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Foto: Miguel Oliveira

13 Set 2017, 11:41

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Opinião

Voltou a lei da rolha em tempos de liberdade

O Benfica apresentou uma providência cautelar contra o FC Porto para evitar que este clube continue a divulgar os e-mails que tanto estão a perturbar os seus chamados “arranjinhos” para com o mundo da arbitragem.

Imagem de perfil de Manuel Luís Mendes

Manuel Luís Mendes é natural do Porto e licenciado em História. Foi professor no ensino oficial de Português e de História. E ainda docente de Comunicação no ISEF (hoje Faculdade do Desporto) e na Escola Superior de Jornalismo. Foi ainda jornalista no Jornal de Notícias, tendo chefiado a secção de Desporto. Trabalhou na área da Educação e Ensino.

Finalmente, com esta decisão, o clube da águia – outrora um emblema de bem …- atira a pedra sem esconder a mão.

Ou seja: perdeu a vergonha. Definitivamente!

Entre os benfiquistas há, com certeza, pessoas sérias e dignas que estarão surpresas e, mesmo, chocadas com tanta indignidade.

O problema não reside em o clube servir-se dos instrumentos do Estado de Direito em que vivemos para apresentar os seus argumentos. Isso é legítimo.

Simplesmente, toda esta reação reflete o medo e, até, o pavor que a denúncia de uma atividade subterrânea e desonrosa para os envolvidos, está a levantar. Em boa verdade, o pânico instalado entre os seus dirigentes, é sintomático e reflete-se na fraqueza da argumentação de caserna que o clube exibe.

A contradição é notória: por um lado não assumem a existência desses mails, por outro, assumem ao querer impedir a sua divulgação.

Se ainda nada foi confirmado pelo clube, como entender esta providência cautelar? Se os mails não existem – e o Benfica ainda não admitiu tal – então só por medo da verdade é que se justifica tanta preocupação e temor.

Mas o clube tem uma explicação bizarra e cheia de hipocrisia ao considerar que o faz por duas razões: impedir a continuação de uma ilegalidade e zelar pelo bom nome do clube.

Estão a brincar connosco ou só com os seus indefetíveis e extremistas adeptos?

Alguém, de bom senso e no seu juízo perfeito, acredita na bondade deste comunicado?

E acha, mesmo, que o intuito dos denunciantes é apenas acusar os rivais de fazerem coação e intimidação sobre os árbitros como reza o comunicado? Não será isso puro cinismo?

É evidente que esta defesa – chamemos-lhe assim – de uma situação grave e lesiva da ética desportiva vai ser, rapidamente, desvalorizada e, até, apagada pelos seus mais encarniçados escribas. Só que ainda há, em Portugal, quem seja independente o suficiente para denunciar publicamente uma situação de lesa-futebol que enegrece e desonra a modalidade.

Há outros que já usaram estes processos? Admitimos que sim.

Mas será isso suficiente para permanecer no erro e cruzar os braços? Ou será que a melhor maneira de servir o desporto é olhar para o seu futuro com os pés no presente?

E este Benfica não pode, de modo algum, ser o intérprete da mudança desejada por quem vê a competição como uma escola de virtudes e não como uma academia de estratégias condenadas pela generalidade dos portugueses.

Opinião

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