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Foto: Arq/Dário Passos

2 Mar 2014, 15:06

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Opinião

À tarde, no museu

Às vezes, saímos de casa convencidos de um destino e acabamos destinados a um outro lugar. Ou lugares, porque o caminho é uma pluralidade de opções, as setas confundem-se, trocam-nos os olhos.

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Nasceu em Manchester, Inglaterra, mas veio crescer à Maia, cidade de origem da família paterna, onde vive. Deambulou pelo jornalismo, mergulhou no argumento e na escrita criativa, passou pela tradução. Estudou Jornalismo e Ciências da Comunicação na Universidade do Porto e Writing for the Media na Bournemouth University, em Inglaterra. Colaborou em diversos projectos culturais, dos livros à fotografia, passando pela música e pelo cinema. É co-autor do livro de contos ''Taxicidade'', editado em 2007, e autor do conto “Antes que venha o Inverno”, publicado como e-book, em 2013. É também formador de escrita criativa e argumento.

Naquele dia, a função era aborrecida, o alvo no mapa era o Hospital de Santo António, uma consulta de rotina que não era para mim, mas que exigia os meus serviços de motorista. O carro levou-me, deixei-me levar. Uma dormência típica das rotinas – embora de facto não se tratasse de uma tarefa rotineira – toldava-me a vista, mas vá lá, tinha de ser.

O tempo de espera iria ser passado numa sala de janelas com vistas baças, para um prédio cinzento, da cor do céu. O entretenimento seria da responsabilidade da bisbilhotice, aproveitando conversas paralelas, compiladas em remixes úteis para quem gosta de construir personagens. Em alternativa, a televisão a preto e cor-de-rosa choque, a futilidade dos programas vespertinos, as vozes agudas, algumas delas num contínuo que começa logo ao acordar, os descomentários à atualidade. Para quê castigar-me desta forma?

O carro dormia a sesta no escurinho do estacionamento que sorria, satisfeito, enquanto contava os trocos que nos iria buscar ao bolso. O avançar dos séculos permite que existam telemóveis – por vezes mais do que um – à mão de todos.

Em frente a um dos edifícios mais recentes – menos interessantes – do Hospital de Santo António do Porto, existe um outro prédio, uma fachada rosada, de uma discrição que me surpreende por ser contranatura. Não se trata apenas de um museu; é um museu nacional, batizado em memória de Soares dos Reis, um dos maiores artistas plásticos que este país conheceu e dos poucos que reconheceu. É bom que dê nas vistas.

Atravessei a rua, confortado pela presença de um livro na mochila e pela previsão de ter tempo para lhe folhear umas páginas. Não era o momento certo para fazer uma visita completa ao museu, seria triste interromper o passeio de forma abrupta porque um telefonema chamava por mim. Pedi à simpática senhora atrás do balcão que me indicasse a cafetaria. Passei pela loja do museu, ignorando a pouca azáfama, as prateleiras modestas, o desinteresse da funcionária.

Eis-me portanto na cafetaria do Museu Nacional Soares dos Reis. Primeira impressão: estaria eu confundido pela coincidência dos nomes? Eu sei que existe uma Escola Soares dos Reis, a mais artística das secundárias tripeiras, achar-me-ia eu, por engano, na cantina da dita cuja? A vista tirou-me as dúvidas mas não a desilusão. Lá fora, o jardim lamentava o dia triste e chuvoso, mas apresentava-se arranjadinho, belo na sua espécie de decadência que alguns utilizam como desculpa para deixar a cidade cair.

Sentei-me, esforçando o pescoço para que, em vez da cantina, observasse os azulejos e a fonte lá fora. Aceitam-se as cadeiras de ferro, pesadas como o bronze que Soares dos Reis transformou n’O Desterrado. Abri o livro, enquanto saboreava o café (não vislumbrei grandes opções, não quer dizer que não as haja). Passaram-se alguns minutos de qualidade. Poucos. Não me lembro se havia música, tenho ideia de uma rádio daquelas que nos abrem as orelhas e nos enfiam pelo canal auditivo as canções acabadas de sair da fábrica. De qualquer forma, sobrepondo-se-lhe, foi o ruído de loiça martelando nos balcões, portas a bater, gestos bruscos, uma violência alienígena num sítio daqueles, que me amputou a espera prazenteira, fazendo com que me fosse embora antes mesmo de ser chamado.

Apesar da chuva, preferi avançar um pouco e passear pelos jardins do Palácio de Cristal, à procura de vestígios do que um dia deve ter sido grande e agora é uma carapaça gigante e com buracos no telhado. Ainda assim, sem pratos nem copos a martelar-me os ouvidos.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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