12 Out 2011, 20:16

Texto de

Opinião

Um sítio com história

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No Brasília, que trouxe a primeira escada-rolante ao país e que se traduziu numa lufada de ar fresco para o comércio da cidade e para a sociedade portuense, também está o Porto.

Nos dias que correm, ouve-se com inusitada frequência uma pergunta: “Onde está o Porto?”

Isto sucede porque um número crescente de pessoas, que não exclusivamente tripeiros, não (re)descobre na actual paisagem urbana e social a cidade da sua infância.

A última vez que a ouvi foi há cerca de 3 semanas, numa conferência da qual era epígrafe e que foi proferida por César Santos Silva, docente e investigador de história natural e de história do Porto.

Repetindo a pergunta insistentemente, o conferencista ia eliminando respostas, dizendo onde o Porto não está. Por exemplo, não está no porto-estátua, nem na Sé Patriarcal, no São João (o santo popular), tampouco no jardim da Cordoaria ou mesmo no centro histórico, pois dali desertara para Rio Tinto e Ermesinde, nomeadamente.

Foi precisamente essa pergunta que me acudiu à mente a propósito da passagem do 35º aniversário do Centro Comercial Brasília (no passado domingo), edificado nos terrenos que a secular cordoaria Oliveira de Sá acabara de libertar, deslocalizando a produção para a Maia – movimento que viria a definir-se como fundador da nova Zona Industrial da Maia.

Aproprio-me da pergunta que não preciso de repetir para responder positivamente: nesse que foi o primeiro shopping da “Invicta”, que trouxe a primeira escada-rolante ao país, e que se traduziu numa lufada de ar fresco para o comércio da cidade e para a sociedade portuense de então, no Brasília, enfim, também está o Porto.

A memória de um certo Porto, dirão os leitores. Pois sim! Sigamos a memória.

Eu poderia ficar-me pela memória do paladar e evocar o festim que a gelataria onBambi (estará correto?) era para os sentidos; a croissanterie, do recheio de chocolate cremoso, viria bastante mais tarde; ou as visitas à Bertrand, onde me perdia a namorar as lombadas dos livros. Foi lá que descobri José Mauro de Vasconcelos, nas obras “Vamos aquecer o sol” e “O meu pé de laranja lima” – o livro da minha vida.

Poderia, sim, mas trairia a memória. Porque além da discoteca Griffon’s e do pub Don Giovanni, além do cinema Charlot e de “A rapariguinha do shopping”, havia outras âncoras: Lord Kim, a alta moda masculina, como primeiro cartaz voltado para a rotunda da Boavista, piscando o olho aos passantes endinheirados; o restaurante panorâmico e o Brasília Clube – grande salão de festas, nomeadamente jantares-dançantes e concursos de beleza, no âmbito dos quais muitas jovens tiveram ali a sua hora de glória, ao serem eleitas Miss Norte; e a Maconde e a Isabel Queiroz do Vale. Este nome, porventura, uma das referências mais sólidas a evocar neste 35.º aniversário do Brasília.

Pioneira, à frente de uma cadeia de salões de cabeleireiro, por todo o país, Isabel Queiroz do Vale não se limitou à gestão dos salões. Rompendo caminho numa profissão onde até então pontuava o masculino, ela revolucionou a arte de pentear, pela ousadia de estilo e pela inovação técnica, que obrigaram muitos profissionais instalados a “tirar a lama das unhas” e influenciaram muitas das atuais cabeleireiras na escolha do trilho profissional.

Ela introduziu, por exemplo, a secagem do cabelo e acabamentos do penteado sem recurso a escova ou pente, somente com os dedos, competência que muitos profissionais de carreira ainda hoje não dominam, apesar de ser comprovadamente vantajosa para a saúde dos cabelos.

A vasta e jovem equipa que empregava, esmagadoramente feminina e com formação diferenciada, constituía chamariz de visitantes e clientes. Novos conceitos de receção e atendimento distinguiam um mero salão de cabeleireiro do espaço de arte e beleza a que Isabel Queiroz do Vale dera o seu nome, fidelizando clientela e cimentando o respeito da comunidade.

A minha homenagem à mulher e profissional responsável pelo maior pólo de atração e dinamismo do Brasília. O Porto também está ali.

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico

Opinião

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