2 Jun 2011, 14:41

Texto de

Opinião

Somos todos pepinos espanhóis

A Espanha fica vermelha de irritação como um pimento e pede indemnizações milionárias. Todos nós olhamos parvos para a situação, mesmo entre o ruído da campanha.

Ilustração de Sofia de Eça

Ilustração de Sofia de Eça

No fim-de-semana evitei deslocar-me ao centro do Porto. E havia vários motivos para o fazer: a feira do livro, a música ao vivo pela cidade, o mercado das pulgas na Cooperativa Árvore, o FITEI, as 40 horas de Serralves… Acabei por desistir porque os motivos para não o fazer eram mais fortes: almoço-festa e comício do PS, arruada e comício do PSD na marginal de Gaia, visita a Serralves e almoço do BE, arruada do PCP (e decerto haveria qualquer atividade do CDS)…

Acabei por ir ao cinema (que como se sabe quase só existe fora da cidade) ver o Banksy, filme sobre o mais conhecido de todos os artistas de rua, embora seja completamente desconhecido pois a sua identidade não foi ainda revelada.

Denominado em Portugal “Banksy: Pinta a parede!”, mais uma peculiar tradução, o documentário mostra até que ponto a street art entrou pelas galerias e pelos museus adentro – aliás por isso o nome original é “Exit through the gift shop” ou “A saída é pela loja das prendas”, o que acontece em qualquer museu “moderno”.

Claro que estando afundado numa campanha eleitoral ruidosa o que me lembrei durante o filme foi das pinturas que o PCP fez nas escadas de Coimbra, dos pintores do MRPP impedidos pela PSP de pintar um mural em Lisboa e identificados, das guerras da Câmara do Porto com o PCP e a CGTP por causa dos murais e das pichagens… Curiosamente, a mesma autarquia que decidiu espalhar pela cidade stencils, nas passadeiras, com o alerta “316 vítimas de atropelamento no Porto em 2009”.

Na casuística e ruidosa campanha portuguesa não só não se falou no memorando da troika (ou triunvirato), também não se falou da crise dos pepinos. E creio que se poderia ter falado da crise dos pepinos entre o “FMI vota em mim” e a compra de bonés nas feiras e as sardinhas e os bailaricos.

Já morreram pelo menos 16 pessoas por causa da bactéria E.coli que, segundo o governo alemão disse desde o início, teria origem nos pepinos espanhóis. O governo regional de Hamburgo e o de Merkell desde logo agiram e impediram a importação de frescos espanhóis (vegetais e gambas).

A União Europeia foi, de novo, atrás da Alemanha. E agora, 6 dias depois, o tal governo regional e o alemão descobriram que os pepinos espanhóis não estavam contaminados… sim, leram bem não estavam contaminados. A Espanha fica vermelha de irritação como um pimento e pede indemnizações milionárias. Todos nós olhamos parvos para a situação, mesmo entre o ruído da campanha.

Claro que estando afundado numa campanha eleitoral apetece dizer: “quero votar na Alemanha”. Sabem por quê? Porque a Alemanha já fez saber que aprovará as ajudas compensatórias da UE a Espanha. Leram bem, “da UE”.

Filinto Melo escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

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