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12 Out 2017, 15:13

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Opinião

A Universidade de Desporto do Porto

Ultimamente tenho andado com o meu ego pátrio a rondar os zénites celestiais pois 2107 tem sido um ano de renascimento da saga lusíada.

Imagem de perfil de José Augusto Rodrigues dos Santos

Nasceu no Porto, em 1948. Professor associado com agregação da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tem dirigido trabalhos de investigação em várias áreas científicas (Nutrição, Bioquímica, Imunologia e Fisiologia) relacionadas com o desporto. Foi treinador de remo, canoagem e futebol e atleta internacional de canoagem e basquetebol.

Uma série longa de positividades que têm caracterizado a vida do nosso país, faz-me acreditar na nossa capacidade de ombrear com os países mais evoluídos do mundo. Quando, Almada Negreiros termina o seu “Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX” com a exortação “O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades”, nem imaginava que o dealbar do século XXI veria a emergência das qualidades intrínsecas do povo lusitano. Atentemos no que de bom temos feito nos últimos tempos: (i) saída, mais uma vez, do procedimento por défice excessivo, facto que tem motivou os elogios de toda a Europa; (ii) êxito dos manos Sobral no festival da Eurovisão, com uma canção sóbria, de bom gosto e bem elaborada; (iii) o êxito global dos nossos canoístas na Taça de Mundo de pista; (iv) a excelência performativa individual de Fernando Pimenta no campeonato do mundo de canoagem com uma medalha de ouro e outra de prata; (v) o anúncio pela agência de rating Standard & Poor’s da entrada da dívida portuguesa no nível de investimento; (vi) a redução da taxa de desemprego e o aumento do crescimento económico acima do esperado pelos prognósticos mais otimistas (razão tinha o outro de que prognósticos só no fim); (vii) o título de campeã do mundo de bodyboard de Joana Shenker; (viii) os resultados entusiasmantes de Tiago Monteiro no mundial de carros de turismo; (ix) o Prémio da Crítica Internacional do Festival de Cannes para o filme “A Fábrica de Nada”, do realizador Pedro Pinho, etc., etc. etc.

Logicamente que nem tudo foi um mar de rosas. Para mal dos nossos pecados, aconteceu o tetra-campeonato daquele clube com sede numa aldeia a sudoeste da cidade de Vila Franca de Xira.

Mas esqueçamos as amarguras e focalizemo-nos nas positividades com que a vida nos agracia. De posse do ranking internacional que classifica as universidades e respetivas faculdades (QS World University Rankings, by subject 2017) o que podemos verificar? A Faculdade de Desporto da Universidade do Porto está colocada em 48º lugar a nível mundial e em 11º lugar a nível europeu. Perguntarão, isso é bom ou mau? Bem, só para fazerem uma ideia, este ranking diz respeito a cerca de 1.000 universidades em todo o mundo. As faculdades da Universidade do Porto que a seguir estão melhor classificadas nesse ranking internacional são: Engenharia Civil e Estruturas (51-100); Arquitetura (51-100), Engenharia Química (101-150), Farmácia (151-200), Educação (151-200), Ciências do Envolvimento (151-200), Agricultura e Florestas (151-200).

A partir destes resultados poderíamos inferir que a Universidade do Porto deveria fechar todas as faculdades e ficar só com a Faculdade de Desporto. É uma ideia justa, mas penso que as outras faculdades eram capazes de não estar pelos ajustes. Já viram a beleza da coisa, em vez de faculdade passaria a existir a Universidade do Desporto. Todos os professores das outras faculdades para a rua, menos os meus amigos. Franklim Marques, Mário Vaz, Santos Batista, Isabel Ramos, Tiago Guimarães, Ovídio Costa, José Ramos, Torres Costa e José Carlos Machado teriam lugar na novel Universidade do Desporto. E os outros todos? Bem o turismo está a dar e necessita de mão de obra especializada.

