5 Jul 2011, 16:57

Texto de

Opinião

A Universidade do Porto

A UP soube transformar-se abrindo as portas à renovação. Hoje, é uma escola plural, rica e diversificada, que responde com eficácia aos desafios duma sociedade em rápida transformação.

Universidade do Porto

Pertencer à UP é fazer parte duma instituição que engrandece a cidade, a região e o país

Nos meus 10 e 11 anos morei na rua da Fábrica. O meu pai levava-me muitas vezes ao Piolho, onde tinha a sua tertúlia de amigos da sueca, desporto radical de alta competição, bem regado e bem fumado, praticado religiosamente todos os domingos na tasca do Júlio Lobo.

No Piolho conviviam, em saudável exclusivismo e sem contaminações demagógicas, as tertúlias dos trabalhadores e as dos estudantes e professores da Universidade. De uma forma quase tácita, conviviam no mesmo espaço, mas ignorando-se mutuamente. O engraxador era o único que fazia a ponte relacional entre o lumpemproletariado e a estudantada e doutores, em colóquios exclusivamente futebolísticos.

Desse tempo de sonho e desprendimento, em que era obrigado a assistir às novenas de Maio na igreja das Carmelitas, retenho a reverencial admiração que os estudantes de Medicina me provocavam nas suas lutas titânicas contra os calhamaços de Anatomia ou Fisiologia.

Os estudantes universitários eram para mim semideuses do conhecimento que eu escutava respeitoso nas suas trocas de dúvidas e opiniões. Antes de qualquer outro sentimento, a Universidade do Porto convocou em mim um respeito religioso que tinha nos estudantes do Piolho os seus mais ilustres acólitos.

Naquele tempo, a Universidade, embora exaltada como templo do saber, era uma instituição que acentuava a segregação social, pois as possibilidades de educação no país de então eram reduzidas e a taxa de analfabetismo muito elevada.

Sempre vi a Universidade como miragem, unicamente aberta a iniciados que tinham a sua via iniciática pela frequência do liceu. Eu, professo dos cursos técnicos, sentia a Universidade como impossibilidade.

Quando comecei a jogar basquetebol no CDUP, senti de imediato um sentimento de inferioridade em relação aos colegas universitários. Tentava colmatar o meu défice de formação treinando mais do que eles e elevando-me pela via desportiva, mas sentia que me faltava algo que só encontrei após o serviço militar.

Com o 25 de Abril, a Universidade do Porto abriu-me as portas e a muitos outros que sem aquele momento libertador teriam ficado excluídos da formação universitária. A Universidade do Porto soube transformar-se abrindo as portas à renovação. Hoje, é uma escola plural, rica e diversificada, que responde com eficácia aos desafios duma sociedade em rápida transformação.

Hoje, pertencer à Universidade do Porto é fazer parte duma instituição que engrandece a cidade, a região e o país, e por isso nos obriga a uma superior responsabilização. Perscrutar o futuro é missão primeira da Universidade.

Rejeitando transformar a Universidade numa fábrica de empregos, devemos privilegiar uma formação plural, profunda e adaptada à procura de novas soluções profissionais quando as tradicionais se esgotam. Este desiderato só se conseguirá se as escolas que integram a Universidade do Porto pensarem a realidade na sua complexidade transformadora.

  1. Domingos Silva says:

    Mas o Doutor José Augusto, para além daquilo que se percebe no texto, é um estudioso, um mestre na arte de ensinar e orientar estudos académicos, um profundo trabalhador, com elevada dedicação à Faculdade de Desporto e à Universidade do Porto. Pelo muito que aprendi, pelo muito que continuo a aprender, muito me orgulho de ser um dos seus discípulos.
    Domingos Silva

  2. José Luís Rego says:

    Embora não tenha a tua vivência como Universitário, mas recordo-me das minhas idas à Baixa da cidade com a minha Mãe (pelo menos uma vez por semana, pois vivia-mos na parte alta da cidade – Costa Cabral junto ao Centenário ACADÉMICO)das tertúlias de estudantes, a estudar no Estrela Douro, no Aviz ou no Ceuta, pois o meu Pai e o meu Padrinho trabalhavam na Galeria de Paris e, era certo e sabido que um lanche nos referidos cafés era sagrado. Esses estudantes desta Centenária Univeresidade do Nosso Porto, agrupavam-se para discutir e estudar, tal qual como no Piolho. Hoje, essas tertúlias desapareceram, deixaram de fazer parte da cultura estudantil da cidade…Doutores e Engenheiros nestes últimos 100 anos foram aos “magotes”, por isso, VIVA A NOSSA UNIVERSIDADE, POR MAIS 100 ANOS …pelo menos.

  3. Dinis Santos says:

    Este senhor é o maior estudante que eu conheço, todos os santos dias vai para a faculdade trabalhar, seja feriado ou domingo. É um grande professor. Sabe imenso da sua área, é o especialista da matéria. Mas tambem sabe de outras áreas que nem fazia a minima que ele sabia. E este senhor é meu pai, e tenho muito orgulho nele, e no que faz!*

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