Image de Turistas em ca(u)sa própria

Até houve flash mob para entusiasmar os votantes a escolher o Porto como "Melhor Destino Europeu". Foto: Arq/Miguel Oliveira

19 Fev 2014, 11:00

Texto de

Opinião

Turistas em ca(u)sa própria

,

Letra & Música #004. Não há cego mais cego que um apaixonado. Dito assim, ou com outros floreados, a verdade é que a intensidade da paixão quase nunca nos deixa ver além do desejo, da posse, da conquista…

O Porto conquistou – diz-se e partilha-se com vivas e hurras – o título de “Melhor Destino Europeu 2014”. Conquistou? Bem, esta pequena aldeia com a alma de certos e determinados gauleses quase faz com que o céu lhe caia sobre a cabeça, de tão ceguinhos estarmos (na primeira pessoa do plural, sublinhe-se) pelo amor e paixão à nossa cidade.

Não há ninguém que goste mais do Porto do que eu. Podem até gostar tanto como eu, mas mais do que eu não gostam.

Nem há ninguém que se orgulhe tanto com as nossas pequenas coisas como eu. Pequenas coisas que são enormes, para mim, quando fazem sentido.

Porém, custa-me ganhar um título de “Melhor Destino Europeu” para turistas quando a maior parte dos que votaram (comigo incluído) no “candidato” Porto são… portuenses.

O prémio – o verdadeiro prémio! – foi perceber que, quando nos juntamos, somos imbatíveis.

A verdade é que o estatuto é atribuído por uma publicação (não menorizo o título nem o promotor, confesso) cujos critérios “mui liberais” da votação permitiram que nos juntássemos todos, em catadupa, massivamente, com o orgulho embandeirado e a força cujo segredo só nós conhecemos – foi o druida Panoramix que o desvendou em “Asterix & Viriato em Portus Cale” (hei-de conseguir escrever o argumento disto, hei-de).

Assim, e motivados por tudo e por todos, muitos portuenses, cada um muito mais do que uma vez, foram à net votar no melhor destino europeu para turistas: a sua própria cidade!

Eu acho que já perceberam o meu ponto. O que nós fizemos foi uma bela de uma batota, justificada pela “mui nobre” e genuína capacidade de nos transformarmos, um a um, em pedra bruta, sólida e invicta da Muralha Fernandina.

E isto é bonito. É lindo, é belo, é força e é Porto. Mas é batota. Bem, até pode dizer-se que não é batota porque os belgas também podiam ter votado em Brugges, os espanhóis em Madrid e os catalães em Barcelona, os italianos em Florença ou Veneza e até os suíços numa qualquer gruta dos Alpes, nem que para isso comprassem os votos dos emigras que lá não querem.

Foi mui nobre, mas não foi mui leal. E a nobreza do Porto sem a lealdade para com os seus próprios princípios é uma coisa que me incomoda.

Incomoda e muito, mesmo que essa lealdade não seja susceptível do mais rápido e eficaz marketing turístico. Mesmo que essa lealdade não seja compatível com o conceito de “mais valem 15 minutos de fama”.

Mesmo que essa lealdade não sirva os propósitos de políticos de algibeira (ou de mão estendida, escolham!).

Mesmo que essa lealdade não sirva as folhas de Excel para ferramenta dos agentes turísticos no terreno, cujas soluções começam a ser iguais para todos os territórios… diferentes.

Uma vitória – ou a sensação dela – entre gentes que se orgulham de vencer contra ventos e centralismos tem que ser leal para assumir-se como nobre.

E não fomos leais. Não fomos leais para com aqueles que votaram nos destinos turísticos que não eram as suas próprias cidades. E isso – nem que isso seja só uma sensação minha – não me faz vencedor de nada.

Não servirá, também, como cortina de embelezamento, que irá tapar as realidades anacrónicas de uma cidade que, institucionalmente, quase nada fez para ter o turismo que tem?

Foram, até agora, as suas gentes, as poupanças privadas e uma vontade muito própria de dar a “volta a isto” que transformaram o Porto num destino turístico. Isso e a “sorte” da presença companhias aéreas low cost.

Sim, confesso que é belíssimo ver-nos felizes, pois não conheço orgulho que brilhe tanto nos olhos como o nosso. Mas há tanto para ser feito, tanto para fazer e assegurar até um dia sermos, de facto, a escolha dos turistas e não a de nós próprios.

Creio que não ganhámos nada de muito relevante com esse título de “Melhor Destino” para turistas. O que fizemos foi um manifesto de boas-vindas. Votámos na ideia de que os recebemos bem e que nos amamos, a nós próprios, por isso mesmo. Já para não falar da vontade e da necessidade de ver entrar divisas pelas “fronteiras” mais a Norte…

Para inspiração:

The Flaming Lips – Racing for the prize

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.