11 Mai 2011, 7:26

Texto de

Opinião

Venham mais 5

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Se a noite do Porto arriba, o dia afunda: muitas lojas fecham, assim como restaurantes mais antigos. Não se assiste à mesma motivação e engenho para criar novos negócios.

Maus Hábitos

Maus Hábitos. Foto: Nacho Pintos

Nestes 10 anos de Maus Hábitos – laboratório criativo na baixa do Porto, fruto de arreigado empreendedorismo, intrínseca irresponsabilidade e irresistível atracção pela cultura alternativa -, assisti de camarote ao que de bom e mau se fez nesta cidade.

Na cauda longa decrescente desde 2001, ano de grandes expectativas, e até ao presente 2011, o Porto anima-se, desanima-se, e, agora bebe, para atenuar a depressão.

Confirmando a certeza histórica que é na tradição do investimento privado que o melhor surge na cidade, deste nasceu a nova movida do Porto, dotada de ricos e diversos intérpretes: o Plano B, a Casa do Livro, o Armazém do Chá, o Lusitano, a Galeria de Paris, a Tendinha e muitos mais deram o pontapé de saída para a transformação de uma zona comercial nobre e decadente, num vértice central de animação nocturna.

Significa, também, uma tomada de consciência e o resgate do “espaço público” perdido com a morte da Ribeira. Em 2001, a estratégia para fazer desaparecer os bares da Ribeira funcionou no pressuposto que a motivou, abrindo espaço para os hotéis. Estes estão aí em força para acolher o fluxo de turistas cada mais intenso.

O espaço público tornado sala de visitas foi e será uma tradição da vida social nocturna portuense, e teria que voltar a existir. Os bares teriam que seguir esse movimento, era inevitável. E a ocupação da rua também.

Durante muitos anos, a Ribeira foi o melhor bilhete-postal da cidade do Porto, sendo ponto de encontro da cidade e arredores. Eis que o postal e o ponto de encontro ressurgem, agora nas ruas chiques da zona, onde o Clube Portuense, em 1857, abriu as suas portas.

Apostar na animação nocturna para alegrar o Porto é, também, uma estratégia que atrai gente de todos os sítios para vir passar “aquele” fim-de-semana.

É também uma fonte de rendimentos extra para o Estado, pois muitos desses espaços passam por um processo “kafkiano” para obter a licença, enquanto isso vão pagando várias multas pelas mais diversas razões. São, no fundo, uma fonte de rendimentos extra para o país e para a cidade. Parece que aquele e esta nos dizem “venham mais 5” [anos de burocracia e dezenas de multas].

Se a noite arriba, o dia afunda: muitas lojas fecham, assim como restaurantes mais antigos. Não se assiste à mesma motivação e engenho para criar novos negócios. Aí, assiste-se a uma demissão de massa crítica para o negócio do dia. Só na Miguel Bombarda e ruas próximas se vêem espaços de dia, lojas, ateliês com alguma originalidade, mas mesmo assim ainda demasiado frágeis em termos de negócio. Numa palavra, se a noite encontra companhia, o dia da cidade do Porto subsiste só e quase-silencioso, sem ninguém com quem alimentar uma conversa rica, consistente e duradoura.

  1. O engenho não é o mesmo, mas sempre vão surgindo projectos válidos e muito interessantes “de dia” (e não falo do boom do cake design, falo de projectos como a SWark e outros ateliês que estão a pensar e a impulsionar a reabilitação urbana da baixa da cidade). E, o que acho inteligente, projectos que são “do dia” e “da noite”, como os cafés-restaurantes-bares, que servem pequenos-almoços da pinta a preços porreiros, almoços executivos um pouco mais caros que a diária mas que, vá, também são melhores e jantares requintados, uma minoria ainda, e “engraçados” mas um pouco puxados no preço para aquilo que são, a maioria.

  2. José Nogueira says:

    A Ribeira está bem viva e recomenda-se: novos restaurantes, bares, hóteis, lojas, etc. Só com uma “pequena diferença” em relação aos meus tempos de estudante (já lá vão mais de 35 anos!): a vida existe até às 23 horas, máximo 24, quando fecham os restaurantes, frequentados quase exclusivamente pelos cada vez mais turistas que enchem a Ribeira durante o dia, e depois há uma deslocação em direcção aos Clérigos, passando ainda por zonas onde há também música (hard club), restauração (DOP), lojas (Mercearia das Flores), museus (das Marionetas), hostéis, etc. Há um continuum que não havia antes e que, quando acabarem as obras de requalificação da Rua das Flores, tenho a certeza, vai reforçar-se ainda mais.

Opinião

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