2 Jan 2014, 13:49

Texto de

Opinião

Vale mais uma rua do Porto que Londres toda

Antes quero gastar 100 no Porto ou Lisboa que 50 em Londres ou qualquer outra cidade da estranja, sabendo que muita da qualidade do que se vende em Londres, Munique ou Paris tem o vale do Ave como origem.

Torre de Londres

"Eles têm a Torre de Londres enfiada numa urbe atrofiada". Fotos: Ana Isabel Pereira

Sou um infatigável viajante dentro desta aldeia redonda em que nos calhou viver no Universo. Já conheço muito mundo o que me permite todas as comparações.

Por imperativos profissionais desloquei-me há uns dias a Inglaterra. Estava a passear em Picadilly Circus, no centro de Londres, de olhos nas montras e mãos nas algibeiras. As libras revoltam-se nos bolsos e querem saltar para as caixas registadoras dos antros que são motivo da minha cobiça mas eu afogo-as nos fundos do meu mais puro “esganadismo”.

Existe um fosso imenso entre a minha apetência para a compra e a disponibilidade mental para o gasto. Aprendi, desde cedo, a viver com pouco e mesmo nos momentos de abundância a relutância em gastar surge do mais profundo de mim como imperativo categórico quase intransponível. De repente, passa-me uma coisinha má pela cabeça, perco o controlo e aí vai “dóla” aos borbotões pois há limites para a avareza e esganadismo (já inventei mais um neologismo).

Em Londres resisti facilmente à pulsão patológica para a compra embora sobrassem os motivos para o fazer. Esta cidade é um dos centros do mundo e tem tudo para satisfazer os múltiplos apetites humanos. Só que eu não gosto de Inglaterra e tudo o que lhe diz respeito me aborrece.

Antes quero gastar 100 no Porto ou Lisboa que 50 em Londres ou qualquer outra cidade da estranja. É lógico que pugno e opto por tudo o que é português e tem qualidade, sabendo que muita da qualidade do que se vende em Londres, Munique ou Paris tem o vale do Ave como origem.

Quase sem dar por isso entro em comparações entre Porto e Londres e, como sou justo, não deixo o ultimatum e todas as sacanices que os ingleses nos fizeram ao longo da história entrar nas minhas cogitações.

Eles têm a Torre de Londres enfiada numa urbe atrofiada, nós temos a Torre dos Clérigos que se ergue imponente, dominando rio e cidade, elevando-nos em todas as transcendências espirituais.

Eles têm o rio Tamisa sujo e fechado em si, nós temos o rio Douro que nos dá alma e seiva dionisíaca apontando sempre para novos mundos.

Eles têm a batata como referência gastronómica, nós fazemos da comida arte e convívio humano e mantemos a tradição de o ato de comer ser um ato de cultura.

Eles têm uma rainha folclórica, que não manda nada mas que faz vender turismo. Bem nós aqui perdemos pois temos um presidente folclórico que também não manda nada, mas não vende turismo, nem em Boliqueime.

Eles têm um tempo merdoso, chuva dia sim, nuvens dia não, e nós somos bafejados pela alternância vivificadora de sol, frio, chuva e calor que nos faz sentir na pele e espírito a passagem de todas as estações do ano.

Nós temos o Siza Vieira, Rosa Mota, Júlio Resende, Alcino Coutinho, Manoel de Oliveira, Eugénio de Andrade, Maria Helena Vieira da Silva (que nasceu no Porto lá para os lados de Lisboa), Nadir Afonso que nasceu no Porto lá para os lados de Chaves), Almada Negreiros que nasceu no Porto lá para os lados de S. Tomé e Príncipe), José Mourinho (que nasceu no Porto lá para os lados de Setúbal) e tutti quanti que nasceram no Porto lá para os lados de qualquer sítio e que fazem deste país, apesar de tudo, um país maravilhoso. Em Londres, em Inglaterra, que eu saiba não nasceu ninguém importante.

Ah! Nasceu o corsário, o pirata Francis Drake, que a coroa inglesa premiou com o título de vice-almirante por todas as patifarias que perpetrou em todos os mares do mundo.

Como vêem não sou sectário. Fui justo e imparcial e, se Londres é um dos centros do mundo, a minha cidade do Porto é o centro único de todo universo.

  1. Rui Manuel Simões Oliveira says:

    Excelente artigo que nos permite ficar a saber mais do nosso Porto, em comparação com as outras cidades da Europa. Mais uma vez se verifica, que não damos o devido valor ao nosso património. Parabéns pelo artigo. Fiquei a saber mais sobre o nosso Porto.

  2. Arlindo Ferreira Lopes da Silva says:

    Também sou “tripeiro”, com muito gosto.

    Cada vez me surpreendes mais!

