12 Nov 2012, 14:03

Texto de

Opinião

Merklantilismo

Se por acaso tiverem a informação de que a chanceler vem para a zona do Porto, por favor, avisem-me que eu meto-me logo a trabalhar, juro que me meto.

Angela Merkel

Foto: DR

Enquanto Merkel aterra em terras lusas e viaja pelas ruas da capital, eu trabalho. Trabalho, trabalho e continuarei trabalhando até o sol se pôr. Trabalho porque posso trabalhar, porque tenho que trabalhar e mesmo que não pudesse, não me deixassem, eu trabalhava, inventava uma coisa qualquer para fazer e punha-me a trabalhar, para que a chanceler alemã veja o quão bom aluno e respeitador da autoridade eu sou.

Desde que estou a trabalhar ainda não fui uma única vez à televisão. Sei, pelo burburinho que vem da TV da cozinha, que os média estão a cobrir a chegada de Angela Merkel: defino-o simplesmente como o merklatilismo. E ainda não fui à TV porque, como vos dizia, estou a trabalhar, trabalhei a manhã toda, só fiz mesmo esta pausa no meu trabalho porque me estava a dar vontade de escrever qualquer coisa e olha, cá está saindo sem perceber bem porquê uma crónica sobre Angela Merkel, mesmo desconhecendo por completo como está a ser a passagem dela por Portugal.

Será que está a gostar? Espero que sim, é o que desejo a todos os que visitam o meu país.

Só tenho receio que o merklantilismo que envolve a chegada da chanceler permita que esta constate que afinal Portugal pára quando há algum acontecimento fora do comum. Não se engane senhora chanceler, que isso não é verdade.

Ela certamente que não gostará se nós pararmos para a vermos, porque nos considerará malandros, caprichosos, ou então, utilizando uma palavra bem cara a Passos Coelho, achar-nos-á piegas. E por não ser piegas é que estou a trabalhar e começo já a sentir falta do trabalho. Por isso é que eu acho que tínhamos a obrigação de ignorar a presença da chanceler em território luso, e devíamos todos continuar o nosso trabalho e centrarmo-nos nisso com afinco. E mesmo para aqueles que não o têm, que estão desempregados, façam lá um esforcinho e inventem qualquer coisa hoje de eminentemente útil para a nação só para alemão ver.

Só tenho pena que Angela Merkel não passe aqui pelas minhas zonas porque mesmo assim continuava trabalhando – olhe bem para mim, senhora chanceler, de caneta em riste frente ao papel nu, eu e um monte de trabalho que me rodeia; olhe para a minha cara de concentração, de fulgor, de devoção à tarefa da labuta.

Continuava trabalhando porque Portugal merece pessoas que trabalhem para ele, não só nos dias em que vem cá alguém que se preocupa verdadeiramente com o nosso país, mas porque Portugal merece pessoas fiéis e humildes, submissas à autoridade, à pátria e se não estivéssemos em plena democracia (?) gritava já um slogan de tempos antigos, muito antigos.

Que vontade que tinha, Merkel talvez ficasse contente. Agora termino esta crónica, tenho que ir continuar a ler o meu jornal. Ups, já me descai. Mas acho que Merkel não ouviu. Prometam-me que não lhe dizem nada se a virem nas ruas. E se por acaso tiverem a informação de que a chanceler vem para a zona do Porto, por favor, avisem-me que eu meto-me logo a trabalhar, juro que me meto. E se não tiver trabalho eu invento, juro que invento, por Portugal, pelos nossos egrégios avós que invento, só para a senhora chanceler ver que afinal isto aqui é tudo bons rapazes.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

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