27 Nov 2012, 15:29

Texto de

Opinião

Uma família para 2013

Estas medidas são muito sérias: ou as levamos por diante ou em 2014 não regressaremos aos mercados. E eu ando morto por ir ao Bolhão enquanto não acabam de vez com ele.

Um dos fatores que mais contribuíram para a crise que hoje vivemos foi a falta de informação. Isto é incompreensível na sociedade da informação, e é sobre isso que agora quero refletir. Um exemplo muito simples: alguém sabia o que era o Lehman Brothers antes de 2008? E a Standard & Poor’s? E já alguém tinha reparado em Merkel? Estávamos ou não mal informados?

Temos de colocar a questão sem rodeios: para que serve tanto jornal, tanto canal, tanto blog? Para que servem, afinal, Pacheco Pereira ou o professor Marcelo? Será que o professor Marcelo não lê aqueles livros todos que leva para a televisão? Porque se lesse tinha-nos dito em tempo útil o que era o Lehman Brothers, e Pacheco Pereira teria dissertado, com ar de quem vai a todo o momento ficar furioso e só se contém porque já não é do MRPP, teria dissertado, dizia, sobre a ofensiva neoliberal que haveria de guindar a ministros aldrabões do canudo e primeiros-ministros paus mandados de quem manda realmente. É ou não é um problema de falta de informação?

Mas a falha maior deu-se no capítulo da família. Os portugueses já começaram a dar conta e 2012 é o ano que regista a maior baixa de natalidade desde não sei quando. Mas a mim ninguém me avisou a tempo e zás!, há uns anos fiz uma família! As famílias dantes eram coisas boas, doutro modo, não se explica que as pessoas, mal saídas da família de origem, fizessem logo outra família. Foi o que me aconteceu. E agora? Pois é. E agora?

A crise tem um lado formativo: ligamos a televisão, ouvimos rádio, e está sempre a falar um especialista de finanças ou a acontecer um debate sobre economia. Não sabíamos que tínhamos tantos especialistas, o que é, de novo, um problema de falta de informação, mas temos e são mesmo bons e portanto o problema do país tem de ser mesmo grave porque tanto especialista junto não dá com o gato. De tal modo o tema se infiltrou no nosso quotidiano que já mudou a minha cosmovisão. Agora sou capaz de olhar para qualquer coisa e perceber de imediato como pode contribuir para diminuir a despesa, que tipo de IVA lhe devemos taxar, como se relaciona com os mercados quando estão nervosos.

É o que me acontece quando olho a minha própria família. Não quero maçar ninguém com os meus assuntos pessoais, mas suspeito que os meus assuntos pessoais são iguaizinhos aos assuntos pessoais dum monte de gente. Chegou por isso a hora de gritar ao mundo. Em tempo de cortes, ponho o grito em poucas palavras: fruto do aumento do consumo interno, entrei num nível de despesa que agora se revela incomportável; podia pedir ajuda? Podia. À DECO, ao meu antigo gestor de conta (ele não é antigo, eu é que o tinha antigamente), aos meus amigos. Mas os meus amigos aumentaram em tempos também todos enormemente o consumo interno e estão agora a efetuar cortes. Tantos cortes que já estão quase todos em recessão, e o único que não estava fugiu para o estrangeiro com uma pipa de massa e está a viver no offshore da Madeira.

Já pensei contrair um empréstimo junto de alguma família vizinha. Mas estou classificado um ponto acima de lixo e só se for a Lipor que me empreste. E depois também não é um método aceitável. Portugal também não pede ajuda a Espanha, Espanha não pede ajuda à Itália, e assim sucessivamente. Pedimos todos aos mesmos, que são os tais dos mercados que estão a ficar nervosos, os que engordam com o nosso emagrecimento. A prova do que digo é que nos mandam cortar nas gorduras. Por que é que os gordos não suportam outros gordos?

