11 Dez 2011, 15:14

Texto de

Opinião

Uma lágrima, uma memória. O país do fado

A classificação do fado servirá para mostrar que existem raízes e memórias culturais que são tradutoras de uma identidade.

O Fado, José Malhoa

"O Fado", José Malhoa, 1910

A música popular portuguesa provém de 4 registos musicais fundamentais: o fado, a canção de protesto, o folclore e o nacional-cançonetismo. O fado, de génese urbana, associado às cidades de Lisboa e Coimbra, foi generalizado a todo o país numa diversidade de formas e conteúdos, sob uma matriz única.

O fado é representado como uma forma cultural e musical tipicamente portuguesa, sendo uma força importante na definição da identidade nacional em campanhas turísticas, nas vivências emigrantes, na historicidade de zonas específicas das cidades, designadamente de Lisboa e de Coimbra.

O fado apresenta características consensuais no imaginário social português já que se pratica com uma guitarra e viola, radica na saudade, na paixão, nos desamores, no trágico, está associado aos bairros populares de Lisboa e aos estudantes de Coimbra e é, por excelência, a canção que exprime o sentir português e a celebração de uma urbanidade popular.

Portanto, o fado existe, vivido e sentido até ao presente. A própria figura de Amália, a sua matriz, a sua corporeidade, o seu sentir, a sua postura, é bem reveladora da importância do fado na configuração da cultura popular urbana portuguesa. É óbvio que, desde Benjamim e Adorno, sabemos que as manifestações artísticas mais intensas são objecto de uma utilização ideológica contaminada, por isso a utilização do fado na panaceia ideológica do Estado Novo, associado aos 3 “F”: Fátima, Fado e Futebol.

Essa associação levou à sua estigmatização no pós-25 de Abril, mas isso não bastou para que acabasse a sua celebração e vivência e a prova está na constante revivificação do fado enquanto expressão artística ampliada e refundadora de novas expressividades musicais contemporâneas ligadas inclusivamente ao pop rock (Madredeus, António Variações, Lula Pena e Dead Combo).

A aprovação, por parte da UNESCO, do fado como património imaterial da humanidade vem comprovar tudo o que dissemos. Pois, o fado é muito mais do que um mero artifício de entretenimento turístico, está no âmago das expressões da nossa cultura material e imaterial. Se não servir para mais, esta distinção servirá para amplificar o seu conhecimento, mostrar, numa época de risco e de incerteza, que existem raízes e memórias culturais que não são melhores, nem piores, são como são, são tradutoras de uma identidade.

Para mim, foi um momento feliz, porque se abriu a possibilidade de celebrar uma memória e uma manifestação musical que está na génese das vivências profundas do ser português.

Aliás, neste contexto de crescente desmaterialização da música, recordo aqui que as maiores vendas de discos em Portugal, no ano transacto, incidiram no fado e nas suas diferentes expressões contemporâneas. E acredito que nos tempos que correm isto não seja fácil, daí as manifestações de desagrado face à recorrência ao fado nos últimos dias.

A partir daqui, é importante que o fado na sua diversidade de manifestações (underground, vadio, anarca…) seja divulgado. E fala-vos quem não nutre especial simpatia por esta forma musical, cujos afectos estão nos seus antípodas (ou não) ligados à música popular de raiz anglo-saxónica. Fiquemos com os Dead Combo, “Quando A Alma Não É Pequena”.

  1. Joana Santos says:

    A música portuguesa transmite um sentimento único e uma cultura tão identitária que qualquer português que ande pelo mundo fora é capaz de se sentir em casa só de escutar.O fado é realmente o verdadeiro fado de quem é português ! É louvável escrever sobre isto, sobre algo que a maioria esquece que existe, mas que faz parte da nossa própria expressão.
    Parabéns !

  2. Tiago Cortez says:

    É algo que me faz muita impressão, a catalogação do fado como música portuguesa. Ele é praticado em Portugal, mas também em meio mundo. No Porto parece que existem 7 locais onde se pode ouvir o dito fado, o que deve andar ela por ela com os locais onde se pode ouvir blues, rock, jazz, música popular brasileira, etc… Falando no contexto do Porto, penso que o fado aparece como uma manifestação exótica, muito interessante sem dúvida, mas uma faceta cosmopolita da cidade, não uma base identitária desta. E para além de não me parecer de “todo o Portugal”, o fado ainda é uma canção recente.
    Se calhar anda mais próximo de nós aqui no Norte o “chinfrim” das gaitas de foles que está a ter um reaparecimento em força.
    Que todo o mundo possa apreciar e se apropriar das coisas boas que a cultura lisboeta criou, seja em Tokyo, em Nova Iorque, ou no Porto.

Opinião

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