18 Mai 2011, 9:28

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Opinião

Uma pequena cidade

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Aceitemos que o Porto é uma pequena cidade. 41 km2, 216 mil habitantes. Nunca seremos Tóquio, Nova Iorque, Londres ou a Cidade do México. Nem sequer Lisboa. E ainda bem. Aproveitemos isso.

Telhados & Douro

"Telhados & Douro", Raquel Pinheiro

Aceitemos, na grande ordem das coisas, que o Porto é uma pequena cidade. 41 km2, 216 mil habitantes. Nunca seremos Tóquio, Nova Iorque, Londres ou a Cidade do México. Nem sequer Lisboa. E ainda bem.

Porquê? As grandes cidades são, e serão cada vez mais, sobrehabitadas, barulhentas, aceleradas, fatigantes. Algumas delas, em breve, devido ao elevadíssimo custo de vida, ficarão para os muito ricos, inacessíveis, ou quase, para a maioria de nós. Outras lutarão com dificuldades crescentes de abastecimento de água, poluição, falta de segurança.

Terão a seu favor o poderio económico, a capacidade de se imporem como líderes mundiais. E então, e nós, onde ficamos? Que fazemos? Aproveitamos, a nosso favor, o facto de termos uma pequena cidade.

Em vez de vermos isso como um problema ou obstáculo, valorizemo-lo. Em vez de gastarmos energia a tentarmos ser como as megapólis e em competições descabidas, abracemos calorosamente a nossa pequena dimensão. O Porto tem tudo para se tornar uma cidade com uma qualidade de vida invejável.

Sofremos de várias maleitas, é certo. Uma delas é não conseguirmos arranjar uma unidade identificativa a partir da qual possamos começar a trabalhar. Perdemos tempo em tricas com Lisboa ou entre grupinhos locais, que em nada servem o todo. A pormos os olhos nos outros, coloquemo-los no que fazem bem. Ler a entrevista de António Costa, o presidente da Câmara de Lisboa, à revista do Montepio deste trimestre pode dar-nos uma ajuda (ler em PDF).

Costa tem um discurso actual, integrativo do passado, presente e futuro da cidade que dirige. De Lisboa diz ser “uma cidade com história, cosmopolita e multicultural, onde o antigo e o moderno coexistem de forma singular”.

E o Porto, que imagem deve fazer passar? Em torno de quê se deve concentrar? Cidade pequena, romântica, antiga, calma, aprazível, onde criatividade e novas tecnologias convivem com vários séculos de história não parece má publicidade. A de uma cidade de grande qualidade de vida, preços módicos, amiga das famílias, aberta a todos, não esquecida dos que aqui vivem há décadas.

Conseguidas as linhas de orientação, há que, como escreveu Nuno Grande neste espaço, ter um “projecto de cidade”. Recuperar e tratar com respeito o património material e imaterial, as pessoas. Juntar o novo onde for necessário e não por ser projecto de um arquitecto conceituado ou, simplesmente, por ser novidade e se fazer “em todo o lado”.

E também não nos esquecermos que a cidade não se confina à baixa ou ao centro histórico. Das Antas a Francos, o Porto tem muito para oferecer. E para ser reorganizado. Mas o centro histórico é a nossa musa, determinante para a nossa identidade e merece ser mais bem tratado. Afinal, como me dizia um amigo no Facebook, a propósito da foto que ilustra esta crónica: “Eis os verdadeiros jardins suspensos da Babilónia”.

Querem melhor chamariz para o Porto do que a cidade dos jardins suspensos da Babilónia? A mim, juntando-lhes a serenidade de pequena cidade com todas as comodidades modernas parece-me bem. Mesmo muito bem.

  1. António Alves says:

    Tirando as características românticas do centro histórico não concordo com a caracterização aqui feita. A realidade sociológica Porto hoje não pode ser reduzida ao seu núcleo central. É uma realidade com mais de um milhão de habitantes e coração de uma conurbação que vai de Aveiro a Viana do Castelo com três milhões de habitantes. Pensar o Porto apenas a partir do seu núcleo central e esquecer a realidade envolvente parece-me redutor e perigoso. Até porque o Porto concellho já não é a parte mais dinâmica e inovadora desta cidade que podemos considerar média a nível europeu.

