27 Ago 2012, 12:32

Texto de

Opinião

Uma semana sem notícias

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Nesta altura, o meu "sítio de sonho" é um cantinho pouco definido, nada definitivo, em frente ao oceano, numa semana sem notícias. Sem ruído.

Já fez uma semana desde a última vez que assisti a um noticiário televisivo. O mesmo se aplica à leitura de jornais – para lá das parangonas roubadas aos quiosques e aos outros passageiros de transportes públicos – e à consulta de sítios informativos na teia que dá a volta ao mundo. Nunca mais consultei o tão vital “livro das caras” – sim, como posso eu sobreviver sem a dose diária de likes?

Sei que a primeira jornada da liga de futebol começou com uma série de empates. Não sei nada das pegadas do Passos, da rega do Relvas, das apólices do Seguro. Dou graças por isso, o mundo passa bem uma temporada assim. Sou mais um tolo na época deles, a silly season que já quase se equivale às festas de Natal e Ano Novo.

Tenho um computador à moda antiga: não me permite navegar para além dos conteúdos do seu disco rígido. Dá-me para rabiscar umas coisas ao som dos Band of Horses. Se o vento ajuda, levo a caravela mais longe. Chego a acreditar no caminho fluvial para a Índia, deem-me brisa e a corrente faz o resto, ainda devo chegar antes do fim da partida de críquete que começou há 2 semanas.

Acima de tudo, tem sido o mar. Mais do que o Rio, que também está de férias. Tem havido muito mar na minha semana sem notícias. A bombordo e a estibordo. Na água e em terra. Há tanto mar que acabo por trazê-lo inevitavelmente na roupa, muito para lá da areia que teima em semear-se pela casa. Há ainda o paladar asiático dos seus vapores, o cheiro das algas e lembrar-me da sopa de miso, da galinha com algas, do sushi.

Como se este buffet imenso de água salgada não chegasse, trago o mar nos livros que leio, fomento o intercâmbio entre as suas histórias de marinheiros e esta costa que parece tão sossegada, também ela aparentemente embalada pelo vazio da época.

A dada altura, em “We, the drowned”, de Carsten Jensen, Miss Sophie pergunta a Knud Erik se ele sabe o que é um “sítio de sonho”. Perante a ignorância do marinheiro, Miss Sophie explica que o seu “sítio de sonho” é uma praia pequenina onde ela se senta a olhar o mar. E é então que sonha. Noutros momentos, ocorrer-me-iam outros locais, talvez eu não tenha um “sítio” mas um mapa coberto de pioneses. Nesta altura, o meu “sítio de sonho” é um cantinho pouco definido, nada definitivo, em frente ao oceano, numa semana sem notícias. Sem ruído.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

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