6 Out 2012, 13:51

Texto de

Opinião

Vai devagar, emigrante

D. Sebastião, o Desejado, não é hoje mais do que a perspetiva de um emprego e de uma casa que se aguente de pé.

Depois de ter ido buscar uma das melhores bandas portuguesas de sempre, os Ornatos Violeta, para me inspirar nestas deambulações crónicas pelo paraíso ambíguo em que vivemos, eis que a música me volta a indicar o caminho. Desta vez, confesso não ter resistido à tentadora ousadia, fui mesmo buscar a inspiração para o título da crónica ao cantautor, poeta da fatalidade, profeta da desgraça, assassino em série (não literal) da música popular portuguesa, Graciano Saga.

O que pode parecer uma incursão pelo humor é, na verdade, uma imposição dos tempos que correm. Enquanto Graciano recomenda aos emigrados de longa duração as – muito educativas – cautelas no soalheiro regresso anual a casa, para as festas de verão, o meu pensamento está com a minha geração. Os tais enrascados que para se desenrascar procuram além-fronteiras a estabilidade que não encontram – porque não podem encontrar – na bomba-relógio que é Portugal, neste momento.

Nada contra. Seria cínico da minha parte tecer comentários críticos em relação àqueles que, corajosamente, deixam para trás a família, os amigos, a língua e os hábitos, para abraçar novas tarefas, novas exigências e o verdadeiro sentido da palavra mais nossa: saudade. É inegável a necessidade de muitos que, dependentes da competência duvidosa de uns poucos, precisam urgentemente de um horizonte. D. Sebastião, o Desejado, não é hoje mais do que a perspetiva de um emprego e de uma casa que se aguente de pé.

Todavia, as notícias que leio falam-me dos portugueses que dormem nas ruas de Londres. Contam-me histórias de homens e mulheres, rapazes e raparigas que saíram de Portugal com pouco e agora não têm nada. É urgente – tanto como esse horizonte sebastianista – que se evite uma euforia negativa, uma fuga ao abismo que levará apenas a um efeito semelhante ao de uma multidão que sai em pânico de um teatro em chamas: o espezinhamento.

Na zona de Stockwell, em Londres, onde se concentra uma grande parte da comunidade portuguesa emigrada em terras britânicas, acumulam-se relatos tristes. E embora também me cheguem aos ouvidos os casos de sucesso, preocupa-me o desespero daqueles que partem sem o mínimo planeamento, sem a mínima noção da realidade britânica (neste caso).

Conheço bem essa realidade. Felizmente não da perspetiva de alguém que tenha passado por essas privações. Mas sei uma coisa: ser pobre no Porto é terrível; sê-lo em Londres é mil vezes pior. O clima e o custo de vida na capital do Reino Unido assim o ditam.

É desta forma que me ocorre uma inversão de marcha nas palavras de Graciano Saga, para recomendar calma aos que partem para trabalhar, mais do que aos que regressam para passar férias.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

Opinião

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