    • PSF says:

      Concordo plenamente, é irrealista pensar o Porto sem os concelhos que o circundam, isto é, o que conta é a área urbana contigua e onde se desenrolam movimentos pendulares diários e não uma qualquer herança administrativa … pensar o Porto fora da Área Metropolitana, que abarca mais de um milhão de habitantes completamente interligados e mutuamente dependentes, é uma visão pacóvia e burocrática (um portuense a morar em Lisboa há 30 anos)

  2. Eduarda Ferreira says:

    Acrescente-se um modo de deslocação em transporte público inteligente – o andante,para quem não saiba – e temos mais um factor favorável para a caracterização da cidade.

  3. Concordo em parte… limitar a cidade à sua área geográfica é muito primeira metade do século XX. E nesta perspectiva (número de pessoas que dormem lá dentro) Lisboa é também ela uma pequena cidade.

  4. Raquel Pinheiro via Facebook says:

    lisboa é maior, têm uma dinâmica diferente, vê-se (a entrevista do antónio costa que refiro na crónica é uma prova disso), e é vista de outro modo. para a crónica, e no sentido de encontrar palavras/ideias para ponto de partida para o porto, de mostrar que uma cidade pequena não é um entrave, limitar à área geográfica era importante. o resto vem depois e fica para crónicas futuras. :-)

  5. Os números servem apenas para dizer uma coisa: Apesar de não ser uma cidade tão pequena quanto possa parecer, o Porto consegue de ter uma qualidade de vida muito invejável considerando o número de pessoas que utilizam a Cidade, o que torna a coisa ainda mais meritória.

  6. Raquel Pinheiro says:

    António, eu não me esqueci, e sei que há vários milhões de habitantes na área que vai de Viana a Aveiro.
    O Porto cidade é uma pequena cidade. A área metropolitana do Porto tem uma dimensão média.
    Mas, de facto, nesta crónica estou apenas a referir-me à cidade em si mesma e não às cidades e concelhos que lhe são próximas. Daí as palavras escolhidas como mote serem para o Porto e não para a área que o rodeia.
    Não vejo perigo nenhum em pensar-se maneiras de defínir e projectar o Porto. Nem sequer é redutor. É um ponto de partida.
    O Porto “longo e grande” fica para outras crónicas.

  7. Raquel Pinheiro via Facebook says:

    Miguel, eu estou a referir-me apenas ao Porto cidade em si mesma. Não estou a falar do Porto e das cidades que o rodeiam. Com essas (o grande porto) sim, há vários milhões de habitantes. Uma coisa de casa vez. :-) Já é difícil arranjar palavras/ideias unificadoras para o Porto cidade, quanto mais para o grande porto, a área metropolitana do Porto, etc. Tem que se começar por algum canto, ter um ponto de partida, como ser-se uma cidade pequena, com excelente qualidade de vida. :-)

  8. @31atesil says:

    Excelente artigo de Raquel Pinheiro sobre a cidade.Muitas vezes somos apelidados de “Rústicos”, aqui no Porto, e até começo a gostar pois isso mostra a nossa singular autenticidade. O sabermos quem somos, o que queremos e para onde vamos.Gostei, parabens Porto24!

  9. António Alves says:

    eu não alinho muito nestes comparativismos, mas reconheça-se que Lisboa deixa a léguas o Porto numa coisa: a qualidade e a visão estratégica do seu presidente da câmara. O nosso é apenas um bom administrador, não chega sequer a ser um gestor sofrível.

  10. Tiago Cortez says:

    O Porto não e uma cidade pequena, nem beneficia de qualidades especiais nesse sentido. Se calhar outras cidades, sim, beneficiam, não sendo a dimensão da cidade um impeditivo da sua qualidade de vida. Eu já estive numas quantas grandes cidades, Buenos Aires, Londres, Paris, Seul, e noutras um pouco mais modestas. Sim, no mundo o Porto não e uma grande cidade, mas na Europa e. E um limite municipal desadequado não branqueia isso, Londres também não e apenas o ambiente bucólico de Westminster. O “campeonato” do Porto e o das cidades entre 1 e 3 milhões de habitantes, o top 30/40 europeu.
    Grande ou pequeno, o Porto e belo, uma coisa ou outra tem os problemas que tem, e por dizer que e pequeno, não desaparecem os carros ou a cidade fica menos poluída.

