Image de Transportes Públicos nas mãos de privados: pagamos nós.

Foto: Arq/Miguel Oliveira

19 Jul 2014, 11:05

Texto de

Opinião

Transportes Públicos nas mãos de privados: pagamos nós.

, , , , ,

Agora a bola está no campo da Câmara. Esperemos que Rui Moreira e Manuel Pizarro mantenham o interesse público no centro das decisões sobre os transportes públicos e não o interesse privado. Esse já sabemos o que quer.

Imagem de perfil de Zona Jota

O P24 decidiu abrir as suas páginas à opinião dos líderes das juventudes partidárias do Porto. Porque gostamos de futuro, porque temos a cidade como projecto e devoção, porque acreditamos que o P24 é o de encontro para o debate dos assuntos que importam à comunidade, este é agora também o espaço para ao juniores da política apresentarem argumentos.

A vontade de prosseguir na progressiva privatização dos serviços públicos de transportes no Porto não é nova, mas este Governo tem sido claro sobre a sua pressa. O começo do processo para a concessão dos STCP e de uma nova concessão para o Metro do Porto quer o Governo já em Julho, para fechar o assunto em Dezembro.

Antes de mais, é preciso perceber a importância que os transportes públicos têm na organização das cidades, em todas as suas vertentes. É o meio que possibilita a circulação de pessoas, entre casa e emprego e o acesso aos serviços básicos como hospitais, finanças, segurança social, correios. É a pedra basilar da mobilidade da cidade.

Daí, não será estranho admitir que, devido à sua importância, a necessidade de impor regras quer em termos de tarifário quer em termos da sua rede é muito importante. O Porto é uma cidade bastante assimétrica. É então necessário ter em conta que embora algumas linhas possam não ser muito rentáveis, são essenciais para combater essas assimetrias causadas por processos de gentrificação. Estes processos esvaziam o centro da cidade e empurram cada vez mais para fora as pessoas e famílias que não conseguem comportar os valores elevados de arrendamentos que a especulação imobiliária causa.

Os efeitos da concessão do Metro do Porto são mais que conhecidos, portanto focar-me-ia no que temos assistido nos últimos anos, com mais força nestes dois últimos anos, relativamente à STCP: o despedimento de pessoas, a precarização dos contratos de trabalho, cortes de linhas. Este processo tem posto em cima dos trabalhadores e trabalhadoras dos STCP um peso enorme, obrigando muitas vezes motoristas a fazerem mais horas do que suposto só para que uma linha se mantenha em funcionamento. Esta desvalorização é mais que notável para quem ande de autocarro: os sucessivos atrasos, autocarros que não passam, autocarros que não param porque já vêm cheios devido às anteriores razões.

Este evoluir de estado na STCP não foi por obra e graça duma entidade divina, mas sim para tornar o serviço mais rentável para este processo de concessão exactamente. Diziam que não, mas cá estamos. O Secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, afirma que não haverá subida de tarifas. Se for para haver, duvido que diga, mas de qualquer maneira, a subida de tarifas tem sido em flecha nos últimos anos. O Presidente da Câmara do Porto (CMP), Rui Moreira, na anterior Assembleia Municipal não se mostrou preocupado com esta questão porque a CMP terá de ser consultada devido à gestão dos corredores BUS pertencerem ao município. Adicionalmente, disse que a bola estava no campo do Governo. Bem, agora ela está no campo da Câmara e é tempo de decisões. Resta saber o que Rui Moreira e Manuel Pizarro vão decidir, mas já se adivinha. Esperemos que a decisão seja por manter o interesse público no centro das decisões sobre os transportes públicos e não o interesse privado. Esse já sabemos o que quer.

Nuno MonizEste artigo é assinado por Nuno Moniz. Nascido no meio do Atlântico, na ilha do Faial, Açores, mudou a morada para Porto para frequentar o ensino superior. Desde a licenciatura e mestrado em Engenharia Informática no Instituto Superior de Engenharia do Porto entretanto passaram 9 anos. Bolseiro FCT, é doutorando na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto desde 2013, em Ciência de Computadores. Membro da Coordenadora Concelhia e da Distrital do Porto do Bloco de Esquerda.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.