O meu orçamento para 2013 vai ter de tomar medidas drásticas, doutro modo corro o risco de os meus credores entrarem em ação – eles, que me vigiam dia e noite mas não querem perturbar-me o sono, com medo que depois não lhes pague. É que se entram em ação perturbam-me mesmo o sono: entrego a casa ao banco e vou dormir para a praça da República. É um sítio acolhedor, tem pessoal da brigada internacional dos sem teto – e, depois, sempre continuamos numa república.

Que estratégia orçamental, então, para 2013? Enuncio por agora 3 medidas de austeridade:

– primeira: feriados. Se o governo pôde ir mais longe do que a troika, eu posso ir mais longe do que o governo. Em 2013 suprimo 2 feriados religiosos e 2 laicos. Aí vai: Natal, Páscoa, 25 de Abril e 1.º de Maio. Assim mesmo. Porque ou há coragem ou somos um país de piegas! Nesses dias, a minha família laborará normalmente. O ex-feriado do Natal terá especial interesse na redução do défice: acabou-se a correria pelas lojas a inventar prendas. Agora ninguém quer prendas, prendas são gorduras que podemos cortar, agora as pessoas querem arroz, cebolas, azeite e massa – massa especialmente;

– segunda: filhos. Ninguém me desmentirá se disser que os filhos dão prejuízo. Escola, pediatra, explicações de matemática, aparelho dos dentes, despesas inopinadas devidas a estragos em vários lados, idas ao shopping às lojas de sapatilhas e àquele sítio dos hamburgers em caixinhas de esferovite, cotas de sócio do clube onde treinam para poderem vir a ser futebolistas e se acabar o aperto cá em casa. E crescem – os filhos são seres em contraciclo, tudo minga e eles a crescer, o que à primeira vista é bom, mas depois a roupa fica curta e lá andam eles outra vez no shopping. Podia enumerar o acréscimo de investimento que exigem sem a contrapartida de mais-valias até por volta dos 35 anos, que é quando acabam os voluntariados em várias instituições, concluem 3  estágios profissionais, obtêm o certificado de formadores de formadores de formadores e podem finalmente alistar-se no instituto de desemprego;

– terceira: cão. O meu cão representa gorduras que posso cortar – acabaram-se as aparas que trazia do talho ao sábado. Para quê um cão? Despesa supérflua. É certo que fazia companhia. Mas um dálmata de louça também faz. Vamos pô-lo em Terras do Bouro na quinta dum tio meu que é rico e vamos visitá-lo – refiro-me ao cão – todos os fins de semana. Aproveitamos e almoçamos e jantamos lá em casa, o que perfaz ao fim do mês umas quantas refeições para 4 pessoas à borla – não come assim o cão em nossa casa mas comemos nós na dos outros.

Estas medidas são muito sérias: ou as levamos por diante ou em 2014 não regressaremos aos mercados. E eu ando morto por ir ao Bolhão enquanto não acabam de vez com ele.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Isabel Costa says:

    Absolutamente sublime!
    Será que os ilustres senhores que nos governam compreenderão esta linguagem, esta forma tão simples, clara e objetiva de dizer as coisas como elas são de fato?

  2. Jorge Lima says:

    Simples, acessível, focada e sublime, esta análise. O Prof. Marcelo tem, sem qualquer dúvida, o seu lugar tremido…

  3. Mário Santos says:

    Caro Luís D’Óculos

    Nesta questão da “crise” imposta pelas directivas europeias, só existem duas formas de abordagem ou se discutem os seus efeitosnos termos da dupla Passos/Gaspar,ou se racha de cima abaixo o cerne da questão e os seus colaterais.
    Devem-nos isso os estudantes que esvaziam as tuas aulas, os teus colegas que vêm as bolsas de investigação ou doutoramento cortadas/atrasadas, os teus alunos licenciados que ou estão desempregados ou colocados a 600€/mês.

    Amigo, a inteligentzia fraca ou que não temos reclama que o chicote estale … nem que seja em digital.

