3 Jan 2012, 15:23

Texto de

Opinião

Um céu carregado sem boas-abertas

Os meus sonhos para o Ano Novo morreram em 2011. Não porque não reunissem condições de sobrevivência. Sonho é sonho, faz o mundo avançar. Mataram-nos.

“Os sonhos morrem cedo”, como escreveu Harold Robins, na década de 70 do século XX, num romance de título homónimo.

Os meus sonhos para o Ano Novo morreram em 2011. Não porque não reunissem condições de sobrevivência. Sonho é sonho, comanda a vida e faz o mundo avançar. Nem morreram espontaneamente, como sucede à maioria dos fogos do coração. Mataram-nos.

Os meus sonhos de viver um ano 2012 economicamente mais tranquilo, que não me forçasse a cortar num conjunto, já residual, de espetáculos de cultura, a abdicar das sessões de ginástica medicamente recomendadas, enfim, estes sonhos mataram-os a crise financeira instalada, os nossos governantes, a troika, a Direção Geral dos Impostos…

Em 2011, vendi a casa, para escapar às investidas bancárias sobre os processos de crédito e para estancar o pagamento do imposto sobre imóveis. Baixei ligeiramente o meu padrão de vida, para não dever nada a ninguém, mas, antes que eu respirasse de alívio, eis que eles, os algozes do sonho, fazem a taça da crise transbordar, anunciando cortes nas remunerações dos pensionistas. Então, descubro que os sonhos não são para sempre e que o Estado não é pessoa de bem, pois nos subsídios de férias e de Natal dos deputados não se toca.

O ano acaba com anúncios sobre subidas gerais dos preços. Saio de mim e vou auscultar a cidade.

Nas paragens dos autocarros não se fala de outra coisa a não ser nos chineses. Cruzam-se e entrecruzam-se comentários sobre a política do Governo português, que aumentou ignominiosamente o preço da energia para capitalizar a EDP e a entregar bem gorda aos chineses.

A crise esvazia as carteiras, mas enche as bocas, de lamentos e impropérios. Homens e mulheres vaticinam: “Ainda vamos voltar à luz da vela, da candeia ou do lampião!”. Não é descabida de todo tal ideia e penso nela, como alternativa única para tantos portuenses que (sobre)vivem em miseráveis águas-furtadas de edifícios-cadáver, no centro histórico.

Ainda o ano velho anda por aí a despedir-se quando a notícia da nova lei das rendas cai na mesa da ceia. É o golpe de misericórdia para uma população envelhecida, ou mesmo idosa, que muitos senhorios mantêm em degradantes condições de habitação. Diz-me a experiência que até os coxos vão correr a cobrar as novas rendas e a despejar inquilinos com 3 meses de incumprimento.

Esta possibilidade, que a nova lei contemplará, suscita-me a maior apreensão, pois se cortam nas prestações sociais, se sobem as rendas, a energia, etc., as ruas do Porto vão, por certo, encher-se de pessoas sem-abrigo. Começo a pensar que este país também não é para velhos.

Para mim, portanto, 2012 é um céu carregado sem boas-abertas.

Não sei se poderei continuar a aviar as minhas receitas sem sobressaltos de ordem financeira, ou se me verei obrigada a adiar consultas dos dentes e dos olhos. Mas sei que me vão cortar subsídios de férias e de Natal e que só falta taxarem-me os batimentos cardíacos.

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Bode Ranhoso says:

    Parabéns Alice, so com luta isto se resolve,uma luta mas autentica, uma luta de todo o povo massacrado, todos unidos.

Opinião

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