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12 Fev 2014, 20:05

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Opinião

Um país like e republicano

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Em 2014, uma nação que se preze não tem que ser republicana. Os ideais da carbonária ficam bem a quem os tem, mas outros se lhe sobrepõem, em particular os da democracia. Mas país que se orgulhe do seu estatuto tem que ser like.

Imagem de perfil de Carlos Luís Ramalhão

Nasceu em Manchester, Inglaterra, mas veio crescer à Maia, cidade de origem da família paterna, onde vive. Deambulou pelo jornalismo, mergulhou no argumento e na escrita criativa, passou pela tradução. Estudou Jornalismo e Ciências da Comunicação na Universidade do Porto e Writing for the Media na Bournemouth University, em Inglaterra. Colaborou em diversos projectos culturais, dos livros à fotografia, passando pela música e pelo cinema. É co-autor do livro de contos ''Taxicidade'', editado em 2007, e autor do conto “Antes que venha o Inverno”, publicado como e-book, em 2013. É também formador de escrita criativa e argumento.

Fez 10 anos há alguns dias, o Facebook, a rede social que apanha todos os dias, nas suas malhas de arrastão, peixe miúdo e graúdo; que vive a vida de muita gente e que muitos se divertem a condenar à morte consecutivamente. Tal como os profetas do fim do mundo, esses pessimistas vão enchendo agendas com adiamentos sucessivos.

No início – o meu, quando lá cheguei – eu chamava-lhe “o livro das caras”, como se a tradução literal do nome lhe atribuísse por si só um significado pejorativo. Era maldoso. Queria chamar-lhe “superficial” e “fútil”. Recusei-me a aderir ao seu apelo. Podia ter sido quase primeiro, uma espécie de inovador na importação do fenómeno que povoava já a América como outrora os pioneiros. Por sortes do acaso, estava nos EUA, em 2007, quando o Facebook crescia como uma criança sobrealimentada. Ouvia falar do assunto e desvalorizava. Mais do que isso, desconfiava sem o levar demasiado a sério. Levei anos a lá chegar.

Fui evangelizado pelo desejo de manter o contacto com amigos longínquos. Depressa me apercebi da importância de moderar o consumo desta substância. Vi nos outros a prova irrefutável do vício, não só nas horas passadas diante do seu rosto azul e branco, mas principalmente na importância atribuída a uma ferramenta virtual. Vi relacionamentos desfeitos, discussões exacerbadas, crises de ciúme, inveja, mesquinhez. Vi mesmo algo que considero um fenómeno digno de estudo: a bipolaridade facebookiana – vi nascer palavras – que consiste em comentar e “gostar” do que os nossos “amigos” partilham, e depois virar a cara a esses mesmos “amigos” na rua física, real e verdadeira.

Dias houve – e não foram assim tão poucos – em que quis abandonar este país – mundo, universo – imaginário com consequências demasiado reais. Acabei sempre por voltar. Porque, convenhamos, o Facebook é uma ferramenta predominantemente fútil – lembrando-me do “livro das caras” – mas o seu lado útil é quase tão imponente como a vertente coscuvilheira e superficial que lhe é justamente associada.

Não sou apenas eu a achá-lo útil. Bem pelo contrário. Eu sou uma partícula minúscula, um dente de leão numa tempestade, ao lado daqueles que tiram verdadeiro partido das utilidades do Facebook. O nosso presidente da República é um conhecido adepto desta rede social, arrastando com ele mais de cem mil seguidores. François Hollande, presidente francês e conhecido fanático das scooters, tem quatro vezes esse número. Uma inexistência, comparado com os 38 milhões de fiéis de Barack Obama. Para quê levar os eleitores às urnas? Para quando a eleição dos líderes mundiais baseada na quantidade de seguidores no Facebook?

Eu tenho mais de 500 “amigos” no Facebook. Um tesouro. Conto com eles para o dia em que a minha vida depender de um “like”, de um “share” ou mesmo de uma imagem catita com uma frase inspiradora. Para o resto tenho os outros, os amigos sem aspas, que em muitos casos se fundem mas não se confundem. Enquanto a coisa se mantiver assim, consciente e sóbria, continuarei por lá. Inclusive a partilhar este artigo.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

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