17 Jun 2012, 18:14

Texto de

Opinião

Vai trabalhar, malandro!

Escreveu Wilhelm Reich: "Qualquer sapateiro, carpinteiro, torneiro, mecânico, electricista, pedreiro, cavador, etc., deve demonstrar as suas capacidades. Só o político pode prescindir deste tipo de provas".

Também eu, em criança, me intriguei com a vida dos adultos. Uma das coisas que intriga mais nas crianças é o porquê de os adultos andarem tão atarefados e não terem vontade de brincar. De modo que percebem, à maneira delas, claro, que se quiserem crescer têm de aprender a ser alguma coisa e a andar atarefadas e a deixar de brincar. E os adultos vão reforçando esta inexorabilidade ao perguntarem, mal tentam alimentar conversa com o filho ou a filha dum amigo, “já sabes o que vais ser quando cresceres?”.

Normalmente as crianças já sabem e dizem coisas como polícia, cozinheiro, médico, bombeiro, astronauta, trapezista, futebolista, veterinário – todas em pé de igualdade, numa democracia laboral sem hierarquias nem estatutos. Concretizam às vezes em figuras e dizem que querem ter a profissão do pai, da avó, ser como o Cristiano Ronaldo, que vão ser Gatos Fedorentos, apresentadores de telejornal. Curioso que nunca digam que querem ser notários, procuradores da república, analistas clínicos, picas do metro ou políticos. As crianças já sabem o que vão fazer – os adultos é que cada vez menos sabem o que farão.

Também eu, em criança, me intriguei com o que iria ser quando crescesse. Foi isto na altura do 25 de Abril e os políticos faziam furor. Parecia muito animado ser político, andavam pelas ruas, subiam a palanques e puxavam pelas multidões, via-se que estavam entusiasmados e tinham sempre o ar de quem acabara de ganhar o campeonato. De modo que me fascinei pela hipótese de vir a ser um daqueles: um homem de massas. Fui então perguntando várias vezes a vários adultos que me pareciam de confiança que curso teria de fazer para ser político. “Político como?”, perguntavam. Político, então! Como esses que aparecem na televisão todos os dias!, respondia. Não me davam resposta. Desconfiei logo daquilo.

E agora, passados estes anos todos, agora que já sou adulto e já sei o que faço e às vezes queria fazer outra coisa mas não posso e não sei, descobri um texto que finalmente iluminou aquela minha pergunta da infância. Já tem bastantes anos, é dum autor que fomos deixando cair no esquecimento e que morreu numa prisão da Pensilvânia em 1957. Chamava-se Wilhelm Reich e escreveu assim a páginas tantas de “A peste emocional no trabalho”:

“Um estudante de medicina que quer chegar a exercer a sua carreira deve provar os seus conhecimentos práticos e teóricos, mas o político que pretende decidir o destino de milhões de trabalhadores, homens e mulheres – ao contrário do médico que nunca terá mais de alguns centos de pacientes – não necessita demonstrar os seus conhecimentos na nossa sociedade. A tragédia social que devasta desde há milénios a sociedade dos animais humanos parece ter grande parte da sua origem nestes factos.”

Parei ao fim deste parágrafo e engoli em seco. Não tive tempo de recuperar, porque logo levei com este:

“Qualquer sapateiro, carpinteiro, torneiro, mecânico, eletricista, pedreiro, cavador, etc., deve demonstrar as suas capacidades. Só o político pode prescindir deste tipo de provas e, se dispuser duma boa dose de astúcia, da ambição que carateriza os neuróticos e de um desejo de poder unido a uma falta total de escrúpulos, pode aspirar nestes tempos de confusão social aos mais altos cargos na sociedade humana.”

Não quero pensar que isto tenha a ver com os políticos da atualidade. Não tem, de certeza… Mas, que “estes tempos de confusão social” são hoje tão confusos como os da confusão do tempo em que Reich escreveu isto, lá isso são.

PS. Já depois de escrever esta crónica deparei-me na comunicação social com isto: Barack Obama, o prémio Nobel da paz, não estará na conferência mundial Rio+20, que celebra os 20 anos sobre a Conferência do Rio que foi um marco na discussão de problemas planetários que podemos resumir nas expressões desenvolvimento sustentado, alterações climáticas, economia ao serviço do social, etc.; também não estarão Merkel, nem David Cameron. Entretanto, Obama, o prémio Nobel da paz, jantou esta semana em NY com vedetas do cinema e doutras áreas de grande projeção – no sentido literal – numa iniciativa de angariação de fundos para a sua campanha visando o 2.º mandato na presidência dos EUA. Cada lugar à mesa custava 45.000 dólares. Algo, mesmo assim, muito abaixo dos 18 milhões de euros que Berlusconi terá gasto nos famosos convívios privados (?) com vistosas raparigas.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Simão says:

    Edgar Morin disse-o no livro “as grandes questões do nosso tempo” que a Política de que tudo depende, depende de tudo o que depende dela. Não serei tão radical, mas que a importância da Política (ou a ausência dela) está na base de muitas problemáticas, lá isso é verdade. E, tal como demonstra nesta crónica, a natureza “líquida” dela contribui para que não acreditemos mais nos ideais e nos sonhos dos fantoches que a executam.

    Abraço,
    Simão

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