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Foto: Arq/Miguel Oliveira

14 Out 2015, 17:01

Texto de

Opinião

Uma muralha nas mãos

E percebi – em silêncio e lentidão – que tal como eu acredito que são os pés que me levam aos livros também eles acreditavam que o livro é sempre a melhor defesa contra todos os perigos que possam aparecer a rasgar o nosso caminho.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Há quem acredite – como Saramago – que a escrita começa nas nádegas e que só na posição sentada pode alguém escrever. Já eu penso que a escrita nasce nos pés e que só com o movimento do corpo a percorrer o mundo é que se pode calcorrear também os becos dos nossos pensamentos e memórias. Por isso não é raro que os pés me conduzam a escritas inesperadas e a lugares surpreendentes ou a livros misteriosos.

E foi num desses momento de peregrinação interior e exterior – num centro histórico que é zona de antigas judiarias e de roupa que espreita às janelas e de pessoas que caminham de cabeça levantada à espera que a cidade os deslumbre de pedra e sol – que avistei um grupo de 5 a 6 homens e mulheres à porta de uma casa a dedicarem-se à nobre arte do murro.

Não sei de verdade a causa que os levava a prática tão dedicada e ardente. Havia uma rapariga jovem de óculos a escorregar pelo nariz que gritava que lhe devolvessem um filho; uma mulher esférica como as de Botero que berrava que lhe tinham dado um soco; um homem calvo agarrado às ombreiras de uma porta a vociferar para ninguém que se fossem todos embora; além de muitas pessoas indistintas a uivar pela polícia. Entre cada grito ou pancada deslizava a banalidade da vida e dos corpos pois a violência real é sempre uma manta de retalhos de alucinação e poeira.

Mas os meus pés e os meus olhos levaram-me antes para o outro lado da mesma rua onde – com ar de visita de estudo – uma excursão de judeus grisalhos e de quipá caminhava em passo sepulcral. Alguns afoitos encaravam de frente as bofetadas enquanto outros espreitavam pelo canto do olho ou desviavam pudicamente os olhos. E havia até quem tirasse fotos discretas ou um homem agitado que clicava no audioguia em busca da faixa que lhe explicasse a situação.

Só que entre as faces e os olhos e as mãos horrorizadas acabei por me deter naqueles que entre o mesmo grupo empunhavam solidamente o Talmude: apertando a capa dura contra o peito e o estômago e a boca como se esta fosse a sua muralha contra aquela cena do outro mundo. E percebi – em silêncio e lentidão – que tal como eu acredito que são os pés que me levam aos livros também eles acreditavam que o livro é sempre a melhor defesa contra todos os perigos que possam aparecer a rasgar o nosso caminho.

 

Jorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Jorge Palinhos

Opinião

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