10 Fev 2013, 12:09

Texto de

Opinião

Welcome to the Jungle

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Fernando Ulrich gerou lucros no seu território, no ano passado, na ordem dos 249 milhões Kg de carne fresca. Não sei se foram antílopes, veados ou babuínos.

Capa "Appetite for Destruction"

A metáfora de "Welcome to the Jungle" dos Guns n' Roses "é perfeita", diz Mata.

Nasci no mesmo ano que a selva. Mas não sei que animal era, nem que posição da cadeia alimentar estava destinado a ocupar. Contínuo hoje a não saber que bicho sou, muito menos que lugar ocupo. Tal situação traduz-se num problema de identidade que persiste ao longo do tempo e que nunca consegui resolver. Talvez esteja na altura de me render por absoluto ao milagre dos psicólogos e tornar-me paciente de um deles. Mas vou resistindo a essa tentação, mantendo algumas reservas acerca da espécie destes animais na selva onde vivo. Apenas sei que já a habitavam antes de mim. “Mas este tipo não tinha dito que nasceu no mesmo ano que a selva? Sim, tinha, querido leitor, tenha calma. Não se deixe levar por essas inquietudes do espírito animal que lhe fazem mal à úlcera gástrica e à cárie dentária. E já agora, a propósito de você ser precipitado, visto que a selva onde vive faz-lhe estar constantemente em vigília, não vá o diabo tecê-las e zás, deixou de estar na selva e já está no estômago de um Tigre, já agora, dizia eu, pergunto-lhe se já se questionou sobre o lugar que ocupa nesta selva, já se perguntou? É daqueles antílopes que correm desalmados ante a fúria de um Tigre faminto? Ou é algum macaco que salta de ramo em ramo, para fugir às presas ou que finge que trabalha para a casta quando na verdade só quer é catar-piolho ao semelhante? Ou é daqueles insectos minúsculos que rondam os pântanos nos dias de calor abrasador e que ninguém dá por eles a não ser pelo zumbido persistente e monótono?

Mas tem razão quando diz que eu dizia no início que nasci no mesmo ano que a selva. Nasci mesmo, mas não fui eu o primeiro a dizê-lo. Foram os Guns n’ Roses que o disseram através da música Welcome to the Jungle do álbum Appetite for Destruction. Corria o verão de 1987, o FêQêPê tinha acabado de ganhar a Liga dos Campeões com uma equipa orquestrada pelo pé esquerdo de Futre, pela técnica de Rabah Madger, e pela velocidade de Juari entre outros elementos dessa orquestra que o meu pai fez questão de me mostrar, anos mais tarde, mesmo sendo eu apenas portuense, não portista. Isto porque os dragões não existem na minha selva. Nem na de ninguém. Apenas o Leão é o Rei da Selva e por isso é que eu gosto tanto dela, mesmo não sabendo que bicho sou. 

Mas falava eu da música Welcome to the Jungle de Axl Rose e companhia e de como nasci por aquelas alturas em que a selva aparecia na música, metaforizada numa linguagem que pretendia comparar as cidades de então a verdadeiras selvas, onde imperavam as relações de dominação, de inferiorização, da expressão desmedida dos instintos, de subjugação e de cooperação entre as castas com vista a dominar as outras. A metáfora é perfeita. E atual também. Na altura em que ela surgiu jamais poderia estar de acordo ou em desacordo. Sabia lá o que era a linguagem, quanto muito a música. Fui ouvindo-a ao longo dos anos sem prestar particular atenção ao seu conteúdo até que bati nela recentemente, fiquei a ouvi-la enquanto se gerava em mim lanços de súbita compreensão. Parecia que a máxima Welcome to the Jungle poderia servir como um cartão-de-visita dado por mim a algum extraterrestre que me encontrasse na rua e me perguntasse simplesmente onde é que eu vim parar?!

Porque é que a Selva é uma metáfora tão perfeita para traduzir o nosso funcionamento social? Darei exemplos muito breves, muito reduzidos, de um assunto que merece mais atenção do que aquela que despenderei. Em primeiro lugar, porque nela andam muitos animais, tantos que o meu pensamento nem alcança. Apenas sei que os Leões imperam, estando no topo da cadeia alimentar. 

A propósito do Reino fala-se também de uns macacos que costumam escrever nos limbos das folhas e que depois, os temas desses escritos, invadem o quotidiano da selva, as discussões durante as caçadas, as conversas nos passeios e nas tocas. Diziam no outro dia estes macacos que um tal Leão designado por Franquelim Alves foi nomeado para pertencer à casta do governo. De nada importa o seu passado, de nada importa ter estado envolvido na fraude de outros Leões aos quais ele pertencera. Apenas basta ter-se boas relações com os elementos da casta governativa, através de trocas de favores e relações de poder que se amplificam mutuamente – a inteligência maquiavélica é algo que os etnólogos já identificaram devidamente e que explica muito do nosso funcionamento. As leis decretadas nesta selva, são selvagens porque imperam estas relações de poder. E quem as define? Aqueles que a dominam – os Leões do Reino.

Mais um exemplo: Fernando Ulrich, um dos elementos do topo da cadeia alimentar, gerou lucros no seu território, no ano passado, na ordem dos 249 milhões kg de carne fresca. Não sei se foram antílopes, se foram veados, se foram babuínos, ou se contribuíram também as libelinhas para o resultado desta caçada. Acho que os macacos que escrevem nos limbos das folhas têm que nos explicar o que se passa, para que compreendamos quem foram as vítimas. Mas também estes temem por vezes a exaltação do Leão sempre que falam ou escrevem em demasia, tremem-lhes as pernas durante a noite quando descem das árvores e andam mais à vontade pela selva. Mas esse tal Leão chamado Ulrich diz-nos que ainda conseguimos aguentar mais sacrifícios no ecossistema, que se os mochos aparecem só de noite, nós, independentemente da espécie, também podemos estar pelas nossas tocas durante o dia todo e vir à noite dar umas voltinhas pela selva e respirar um bocadinho, se para isso mostrarmos devoção às exigências do Rei Leão.

Alguns nesta selva vão-se esquecendo, por vezes, de onde metem os recursos da sua caça. É o que faz construir esconderijos altamente sofisticados e depois não sabem o que fazem às coisas que arrumam. Acontece a todos aqui na selva, não sejamos precipitados na apreciação. Só assim se entende que um Leão temido por muitos chamado Ricardo Salgado, se tenha esquecido de declarar 8.5 milhões kg de carne de antílope a uns abutres que dilaceram o produto da caça dos mais pequenos e se vão esquecendo de debicar o produto de caça destes Leões. Por isso é que sou a favor do armazenamento na própria toca, ou no ninho, ou no sítio onde se pernoita, porque ao menos aquilo ali é nosso e conhecemos-lhe os cantos. Só assim se evitam estes pequenos lapsos que não são nada bons para o funcionamento do ecossistema. Alguns dizem que é appetite for destruction como diziam os Guns n’ Roses no ano em que eu nasci, mas isso são as más-línguas que não rogam o supremo interesse da selva. Prefiro acreditar que se trata de um simples esquecimento e devaneio da alma animal e que os macacos da selva não devem estar tão atentos a escrever sobre estas pequenas imprudências leoninas.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

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