24 Out 2012, 14:01

Texto de

Opinião

Uma questão de alternativas

A nós, portugueses, resta-nos a alternativa de não deixar que façam de Portugal uma terra de ninguém.

Quando o povo é espoliado do rendimento do seu trabalho, a economia das famílias arrasada e o país, de norte a sul, se manifesta na rua, contra a política da corda na garganta, quem, num momento destes, se lembraria de dizer aos manifestantes que faziam melhor em calar-se e ir para casa?

Que me desculpe o senhor cardeal patriarca, mas a sua intervenção, além de gritantemente inoportuna, foi pouco sensata e nada piedosa.

No limite da resistência, perante os sacrifícios que lhe são exigidos, com a fome a grassar nas famílias, o povo protesta e fá-lo legitimamente, exercendo um direito de cidadania, contra aquilo que já foi classificado como “napalm fiscal”, “saque aos salários e reformas”, “assalto aos impostos”, “terramoto fiscal”, “roubo aos portugueses”.

Sem ponderar o efeito detonador que poderia ter, naquele momento de crispação, de grande tensão social, uma voz dissonante – a do mais alto dignitário da Igreja em Portugal – vem dizer que “esta crise não se resolve com manifestações” e que “nem com uma revolução se lá vai”.

Essa era a alternativa do silêncio, da resignação. E assim, Portugal não seria notícia em todos os jornais e televisões de todo o mundo. Mas os portugueses sabem que a alternativa não é o isolamento. Disso tivemos já 48 anos.

E o senhor cardeal patriarca tinha a alternativa de, pelo menos, refletir na situação das famílias – célula da sociedade, tão cara à Igreja –, que a austeridade mergulhou  numa pobreza sem memória e que não têm em casa uma caixa de esmolas eletrónica.

O ministro das Finanças também tinha a alternativa de ser intelectualmente honesto, em vez de fazer de nós indigentes mentais, quando disse que está a retribuir ao país o investimento que o país fez na sua formação. O quê?! Não está a ser pago e bem pago?

Aguiar Branco também tinha alternativa ao discurso fácil e despudorado que fez num telejornal: “Nós sabemos que é um orçamento difícil, nós também sentimos a austeridade, também temos família, filhos…”. Porque o “nós” de Aguiar Branco não é o plural de modéstia, referente dos seus concidadãos que não podem pagar os livros escolares dos filhos, das famílias que comem dos contentores do lixo, nem das que veem os filhos emigrar.

E ao chefe do Governo não faltam alternativas a um orçamento pensado para sangrar, de todas formas possíveis – incluindo a inconstitucionalidade –, a economia das famílias. Mas bastava-lhe uma, apenas uma, para que os portugueses entendessem e, assim, aceitassem os sacrifícios pedidos: dar o exemplo, acabando com o regime especial que poupa os membros do Governo e seus séquitos, os demais órgãos do Estado e todo o departamento empresarial do Estado dos cortes de subsídios.

E a nós, portugueses, resta-nos a alternativa de não deixar que façam de Portugal uma  terra de ninguém. Portugal é dos portugueses, nobre povo, nação valente, e não dessa cambada de fedelhos, vinda de nenhures, sem obra que os recomende e que escolheram ser moços de recados da troika em vez de governar o país.

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Obrigado Alice. eu tambem nasci em 1951, e como estou de acordo com a Senhora, em tudo, somente…adiantaria um pequeno detalhe dessa caixinha de esmolas, a que eu chama “maquina de lavar” é que no momento de se escrever “dadivas” elas podem ser enormes, e sabe-se lá de onde veem, naturalmente de algum anónimo benfeitor, que pode ser…o quê? entendem-me? se não entendem leiam “Vaticano S.A.” ou “the bollions of Vatican” não quero mais escuridões e desculpas que não conhecemos, não sabem porque não querem. obrigado

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