  3. José Nogueira says:

    Eu, tripeiro, portuense, portista adoro o Porto e Londres. Odeio Lisboa (pelo que ela representa de tudo o que está errado neste país). Já fui mais vezes a Londres (onde tenho amigos, portugueses e não só)do que a Lisboa (onde não conheço ninguém). Lisboa não me diz nada, nicles, népia! Londres, Barcelona, Milão, Amesterdão, Berlim, Edimburgo, Praga, no estrangeiro, Braga, Viana, Miranda, em Portugal, enchem-me o coração e a alma. Adoro o granito, o nevoeiro, os tons escuros e misteriosos, o frio (não a chuva), a melancolia, a frontalidade das pessoas, a rudeza a roçar a agressividade (não confundir com os sorrisos e amizade falsas dos Lisboetas e a má-educação dos parisienses). Prefiro os palavrões de Nova Iorque e do Porto às frases falsas e ocas de outras cidades.

  4. Branco says:

    Nunca fui a Londres! Nunca fui a Londres, nem a qualquer outro lugar da Ilha.
    Assumo-me como um tripeiro de gema.
    Fui nascido e criado nesta cidade que outrora teve uma malha associativa e desportiva mais viva, mais pulsante, mais forte. Fui nascido e criado nesta cidade que tem uma Avenida dos Aliados traçada por um inglês de nome Barry Parker e edificada por um dos nossos melhores arquitectos portuenses, o arquitecto Marques da Silva. Fui nascido e criado nesta cidade que outrora tinha nesta Avenida dos Aliados jardins de cor e oxigénio.

    Hoje dormido num concelho limítrofe, mas ainda vivido no Porto, vivo uma cidade em que as escolas cada vez mais têm cada vez menos crianças. Vivo uma cidade em que cada vez mais temos cada vez menos desporto. Vivo uma cidade e aqui à semelhança do país inteiro, em que cada vez mais a população doente, particularmente os idosos, vão cada vez menos aos Centros de Saúde. Vivo uma cidade que cada vez mais cedendo ao lobby do cinzento do granito que pisamos e do imobiliário que nos sufoca, está cada vez menos o Porto que sempre nos caracterizou. Vivo uma cidade em que cada vez mais os “novos ricos” pretensos cosmopolitas são cada vez menos tripeiros. Vivo uma cidade e aqui também à semelhança do País inteiro, cada vez mais forma e cada vez menos tem emprego para os jovens. Vivo uma cidade que cada vez mais obriga a uma emigração forçada para cidades como Londres e cada vez menos se preocupa com os nossos jovens. Vivo uma cidade cada vez mais às mãos da ganância e cada vez menos de humanidade.

    E em jeito de finalização digo que se vivo o Porto, também sofro o Porto e que tal como no poema de Bertold Brecht, “É Preciso Agir”!

    Como tripeiro e mesmo não sendo “Andrade” valha-nos o Sr. Pinto da Costa.

    É preciso agir
    Primeiro levaram os comunistas
    Mas não me importei com isso
    Eu não era comunista

    Em seguida levaram alguns operários
    Mas não me importei com isso
    Eu também não era operário

    Depois prenderam os sindicalistas
    Mas não me importei com isso
    Porque eu não sou sindicalista

    Depois agarraram uns sacerdotes
    Mas como não sou religioso
    Também não me importei

    Agora levam-me a mim
    Mas já é tarde.

    Bertold Brecht (1898-1956)

  5. Maria Sousa says:

    Caro José Augusto,
    Obrigada pelo excelente artigo. Qualquer um de nós que ame verdadeiramente o Porto, com as suas grandezas e as suas fraquezas, não pode deixar de se rever em cada uma das suas palavras carregadas de emotividade. Saibamos nós merecer ser filhos de tão ilustre terra!

  6. José Luís D. Rego says:

    Grande Portuense, convicto. Fala da NOSSA CIDADE como se falasse do Seu melhor Amigo. Este Homem é um apaixonado em tudo em que acredita…já fui a Londres, e gostei e vou voltar…quando, não sei…mas não é importante…o Porto, sim, é importante, por isso nós Portuenses, temos que lutar e meter mãos á OBRA…qualquer que seja, há sempre muito que fazer, temos que passar da critica á ação. GRANDE ABRAÇO Zé “Perninhas”

  7. Dinis Santos says:

    Sou Portuense com um orgulho imenso! Já visitei alguns países, algumas cidades. Como é bom visitar outras culturas, outros costumes, outras vidas.
    Mas quando estamos muito tempo fora de casa temos falta na nossa cama, dos nossos lençóis… O mesmo se passa com a grande Invicta. Sinto falta de ver o rio, de acordar de madrugada e ouvir as “cantigas” das gaivotas, daquela vista da serra do pilar. Grande abraço Zecas!

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