31 Jan 2013, 16:06

Texto de

Opinião

Um bobo chamado José Castelo Branco

Os bobos eram aqueles que animavam a vida dos reis, davam divertimento às massas e partilhavam o gosto pela demonstração pública da parvoíce e da sua própria miséria.

Existem pessoas que não merecem crónicas. Pelo que esta crónica é uma daquelas que nunca pensei escrever, por isso façam o favor de a ler e esquecer. Isto porque no nosso país, no nosso continente, no nosso planeta deambulam pessoas que apenas o são pela aparência física: o que no caso concreto nem se aplica por acaso, não estivesse eu a falar de José Castelo Branco. E é pelo seu grau de histeria, pela desonradez, pela miséria do seu pensamento, que não merece sequer a dignidade das palavras com que escrevo este texto.

Sou, no entanto, por motivos de força maior, obrigado a comentar as recentes afirmações de José Castelo Branco, esse nosso querido bobo da corte nacional, a um sem-abrigo quando esta (uma senhora) lhe pedia dinheiro para comer enquanto ele ia para uma festa de gala.

Por que lhe chamo um bobo? Primeiro pela sua aparição física, as suas vestes exageradas, que era uma das características dos bobos das monarquias. Segundo, porque desde os tempos das suas aparições, estas figuras eram aquelas que animavam a vida dos reis, eram aquelas que davam divertimento às massas, que partilhavam o gosto pela demonstração pública da parvoíce e da sua própria miséria só para os outros se rirem delas. Enfim, eram pessoas que tinham o dote de animar a malta, de fazer rir, quando as suas limitações mentais não davam para mais nada, e eram então recrutados pelo rei como o “funcionário da palhaçada”.

O Sr. (?) José Castelo Branco é um desses bobos que vão entretendo a opinião pública: ora de vez em quando aparece naqueles ridículos reality shows que pelo seu grau de vulgaridade lhes chamo grosseiramente de big brothers por para mim ser tudo a mesma coisa mesmo sabendo que não o são, seja pela sua aparição junto de uma senhora chamada Betty que ninguém sabe ao certo quem é a não ser o facto de dizer algumas coisas em Inglês e gerar alguma suposta credibilidade com isso, seja pelo seu aparecimento em orgias ou então pela sua mais recentemente piedade pela senhora sem-abrigo que lhe pede dinheiro para comer.

E as afirmações de Castelo Branco a esta senhora são de elevado quilate, muito bem intencionadas até. Aliás, fala mesmo em alegorias religiosas – “não deis mendicidade, todos temos dignidade para trabalhar” – fazendo um esforço para se referir aos desígnios de Deus-nosso-Senhor. Mesmo quando a senhora lhe diz imediatamente que tem SIDA e que por isso ninguém lhe dá trabalho, o bobo continua – pulso firme! – “se tem SIDA trabalhe com SIDA que ninguém a vai matar”.

O que o bobo José Castelo Branco talvez não saiba, porque a sua superficialidade não lhe permite compreender, é da discriminação a que se pode chegar por se ser seropositivo neste país e que, mesmo travando muitas lutas das pessoas infectadas e não infectadas no sentido de se combater preconceitos e discriminações vindos de anos e anos, o que é facto é que o estigma no Trabalho é uma realidade presente nestas pessoas, sendo muitas vezes fator de exclusão por razões morais, que em nada comprometem a segurança de quem com eles trabalha ou com quem com eles convive, nem apresentando qualquer relação com as suas vias de transmissão. E, claro, a moral religiosa de Castelo Branco é, infelizmente a de muitos portugueses: “a da dignidade do trabalho”.

Talvez o primeiro a seguir o exemplo de tal declaração seja o próprio Castelo Branco porque até ao momento ainda não se percebeu muito bem qual é, de facto, a sua verdadeira ocupação. Mas gostava que este Sr. ou coisa que o valha se pronunciasse sobre a existência de tantos desempregados em Portugal, mesmo aqueles que não apresentam um quadro de SIDA. Serão todos preguiçosos, parasitas, mal-agradecidos através da pedincha, como o Sr. Castelo Branco quer fazer crer relativamente a esta senhora? Como seria se aparecesse um senhor ou uma senhora sem pernas a pedir-lhe dinheiro enquanto ele ia para a dita festa, ou então um idoso que foi expulso de casa pelos filhos e caiu na solidão das ruas?

Mas o que me impressiona mais no dito vídeo (para verem a proeza basta procurarem no YouTube) é que inicialmente o Sr. Castelo Branco decide dar-lhe 1 euro (que afinal eram 2 euros) e esta, porque a necessidade manda a perna ou, tal como ela própria diz, “vive da rua”, tenta pedir mais, que era provavelmente o que cada um de nós faria se estivesse na situação daquela senhora. E fiquei perplexo quando o valor que a senhora pedia era de apenas 5 euros, ou seja, apenas mais 3 euros do que aquilo que o nosso bobo lhe tinha dado. Pediu pouco, portanto.