  11. Tiago Cortez says:

    P.S- se e para começar a agregar pelo pequeno porque não começar por dizer que a Ribeira e uma pacata aldeia duriense?

    E também por achar que o marketing e ranking da cidade se vê afectado por um discurso de pacatez. E um estigma que ainda marca muito a cidade. O caminho deve ser o inverso, e isso nao impede que se tratem os problemas. E apenas uma questão de discurso e marketing.

  12. André Vilhena says:

    O Porto não é , realmente, uma cidade de milhões de habitantes mas Lisboa está longe, muito longe daquilo que eu considero ser uma grande cidade.Para capital é pequenissima, tem , apenas, o dobro dos habitantes do Porto.Não sei se serei muito exigente mas o meu conceito de grandiosidade e de cosmopolitismo é mais exigente.Daí que eu pense que não temos nenhuam grande cidade em Portugal.Temos duas aldeias grandes, uma um pouco maior que a outra.Tão só.O engraçado é que lá por baixo para parecerem muito grandes juntam Lisboa e arredores e no Porto ficam-se só pelo concelho.é uma maneira muit lisboeta de parecer aquli que não é..Aliás por causa desses tiques, ao longos dos séculos o país foi padecendo, como padece agora, dessas magalomanias lisboetas.Alia´s, o Porto junto com Gaia, estupidez à portuguesa em quere retalhar, é bem maior que Lisboa.E Gaia é uma continuação natural do Porto.Não há diferenças acentuadas entre as componentes físicas e humanas das “duas cidades”.Teríamos uma grande cidade, essa sim, com um milhão de habitantes e, assim, temos duas aldeias.à portuguesa, concerteza… É a chamada visão de mercieiro..Mas nisso já temos o Sr Rio…

  13. André Vilhena says:

    Segundo sei a Raquel viveu alguns anos em Lisboa…Penso que, ainda que involuntariamente e sem se dar conta, já se deixou contaminar por um certo discurso que muitos nortenhos adoptam sempre que vão viverpara Lisboa.De repente, para se sentirem integrados abdicam de tudo, até da sua personalidade e maneira de pensar e acomodam-se ao discurso reinante.Não sei será por comodismo ou oportunismo mas o certo é que noto que o pessoal quando se fixa em Lx fica irritantemente despersonalisado..

  14. André says:

    Ridiculo. Com jornalistas destes no Porto, mais vale estes emigrarem para Lisboa ou para o estrangeiro.
    Se tem uma visão tão limitada do Porto, então sinto pena de si.

  15. José Nogueira says:

    Esta Raquel é um postal! Ilustrado não sei pois não aparece a sua fotografia? Será um fantasma? Virtual? Alisboetada é com toda a certeza!
    Alguns factos, segundo os últimos censos de 2011:
    1. Lisboa (cidade)= 82 km2/550.000 hab.
    Porto (cidade) >40km2/+- 235.000 hab.
    2. Em 30 anos Lisboa perdeu + de 300.000 hab. O Porto 100.000, menos, apesar de tudo, proporcionalmente que Lisboa. Surpresa? Muitos não sabe disto, porque os media sediados na capital do império esconde esse facto.Nós, os portuenses, é que gostamos de ser masoquitas.
    3. A AM do Porto é a 4ª maior da Península Ibérica! A seguir à de Madrid (cerca de 5 milhões); Barcelona (+ de 3 milhões) e Lisboa (cerca de 2,5 milhões), com 1.8 milhões (equivalente à de Valência.Ou seja, a exemplo das maiores cidaes ibéricas, a importância e influência da Invicta vão muito para além das suas fronteiras delimitadas pela Circunvalação, Mar e Douro.E chega por hoje.

Opinião

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