25 Ago 2013, 8:47

Texto de

Opinião

Welcome, Bienvenidos, Bienvenue, Willkommen

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A invasão “low cost” está a mudar a cidade. Por quanto tempo não sabemos, mas para já estão a ser tempos muito interessantes.

"Vocês são a última invasão e eu gostava de lhes dizer: Bem-vindos!" Foto: David Pontes

Conquistem à vontade o rio, as praças, as nossas torres, as esplanadas, encham as casas vazias, as ruas por onde nunca passamos, capturem as imagens que o nosso quotidiano tornou transparentes… Tomem a nossa cidade, que ao fazê-lo estão-nos a devolvê-la.

Vocês são a última invasão e eu gostava de lhes dizer: Bem-vindos!

Sento-me numa esplanada, domingo à tarde no centro do Porto, e à minha volta, na esplanada cheia, não há quem fale português. Italiano, espanhol, inglês… O empregado, com a esforçada ajuda dos clientes, vai cumprindo a tarefa de transformar aquela Babel em pregos e peixe grelhado. É domingo à tarde, repito para mim, e há gente na praça. Crianças.

Mais a baixo, na Cândido dos Reis, há reformados galegos e ondulantes holandesas entre as bancas do Mercadinho dos Clérigos, grupos de cabeça erguida junto à torre, casais que tiram fotografias aos Armazéns Cunha, japoneses passeando pela rua da Vitória, onde um velho palácio alberga um hotel e seis apartamentos duplex num relvado com vistas para a Sé.

Façamos, pois, a devida estátua ao general Michael O’Leary e aos seus concorrentes que, com as suas raspadinhas a 10 quilómetros de altitude, lideraram esta invasão e conquistaram o Porto de uma forma avassaladora.

A baixa da cidade, o centro histórico, a zona ribeirinha, o cais de Gaia, Serralves, a Casa da Música, passaram a ser território ocupado por forças amigas, munidas de mapa e câmara fotográfica ou só de vontade de conhecer. E não é só no Verão, mas pelo ano inteiro, o centro da cidade está recheado de uma animação como há muito não conhecia.

Isto não apaga a cidade entaipada, mas é um suplemento de alma ver cafés abertos, casas vazias transformadas em hospedarias, autocarros cheios de gente espantada, restaurantes cheios e essa gratificante sensação de apreço por uma cidade que os portuenses, como ninguém, sabem que é única.

Mesmo que não tanto quanto um guia fez crer a uma brasileira entusiasmada pelo conjunto das igrejas geminadas das Carmelitas e do Carmo. “Duas igrejas construídas assim, lado a lado, é o único no mundo”. É certamente raro, provavelmente o mais bonito, mas único…

A invasão “low cost” está a mudar a cidade. Por quanto tempo não sabemos, mas para já estão a ser tempos muito interessantes.

  1. Isabel says:

    Infelizmente a invasão “low cost” traz pouco valor acrescentado ao Porto e todos os problemas do turismo e dos turistas em termos de impacto ambiental. Não estou certa que deva ser este o caminho do Porto. Aliás estou certa que não deve ser. Não é o turismo que se deve ambicionar.

  2. José Nogueira says:

    E pronto! Lá vem o malfadado comentário “tiro-no-pé”! Isabel, francamente: se a cidade está decadente, o centro histórico degradado, a Baixa abandonada, isso é mau! Claro!Mas se vem uma lufada de ar fresco (e que lufada) devido à literal invasão de turistas e visitantes estrangeiros, porque:
    1. Nos media internacionais, para vergonha dos media nacionais sediados em Lisboa, tem havido sucessivas referências elogiosas à Invicta nos últimos anos, mais do que todas as outras cidades portuguesas juntas, incluindo a capital do império;
    2. Cada vez temos mais estudantes Erasnmus, para além de mestrandos e doutorandos, na melhor Universidade de Portugal, a UP;
    3. A Ryanair transporta quase 50% (!)dos passageiros do Aeroporto do Porto, contra pouco mais do que 25% da chamada transportadora nacional (sim, a TAL, perdão, TAP), que aposta unicamente em Lisboa;
    4. Apesar do despudorado apoio do chamado Turismo de Portugal a Lisboa e ao Algarve, as instituições do Norte, tanto públicas como privadas, têm feito um excelente trabalho de promoção da Região Norte;
    5. A única actividade que tem criado emprego + valor acrescentado no Porto tem sido a abertura de restaurantes, lojas, bares, hostéis, cafés, etc.
    6. A nossa simpatia (imagino que, pelo teor do seu comentário, não a sua), gastronomia, cultura, o nosso património, a nossa proximidade com o Douro, Guimarães e Braga, só para citar alguns exemplos, são trunfos fundamentais para conquistar o coração e a alma de quem nos visita e eu sou testemunha disso, porque todos os sábados falo com estrangeiros em Inglês, Alemão ou Francês que – que mais valia fantástica – regressam aos seus países com vontade de voltar e com a intenção firme de falarem aos amigos para nos visitarem, para além de a minha mulher, eu próprio mais os nossos amigos, religiosamente gastamos quase todo o nosso dinheiro disponível (cada vez menos, é certo) no Centro, contribuindo patriotacamente para o desenvolvimento da cidade que amamos incondicionalmente, bem…
    … não é bom? positivo? numa época de crise em só o turismo e as exportações (de bens e pessoas) está a safar a nossa Região,e, por tabela, o país?
    Isabel: se tem alguma solução milagrosa alternativa para ajudar a minha querida cidade do Porto, não exite, partilhe connosco e/ou faça como as centenas de jovens que estão a apostar na Invicta: ivista, crie riqueza e deixe-se desse péssimo hábito tuga do escárnio e maldizer, misturado com inveja, ciúme e outros sentimentos do género. Olhe, tome um compensan que isso passa. Saudações portuenses, tripeiras e portistas.

