Image de Uma Árvore de Alegria

Fotos da exposição na Árvore (DR) e um auto-retrato do artista, de 1971.

10 Mar 2014, 18:08

Texto de

Opinião

Uma Árvore de Alegria

, ,

“Ângelo de Sousa 64-FE-66”, na Cooperativa Árvore, de 31 de Janeiro a 15 de Março.

Ângelo de Sousa, auto-retrato 1971

O auto-retrato de 1971.

A Cooperativa Árvore, instituição cultural de referência nacional e internacional fundada por um grupo de artistas plásticos em 1963, no Porto, comemora este ano os seus 50 anos de existência inteiramente dedicados à produção, criação e difusão artística e cultural, tendo também desempenhado um papel pioneiro na luta política travada contra a ditadura até ao 25 de Abril de 74.

Foram 50 anos de intensa actividade artística e cultural que se traduziram num diversificado conjunto de eventos que incluiu exposições individuais e colectivas, palestras, conferências, debates, concursos e projectos culturais ou ainda a criação, na década de 80, de vários cursos artísticos de nível superior, a par duma actividade editorial e gráfica que se distinguiu pela produção de livros de arte e de catálogos de exposições de grande qualidade gráfica, como também pela criação de oficinas de produção de gravura, serigrafia, litografia, cerâmica, fotografia e multimédia, tendo muitas destas actividades sido premiadas ao longo dos anos pela excelência do trabalho desenvolvido. Por tudo isto a Árvore foi e continua a ser, não só para os portuenses como também para os portugueses em geral, um pólo exemplar de cultura artística e de cidadania por onde passaram, ao longo das últimas décadas, várias gerações de artistas, críticos, escritores, intelectuais, mecenas e coleccionadores que contribuíram para a formação dum vasto público exigente e interessado pelo que por cá se ia fazendo no tocante a obras de arte e a movimentos artísticos de vanguarda, como também pelo apoio que a instituição sempre deu aos artistas mais novos que foram surgindo.

Ângelo de Sousa foi um dos primeiros sócios fundadores da Árvore, mantendo sempre ao longo da sua carreira uma forte afinidade cultural com esta instituição que ajudou a fundar. A exposição Ângelo de Sousa 64-FE-66 patente nas instalações da Árvore e comissariada por Laura Soutinho e pelo filho do artista, Miguel de Sousa, além de ser uma homenagem ao Pintor Ângelo de Sousa, procura sobretudo reconstituir o percurso da obra do artista a partir da sua primeira individual feita na Árvore em Dezembro de 1964 (desenho e pintura) seguida por duas outras individuais realizadas em 65 e 66, a partir de obras cedidas por coleccionadores, destas três exposições.

Escrever sobre Ângelo de Sousa não será tarefa fácil, sobretudo depois de se ver a excelente série de pinturas e desenhos apresentada, e se pensarmos no que nesta exposição há de seminal pela forma constitutiva como algumas destas obras percorrem e antecipam de forma inaugural uma parte substancial da sua outra obra ainda por vir. Nessa perspectiva, esta exposição anuncia, de certa maneira, o porvir duma obra que remete para um futuro anterior, para usar uma expressão de Jacques Derrida, que na sua génese criadora tarda em chegar, uma obra por tal facto prometida e destinada a deixar-se abandonar a um constante deslocamento interno, embora consigamos antever através dela alguns dos traços mais salientes do que virá a acontecer depois. E este “depois” releva já do tempo da obra que se foi fazendo e desfazendo paulatinamente a si mesma, como se ela fosse um “receptáculo” de intensidades orgânicas elementares, um mundo rizomático de pequenas forças visuais expostas na tela como virtualidades materiais na sua aparência insignificantes, mas que revelam claramente o caminho aberto pela pintura e o desenho como se ambos tivessem sido afectados por um estado de graça quase sobrenatural. É esta quase ateologia pictórica de formas naturais imanentes, que constitui no essencial, as figuras e as cores elementares com que Ângelo procura celebrar a alegria dum mundo apolíneo povoado de flores, paisagens, cavalos, árvores, troncos, ramos e raízes mas também de sebes, arcos, volumes e superfícies que indiciam sinais duma arquitectura frágil e primitiva.

Na obra de Ângelo subsiste uma parcela ínfima de adivinhação e hermenêutica oferecida através dum emaranhado de linhas esguias e cheias e de efeitos cromáticos que convertem o acto de pintar e desenhar numa experiência intuitiva singular que apela a uma alegria exuberante feita de ritmos, símbolos, planos e descontinuidades. O título surpreendente da exposição, 64-FE-66, funciona como uma charada muito à maneira de Ângelo, onde a letras F e E do alfabeto, correspondem cada uma aos algarismos seis (F) e cinco (E), formando dessa maneira o número 65, tendo esse sido um dos anos em que decorreu uma das três exposições.

Exposição de Ângelo de Sousa na Árvore

“Ângelo de Sousa 64-FE-66” fica patente até dia 15.

Muitas das pinturas agora expostas revelam, na sua essência elementar, uma multiplicidade de ocorrências cromáticas e figurais confinada a uma territorialidade simbólica errante, onde o ser da pintura coabita num espaço disseminado entre o inumano, o vegetal e o animal. Ângelo é um artista que pinta e desenha o mundo na “quarta pessoa do singular”, uma expressão do poeta americano Ferlinghetti, que serve aqui para designar as singularidades e os acontecimentos que presidem, segundo Deleuze, “à génese dos indivíduos e das pessoas”, como algo de impessoal e de pré-individual”. Não deixa de merecer pertinência, neste contexto, o que escreve Emília Pinto de Almeida no catálogo da exposição: “O importante não é reconstituir o ponto virginal em que tudo começaria, mas, antes, apreender em sobressalto o movimento. De onde a impressão de que interrompemos qualquer coisa, assim que nos acercamos dos trabalhos aqui em questão”.

Um dos aspectos mais relevantes desta exposição é tentar perceber como é que a sua aura passada se pode constituir no tempo dum presente em permanente devir. Os trabalhos de Ângelo agora revisitados revelam-nos a imagem duma árvore criadora de alegria, uma árvore que encontra no corpo da pintura e do desenho o tronco verdadeiro de onde dimana a sábia alegria dum artista cuja obra continua a ser plenamente inactual e imprevisível.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.