4 Fev 2013, 10:59

Texto de

Opinião

Um Eládio chamado Clímaco

Este Eládio – que significa ''Grego'' – chamado Clímaco vê-se à rasca para sobreviver, o que me faz lembrar um Cavaco chamado Silva e um Américo chamado Amorim.

Há pouco mais de uma semana, fui a um café gozar a falta de trabalho em volta de uma chávena bem contada. Encontrei-me lá com um amigo que andava a gozar a falta de um contrato digno, a aproveitar – espremendo cada bocadinho como fazemos ao azeite e ao óleo para não desperdiçar – agradecido a solidariedade de algumas figuras que aproveitam cada oportunidade para dizer barbaridades. Aliás, como sobreviveríamos se não fosse a solidariedade dessas figuras seniores, sábias, dignas de um louvor e de uma placa com o seu nome a condecorar uma rua bem varrida?

Quando eu era criança, no tempo em que os meus compatriotas mais crescidos viviam à grande e à europeia, sacudindo os bolsos vaidosamente cheios de moedas de Bruxelas, havia um programa na RTP que me entusiasmava os meses de Verão – Jogos sem Fronteiras. Era a forma de quebrar a rotina das noites quentes e chatas, vendo homens e mulheres a cair para dentro de piscinas dentro de umas fatiotas ridículas. Ah, a nostalgia adolescente de avaliar o físico das concorrentes mais jovens. Lembro-me de que a apresentadora francesa – que hoje deve estar perto da reforma – era uma jovem consideravelmente atraente. Mas o que interessava era que a equipa portuguesa ganhasse, principalmente a da Maia, da qual até fazia parte o meu professor de natação. Mas não eram apenas os concorrentes que erguiam a bandeira verde e rubra ao mais alto nível; os nossos apresentadores, a promissora Ana do Carmo – onde anda? – e o experiente Eládio Clímaco, dignificando a causa lusa por esse mundo afora.

O tempo passou. Eis-me longe do rubor facial ingénuo desses dias, o país já não vive à sombra de uma enorme e viçosa couve-de-bruxelas – a couve agora queima-nos os bolsos, já não nos alivia do calor – e o Eládio Clímaco reformou-se.

Estava eu então no café quando o meu amigo me contou o que vira – na mesma RTP dos Jogos sem Fronteiras – uns dias antes. Eládio Clímaco, o senhor que afirma ter feito diretas para “o bem dos espetadores”, relatando a vida triste que leva hoje em dia, os dias passados em cafés mas acima de tudo queixando-se do seu fado enfadado de reformado. Um fado bem engalanado, diga-se. Por outras palavras, a guitarrada mensal de Eládio Clímaco ronda os 2200 euros líquidos, magra compensação por tão condignamente ter levado o país à glória e à fama. É de louvar que o veterano anfitrião da RTP continue a representar Portugal desta forma, mesmo que a recompensa seja tão ingrata. Para ser mais concreto, Eládio representa na perfeição uma característica típica dos portugueses: a mania de que somos todos pobrezinhos.

Este Eládio – o nome significa “Grego” – chamado Clímaco vê-se assim à rasca para sobreviver, o que me faz lembrar um Cavaco chamado Silva e um Américo chamado Amorim, o tal que não é milionário, é trabalhador… Mas este Eládio está solidário com aqueles que ganham “500 euros”. Assim está bem. Isso dá-lhe o direito – indiscutível – de reclamar. Foi sincero. E desonesto. Porque muitos telespetadores que a RTP vai conseguindo manter ganham muito abaixo dos 500 euros cujo patamar parece servir de guia para a solidariedade do Eládio. Alguns – vejam lá – chegam a ganhar zero. Este Eládio devia aproveitar o tempo livre para aprender a tricotar ou jogar à sueca com velhos cuja reforma rende 300 euros e menos por mês.

Já agora, eu gostava mesmo dos Jogos sem Fronteiras apesar do Eládio Clímaco. Sou um ingrato. Não sei valorizar a solidariedade do senhor.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.