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15 Abr 2016, 15:28

Texto de

Opinião

Uma manhã

Vou tentar descrever os olhos da mulher. Eram azuis, sim, a nadar na esclera branca. Mas não foi isso o que mais me chamou a atenção. Foi a tensão que havia neles. Como se a própria face tentasse expeli-los para fora do corpo

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Como se fossem feitos de pedra e não de líquido e tecidos orgânicos. E, estavam pousados em mim, concentrando uma raiva acusatória que eu não conseguia compreender, se me tinha limitado a perguntar no balcão das informações quando partia o próximo autocarro para Bruxelas.

– Não há nenhum, senhor, está a haver um ataque terrorista na cidade, e todos os transportes foram cancelados – disse a mesma mulher, sem deixar de me fitar como a um alienígena.

Corrijo: não lhe chamou “atentado terrorista”. Chamou-lhe “ataque de terror”, como se com o pânico a própria cidade se tivesse lançado em fuga pelas planícies da Flandres.

Em meu redor havia mulheres e homens agarrados a computadores, telemóveis e tablets, que se iam detendo em silêncio às portas do aeroporto. Ninguém podia sair dali por falta de transportes, ninguém podia voltar a entrar no edifício onde homens fardados fechavam as portas umas atrás das outras.

Eu próprio comecei a andar para um lado, e depois para o outro, a tentar encontrar um caminho que subitamente parecia impossível. O mundo tinha-se tornado maior, mais frio e inexplicável. Acabei por encontrar um táxi, inflacionado e apinhado de gente que rumava para o sul da cidade sitiada. Lá dentro viajava o silêncio, só entrecortado pela conversa entre o condutor e um dos passageiros – ambos muçulmanos, a oscilar entre o árabe e o francês enquanto tentavam montar o quebra-cabeças do que aconteceria depois.

E o que aconteceu depois foi chegarmos à cidade, onde as ruas estavam vazias, onde os poucos carros passavam devagar, e onde os peões se acotovelavam às dezenas nas paragens de táxis, olhando cada veículo como se fosse a salvação divina.

Saí do táxi e comecei a caminhar pelas ruas cheias de vedações e homens de camuflado, enquanto olhava com estranheza os prédios, ruas, vielas, jardins e viadutos desertos em redor. Pensava que noutros lugares da cidade havia pessoas a morrer ou a sangrar, por vontade própria ou de outros, e que isso era como um vírus que galgava cimento, vidro, tijolo e alcatrão até chegar aos olhos azuis da funcionária do balcão de informações.

Jorge Palinhos tem trabalhado como escritor, dramaturgo e guionista. Os seus textos já foram publicados, encenados e apresentados em Portugal, Espanha, Brasil, Alemanha e EUA. É ainda docente do ensino superior e bolseiro da FCT. 

Jorge Palinhos

Opinião

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