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Foto: Arq/Carlos Romão

7 Out 2015, 17:47

Texto de

Opinião

Todo o ruído

Há todo este estrondo, um rumor prolongado que ecoa, reverbera e permanece em volume aumentado, que distorce e parece um zumbido permanente. Há todo este ruído, nas ruas, nas paredes, na buzina dos carros, no metro, no autocarro, na peixaria, no talho, nos jornais, no silêncio da casa. Deve ser porque as nossas mentes estão poluídas de alvoroço: de eleições, refugiados, medos, dúvidas e incertezas.

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Já éramos vizinhos de Bairro, agora pusemo-nos a misturar a paixão pela cidade com o amor aos livros e às palavras. E já criámos novos roteiros para os nossos leitores num Porto cheio de livrarias e afectos. Todas as semanas, os bairristas encontram as deliciosas colunas de opinião dos escritores Vanessa Rodrigues, Jorge Palinhos, Marisa Oliveira e Rui Manuel Amaral – os nossos cronistas de Bairro – no Porto24. Sempre à quarta-feira, o vosso Bairro dos Livros no nosso Porto24. Boas leituras!

Há os e-mails para ler, as mensagens de Facebook, os telefonemas não atendidos, as notificações de notícias, as pendências no caderno, os pop-ups de mensagens por responder. As imagens rápidas de uma realidade que acontece na televisão cortam da desigualdade social para o anúncio de automóvel sexy, do mega desconto do supermercado para o champô que promete revolucionar o couro cabeludo dos desprovidos de fios de cabelo.

Há todo este bulício intersticial que acontece, imposto, contundente, cortante, violento, antisséptico. Um estardalhaço que nos esfrangalha a capacidade de pensar. Este fragor sensorial que nos higieniza. Que não me deixa, sequer, inventar personagens para esta crónica, porque me oferece uma miríade de vidas reais com estórias que parecem inventadas.

Por exemplo, há todo este zunzum de festa psicadélica que entorpece quando leio sobre Alfred Postell, o sem-abrigo com diploma de Harvard, que acabou na rua vencido pela esquizofrenia, conta o Washington Post. Se calhar a culpa foi de todo este estrondo que nos endoidece. A história dele recorda-me a de um outro sem-abrigo, que diziam ter sido um diplomata francês, que vagueou, durante longo tempo, pela Praça da República, no Porto, há um par de anos. Arrastava-se, com um barba generosa, de esconder faces, de tornar um homem espectador da sua vida, como se habitasse outro corpo.

Tantas são as voltas retorcidas, as vontades vencidas, o rasgo de solidão, desespero e dimensão mental que, de repente, nos levam a transpor a fronteira entre algo e o nada. Entre a dimensão de uma vida que parece destinada à correnteza de um sufoco. Ténue é a fronteira da impermanência, da vulnerabilidade, deste texto e das mãos vazias. Ténue e enredada pode ser a invisível barreira de um surto psicótico, de um esgotamento nervoso, de uma afamada depressão, de um esquecimento, até de como é o barulho das coisas ao cair. Lembrem-me, por favor, de inventar um personagem que colecione sons sem endoidecer, que tal como japim imite os sons à sua volta, e que seja capaz de reproduzir o silêncio. Já imaginaram todo o silêncio?

Vanessa Ribeiro RodriguesVanessa Ribeiro Rodrigues é jornalista, escritora, documentarista, viajante. Nasceu no Porto, morou no Brasil e na Jordânia. O que lhe importa é reinventar a cor da linguagem, caçar histórias. É autora do livro “O Barulho do Tempo” e tem vários contos e poemas publicados em revistas literárias.

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.