5 Dez 2011, 18:46

Texto de

Opinião

Visibilidade e prestígio

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Centro histórico é o sítio mais antigo de uma urbe e uma comunidade humana nativa. Os atuais moradores do Aleixo já não têm nada a ver com a zona histórica.

Um edifício entaipado no Largo da Pena Ventosa, no centro histórico do Porto

Um edifício entaipado no centro histórico. Foto: Arquivo

Quinze anos depois da classificação do centro histórico do Porto como Património da Humanidade, procuro e não encontro motivos para celebrar. Encontro, isso sim, razões para lastimar: reabilitação ínfima, desertificação imparável e a ruína galopante do tecido edificado, alastrando por contágio dos prédios contíguos.

É a “tragédia oculta” de que fala o historiador Helder Pacheco, referindo-se ao despovoamento da zona histórica. Não tão oculta para quem erguer os olhos sobre as costas da Sé, ao descer a Rua de Mouzinho da Silveira: as portas e janelas muradas ou entaipadas formam um contínuo assustador, entremeado por fachadas em ruína, que lembram caveiras, e cujas portas e janelas parecem enormes bocas desdentadas.

E, nestes 15 anos, não surgiu nenhum instrumento, do tipo RECRIA, por exemplo, de sã memória, onde se estribasse a reabilitação paulatina, mas decisiva, prédio a prédio.

O que dava jeito ao Porto era uma daquelas parcerias público-privadas que florescem na área da saúde, nomeadamente. Mas isso exigiria vontade, dom de comando e de negociação.

Um arquiteto de diploma londrino na mão surge agora com a luminosa ideia de reabilitar habitação no centro histórico a custo zero. Diz que o projecto, a que chamou “Arrebita Porto”, se destina a “ajudar os proprietários carenciados”, substituindo o pagamento em numerário por serviços prestados. Só não especifica os serviços que tal valia, nem quem está por trás dele.

Fernando Gomes ficou na história, pois foi no seu executivo que tudo começou e se fez a maior parte do pouco que está feito. Rui Rio pode muito bem ficar na história por ter reagido com surpresa à denúncia sobre a existência, no centro histórico, de várias dezenas de casas reabilitadas, vazias e em processo de degradação, tratando-se de património municipal.

A ignorância, neste caso, pode significar distração. Ou será negligência?

Outro interveniente no processo, Rui Moreira, da SRU, pode ir para a história por destruir a identidade do centro histórico, o que acontecerá se levar por diante o propósito de ali realojar os moradores do bairro do Aleixo.

Centro histórico é o sítio mais antigo de uma urbe e uma comunidade humana nativa. Ora, os atuais moradores do Aleixo já não têm nada a ver com a zona histórica. Como é que pessoas habituadas a viver numa torre vão viver no casario tradicional?

Afinal, foi mesmo assim que o despovoamento do centro histórico começou. Os moradores como peças de xadrez.

Concordo que a classificação da Unesco é prestigiante e, nessa medida, tenha suscitado interesse e curiosidade internacionais que se traduziram num significativo acréscimo da procura turística (também se chama a isto “visibilidade”). E eles, os turistas, têm o hábito, péssimo hábito, aliás, de apreciar as cidades a partir do chão. E é vê-los de máquina fotográfica ou de filmar apontada para as águas furtadas daquelas fachadas esburacadas, em ruína iminente.

Quanto a mim, esta visibilidade é negativa e envergonha.

Intriga-me o interesse deles por imagens de portas emparedadas e não vislumbro que importância têm fotografias de janelas que parecem grandes bocas desdentadas. Temo que sirvam para desclassificar a cidade, o que não seria de todo injusto, se os responsáveis a nível político e técnico continuarem a pôr-se a jeito, em diálogo descomunicante.

Amo esta cidade como ela é e não como ela poderia ser. Aqui realizei todos os sonhos e projetos trazidos da infância e aqui quero continuar a concretizar os sonhos e projetos da maturidade, com motivos para que o Porto continue a ser a minha cidade bem-amada.

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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