que saem todos os anos do solo cubano e promovem experimentações de harmonias. Este ano, a honra recaiu sobre o vinho do Porto.

E, como todas as harmonias, o melhor é experimentar – aliás, terreno para experimentações não falta, dada a imensa variedade de charutos (por categorias, origens, tipos de tabaco, formatos, uma canseira…) e de opções de “casamento” – vinho do Porto, aguardentes, whiskies, rum, espumantes, etc.

Esta “Alianza Habanos” (D.O.P) com vinhos do Porto juntou marcas de grande prestígio de ambas as denominações, como Cohiba, Montecristo, Romeo y Julieta e Partagás, com Portos Offley, Ferreira, Rozes, Warre’s, Graham’s e Dow’s. O júri da prova seleccionou os vinhos Dow’s Tawny 20 Anos para parceiro dos Montecristo Edmundo e Graham’s Vintage 1994 para acompanhar os Romeo y Julieta Belicoso. Na final estiveram também presentes os vinhos Offley Vintage 1994, Offley 20 Anos e Ferreira 20 Anos.

À parte da notoriedade que esta prova concede aos produtores de vinho do Porto junto de um segmento de mercado importante (tal como o será, por exemplo, o mercado dos chocolates), resulta realmente única a combinação entre um bom charuto e o vinho do Porto – a suavidade dos vinhos, os seus açúcares, a diversidade de aromas primários (frutos vermelhos ou frutos secos), a sua frescura e acidez, conseguem integrar as notas mais quentes e de especiarias que dominam grande parte dos charutos disponíveis no mercado nacional.