    Um Abraço

    Mário

  4. Ana Cristina MArtins says:

    Alguém comentou acima que está a chorar de tanto rir, eu…
    não sei se é da angústia do fim do prazo da entrega da tese,
    ou das propinas que ainda devo,
    ou porque tenho uma família com jovens também ainda em contraciclo (genial essa!!!) e outros que já não crescem mas se multiplicam em netos, em contraciclo acelerado,
    ou porque me bateu o sentir-me defraudada com tanta informação – desinformação,
    … acho que já estou a rir de tanto chorar.
    Abraço grande, Luís. Muito bom.

  5. Penélope says:

    Caro Luís,

    convoquei reunião familiar e resolvemos aderir às medidas de austeridade que anuncias. Votámos todos a favor e todos fizemos declaração de voto num verdadeiro e inútil exercício de democracia de inspiração parlamentar.

    Abraço

  6. Logros Consentidos says:

    E o gato? As areias higiénicas, as latas de comida, o veterinário, são gorduras que a austeridade não pode consentir. Coitados dos bichanos, que vão ter de voltar ao tempo de caçar ratos e às tripas de sardinha… Nada que pela vontade dos agiotas do capital, não possa ser extensível aos humanos dos países esbanjadores…

  7. Sónia Rodrigues says:

    Eu vou prescindir também das flores. É que, apesar da minha mãe me ajudar na jardinagem, receio bem que o jardim arranjadinho seja uma boa desculpa para me subirem o IMI.

  8. 1 – Dividir o mal pelas aldeias…( se é que é mal)
    a)Ninguém deveria trabalhar + de 5horas/dia, havia trabalho e rendimento para todos equitativamente e acabava-se a falta de imaginação:)
    b)Todos deveriamos ter formação constante, pelo menos uma hora por dia, receber e dar…benvindos professores!!!
    c)Todos deveriamos cuidar da saúde, fisica, mental e espiritual…outra horita por dia 😉
    d)Deveriamos aprender a amar as pessoas e falo no plural…isso de amar só uma ou duas é castração :)
    d)Abolir o cifrão essencialmente e respeitar com gratidão a genorosidade da natureza, regando-a e comtemplando-a, em vez de vaidosamente nos andarmos a apreciar, comparar e julgar a nós!
    é) E sobretudo, que o Poder se vá FODER, poder seja lá de quem for. Só os irresponsáveis e cobardolas votam em alguém para gerir as suas próprias vidas….chamo a isso um acto de desresponsabilização, compactuar com o mau hábito de criar dependentes.

    Tenhamos fé em cada um de nós. Tenhamos fé que cada um de nós tem a sabedoria universal em si que o capacita para a existência, pura, simples e natural.

    Opto pelo silêncio,por fazer a minha parte e sobretudo por dar tantos rebuçados doces a quem os quiser aceitar e pela minha parte, declinar os rebuçados amargos que insistem em continuar a distribuir para contagiar, minar a minha inocente felicidade, dádiva generosamente oferecida pelo Universo que cá me colocou.

    Estou farto de críticas…prefiro investir em soluções…nas minhas soluções, pelas quais serei o único responsavel, pois voto em mim, foda-se!

    E se tiver que voltar aos primórdios….à natureza, à caverna….que experiência fabulosa será!

    • Filomena says:

      a)Apoiado! Proibido ter mais do que um trabalho, também;
      b)Certo, aprender,sempre, ensinar, também;
      c)Ok, bora lá, nem que seja subir e descer escadas, à falta de graveto…
      d)Claro, preservar o ambiente.Abaixo a poluição!
      e)É isso, que os pariu…

      Posso levar o isqueiro?

  9. Victor Moita says:

    Meu caro Luís … Apesar de só agora, tardiamente, ter chegado à tua crónica, o mínimo que posso fazer é pedir-te que me deixes subscrevê-la ;)… continuas igual a ti mesmo: … argúcia … crítica mordaz e “assassina” – desculpa-me a violência da adjectivação, mas é no bom sentido da metáfora! – e um humor inexcedível 😉

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