    • Isabel says:

      Sabe uma coisa ? Gostar do Porto e querer o melhor para a Cidade não tem nada a ver com fazer comentários “simpáticos”. Tenho várias ideias de soluções para o Porto, apostanto naquilo que tem de melhor, como a gastronomia e especialmente o peixe. Apostanto no turismo enológico, que atrai viajantes com poder de compra e com sentido de respeito pelo Património envolvente (ver o caso do turismo enológico em França) entre outras. Acredite que não tenho nenhuma inveja, mas penso sinceramente que se anda a apostar no tipo de turismo errado. Nasci no Porto, é a minha cidade. Vivo fora de Portugal, vou ao Porto com muita frequência e provavelmente tenho uma perspectiva da situação mais “desapaixonada”.E não, não preciso de tomar nada mas não me deixo cegar por fogos fátuos.Quanto aos seus comentários pessoais “atirados” a quem não conhece, enfim e caindo no seu mesmo erro, deixou-se levar pelo “péssimo habito do escárnio”.

  3. José Nogueira says:

    Já percebi, faz parte daqueles que nasceram no Porto, depois foram para Lisboa ou para o estrangeiro, por razões várias, transformam-se em centralistas ou estrangeirados e depois acham que o que viram e “experenciaram” na Capital do Império ou “lá fora” torna-os uns iluminados e nós, os que ficaram por cá, somos uns pobres coitados, provincianos e ignorantes. Estou-me absolutamente nas tintas sobre a opinião que a senhora possa ter sobre mim, uma vez que nem nos conhecemos pessoalmente, e nem temos interesse absolutamente algum em fazê-lo. Conheço, infelizmente, centenas de jovens, familiares e não só, que foram obrigados a sair deste país porque a pátria (ou mátria) madastra não lhes dá condições minimammente dignas para trabalharem. Mas, independentemente da sua opinião sobre o turismo que existe hoje na Invicta, tenha ao menos pudor e mostre respeito e agradecimento porque, se hoje há algum investimento na cidade, deve-se aos centenas de portuenses e não só que ficaram por cá, fizeram das tripas coração e, contra ventos e marés (Rui Rio, Centralismo e Burocracia), estão a investir, a criar emprego e a resistir ao canto das sereias lisboeta e/ou estrangeira. Para terminar, espanta-me que, vivendo “lá fora”, onde, aliás, em vários países, tenho amigos que adoram o Porto, tal como ele é, não se tenha apercebido que o crescimento exponencial do turismo que abomina, seja quase da exclusiva responsabilidade precisamente dos estrangeiros:
    1. Media internacionais, com imensas referências elogiosas à Invicta;
    2. Estudantes Erasmus e não só;
    3. Ryanair
    4. Visitantes/turistas reincidentes porque adoram a nossa simpatia, gastronomia, património cultural, movida noturna, etc.
    Para acabar, se nasceu cá, vem cá frequentemente e gosta do Porto, espero que, quando “lá fora”, seja lá onde for que viva e/ou trabalhe, algum “nativo” lhe pedir uma opinião sobre se deve visitar a Invicta ou não, a senhora diga que sim, sorria e fale das muitas coisas maravilhoasas da minha cidade e se abstenha de mencionar os aspectos mais negativos. Esses, os estrangeiros, que não são parvos, podem é alguns ter pouco dinheiro, vão descobrir por si próprios.Mas deixe-os primeiro deixar cá os euros, dólares, yens e francos suiços que tanto precisamos. A bem da “naçon” ( O Porto, claro).

  4. Pensar a Cidade como programa global de sociedade urbana, enquanto tarefa nobre da praxis política. Esta prática não se relaciona com o tecnocracismo medíocre, ou simplesmente não pode ser campo de fácil manipulação de gente especulativa, rentista que usam a cidade como uma simples moeda ganho fácil. A cidade não pode ser um campo de especulação económica e financeira, rentável para meia duzias de especuladores imobiliários que a manipulam e a transformam sem sentido civilizacional. A Cidade é uma civilização inteira em si mesma. Um paradigma civilizacional que modela e abriga.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.