A parafernália das vestes daquela criatura, a sua moral, a sua entoação enquanto fala, devia levar a senhora a pedir-lhe no mínimo 50 euros. Mas não, porque o Pobre sabe ser Pobre e em vez disso já se limitava apenas com 5 eurinhos na algibeira. A conversa podia terminar ali, mas não. O Sr. Castelo Branco, sabichão e burrinho ao mesmo tempo, aproveita a oportunidade para debitar um discurso moral sobre o que deve ser o comportamento de um pobre. Porque Castelo Branco quando vê uma câmara fica excitado, deve ser um dos muitos objectos com que satisfaz a sua necessidade de afirmação, gosta de dar nas vistas e de impressionar as multidões.

Poderia ter a oportunidade de se defender a ele próprio, proteger-se da figura triste que estava a fazer e, simplesmente, calar-se. Mas a pouca lucidez e o descaramento é tal que nem disso foi capaz e continuou. Continua com um ar displicente e altivo relativamente a alguém que apenas lhe pede dinheiro para comer, alguém que se rebaixa a uma figura púbica (engano propositado), para tentar gerar compaixão de alguém que muito certamente vale menos do que ela. Talvez aquele comportamento de loucura da Senhora em pedir 5 euros para comer, tenha-lhe gerado, na sua cabecinha de bobo, o perigo eminente de que alguém que pede 5 euros se torne rico de um momento para o outro e é bom que um pobre nunca peça muito, não tenha ele a tentação de andar a comprar roupas caras, a comer em restaurantes de luxo e a levar vida de rico.

Começa depois a falar de que a culpa de ela estar assim “é da Droga”. E este é um tema que me é caro, não porque sou toxicodependente, mas antes porque o objeto Droga me diz muito profissionalmente. E fico particularmente irritado de como ele é utilizado para explicar comportamentos desonestos, irresponsáveis e vis, levando muitas vezes ao descomprometimento comunitário face às pessoas consumidoras ou, citando Castelo Branco a este propósito, “nós não somos responsáveis por isso”.

Eu também não sou responsável pela nossa sociedade criar figuras como José Castelo Branco, não sou responsável que ele vá a uma festa das suas e subjugue uma pessoa que lhe pede dinheiro para comer, quer seja ou não toxicodependente. Talvez o que ele não saiba (alguém lhe tente explicar, por favor) é que a fome não olha caras nem corações, atinge os estômagos por igual, basta que para o efeito apenas estejam vazios.

“Eu gosto muito de si” dizia ele no final da interação com aquela senhora, talvez pela vergonha da sua atitude para com ela ou até nem isso. Eu também gosto muito do meu cão. E também gosto muito da cadela da minha avó, do gato da minha namorada. Quanto ao meu cão, até costumo ir passear com ele, fazer-lhe festas, dar-lhe peluches que ele adora, comprar cookies com que ele delira. Só não lhe dou 5 euros porque ele não entenderia. Prefiro antes encher-lhe a gamela de comida quentinha para que ele se lambuze enquanto a devora e depois me olhe com respeito para que eu repita o ato misericordioso de a voltar a encher quando a fome lhe apertar novamente o estômago.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

  1. Bom artigo. Só há um aspecto importante que, quanto a mim, faltou analisar: apesar da sua conduta ser reprovável, das suas atitudes serem execráveis e moralmente condenáveis, José Castelo Branco é, quanto a mim, alguém com uma inteligência acima da média. Não é qualquer um que, ano após ano, consegue estar sempre nas primeiras páginas das revistas, aparecer constantemente em escândalos e fazer o seu show-off alvo de crónicas de muita qualidade, como é o caso desta. Atentemos nos programas de televisão em que participa e como sempre, sem excepção, consegue ser o centro das atenções. Ele de parvo não tem nada

  2. Paulo Vaz says:

    Este site é o Porto24 ou o Lisboa24 ?

    Se eu quiser aoreciações sobre este tipo de personagens vou para um site de Lisboa.

    No Porto24 devia haver apenas opinião sobre o Porto !

  3. José Nogueira says:

    Concordo inteiramente com o Gil. Parvas são as pessoas que preenchem a sua vida medíocre com estórias à volta de tais personagens. São tão estúpidas que nem têm inteligência suficiente para perceberem isso. E nem sequer imaginam o prazer que dão aos amigos desses parasitas quando se reunem em Lisboa nos restaurantes e bares da moda a gozarem que nem uns pretos (pardon the pun1)com os pobres diabos que desperdiçam grande parte da sua vida a verem lixo televisivo e/ou a lerem revistas “cor-de-rosa”

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