Mas voltemos à análise do ranking. Nós, Faculdade de Desporto, temos o melhor ranking global que analisa os vários parâmetros de qualidade. Nenhuma outra faculdade de Desporto e Educação Física se aproxima de nós em Portugal e na Península Ibérica. A FMH de Lisboa está posicionada no patamar 51-100. Temos que estar orgulhosos. Foi uma aventura que começou em 1976, em condições físicas paupérrimas, mas já com a qualidade manifesta em alguns dos professores e qualidade em embrião em alguns dos alunos. Quando entramos no curso em 1976 deparamos com as instalações da faculdade dispersas pelos quatro cantos da cidade. Um colega dizia com algum sentido de humor que frequentávamos a maior faculdade do mundo, pois para ir duma sala de aula para outra (o campo de futebol e a pista de atletismo são para nós salas de aula) tínhamos de ir de autocarro. Bem verdadeira tal asserção. Tínhamos aulas ginástica e algumas teóricas no Barracão (Carvalhosa), Instituto Biomédicas Abel Salazar (Carmo), Rua da Boa Hora (piscina), Ponte da Arrábida (basquetebol e andebol) e quando o campo de futebol do CDUP esteve em obras tínhamos futebol no Inatel, em Pereiró.

Os nossos primeiros passos na investigação científica tiveram a casa-mãe (INEF) como porto de abrigo. As gentes do Norte são tudo menos ingratas e, eu e muitos dos meus colegas de faculdade, temos de estar eternamente gratos à FMH que naquele tempo se chamava Instituto Superior de Educação Física de Lisboa, pois lá encontramos o apoio fundamental para a realização das nossas provas de APCC (Aptidão Pedagógica e Capacitação Científica) e doutoramento, pois, nos anos de 1980 a biblioteca da nossa faculdade era pobre e de acervo reduzido.

Hoje, ultrapassamos a casa-mãe, mas não nos podemos esquecer que ela formou muitos dos nossos professores e ajudou-nos nos nossos primeiros e titubeantes passos como escola de qualidade. Os Professores do ISEF de Lisboa, Armando Moreno, Sobral Leal e Paula Brito foram os responsáveis pela orientação de algumas das primeiras teses que iniciaram a nossa aventura pedagógica e científica. O primeiro congresso que realizamos no início dos anos de 1980 permitiu, a alguns de nós, apresentar em acetatos a “excelência” das nossas produções. Os nossos investimentos no conhecimento tinham muito de suor, mas pouco de científico se considerarmos, como Bachelard, que só há ciência no oculto.

Hoje, podemo-nos ufanar da excelência real da nossa produtividade científica. Atentemos, como exemplo, na produção científica de um dos nossos melhores alunos:

Moreira-Gonçalves et al. (2015) Signalling pathways underlying skeletal muscle wasting in experimental pulmonary arterial hypertension. Biochim Biophys Acta, 1852(12):2722-2731 (Factor de impacto: 5,476)
Moreira-Gonçalves et al. (2015) Cardioprotective effects of early and late aerobic exercise training in experimental pulmonary arterial hypertension. Basic Res Cardiol, 110(6):57 (Factor de impacto: 5,306).

O que significa publicar em revistas com os fatores de impacto acima indicados? Que em cerca de 12.000 revistas compulsadas em todo o mundo e em todas as áreas científicas o Daniel Gonçalves publicou em revistas colocadas nas 5% melhores. Isso dá a dimensão de qualidade da investigação científica da FADEUP.

Mas nem só de ciência pura e dura contribuímos para a excelência do país. Ouçamos o que sobre nós afirma Carlos Queirós: “A Faculdade de Desporto da Universidade do Porto tem a melhor formação superior de treinadores da Europa e provavelmente do mundo”.

Sim, temos orgulho no que somos e fomos. E, parafraseando Almada Negreiros, podemos afirmar que sobre a manta etérea dos nossos defeitos, soubemos construir os alicerces da nossa presente qualidade. Todos os dias porfiamos para não adormecer sobre os louros conquistados e cada manhã nasce aberta a novos desafios. É essa a função da Universidade – inteligir o mundo e as tensões de mudança.

Opinião

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