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13 Jun 2016, 10:54

Texto de

Opinião

A sociedade do desconhecimento

Uma análise atenta da realidade social atual permite facilmente constatar a não adesão desse refrão do Conhecimento à realidade concreta. À Sociedade do Conhecimento proponho antes a sua antítese, a Sociedade do Desconhecimento.

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Simão Mata é psicólogo, mestre em Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça pela Universidade do Porto e estudante de doutoramento em Psicologia na mesma instituição. Os seus interesses profissionais e de investigação situam-se entre o fenómeno droga, a marginalidade urbana e a exclusão social. Vive na Maia, mas passa a grande parte do seu quotidiano no Porto. Gosta de cultivar uma atitude “flâneur” pela cidade, palmilhando becos, ruas e avenidas. Por vezes, tem a mania que é poeta e aparece mascarado com o pseudónimo “Pedro da Silva”.

Vivemos, dizem alguns, na Sociedade do Conhecimento. Trata-se de uma expressão que ouvimos recorrentemente nos Jornais, nos Telejornais e na Rádio por parte de alguns agentes políticos, económicos e académicos. Para eles, tudo parece estar ligado ao Conhecimento: nas Escolas, nas Empresas, nas Universidades, nas Famílias, na Saúde, na Doença… Mas uma análise atenta da realidade social atual permite facilmente constatar a não adesão desse refrão do Conhecimento à realidade concreta. À Sociedade do Conhecimento proponho antes a sua antítese, a Sociedade do Desconhecimento.

Em tempos de exacerbação desenfreada dos meios tecnológicos e virtuais e num mundo www cada vez mais hegemónico, com a disponibilização praticamente ilimitada de conteúdos informativos, assistimos a um tremendo empobrecimento cognitivo, cívico, moral e ético nas Sociedades Contemporâneas. Se existisse alguma relação entre Conhecimento e transformação da realidade porque razão ainda não conseguimos atenuar os problemas nas Escolas, nas Empresas, nas Universidades com tanta informação que, nos dias de hoje, nos é disponibilizada? Algo de muito estranho se esconde então nessa Sociedade que muitos apelidam de Conhecimento mas que apenas nos inculca uma parafernália de conteúdos informativos desinformatizantes, desinteressantes e pífios.

Os psicólogos demonstraram, há já algum tempo, a importância da componente reflexiva dos conteúdos informativos para a aprendizagem. Mas a informação que nos é disponibilizada a toda a hora e momento é fragmentada, aparece e desaparece quase ao mesmo tempo nas redes sociais, não permitindo a formação de uma narratividade interior nos indivíduos e uma consequente transformação social e política da realidade. Perante esta “informação relâmpago”, qual o espaço para a reflexividade e maturação cognitiva dos conteúdos informativos? Ou pensaremos nós, nos recantos da nossa ignorância e ingenuinidade, que os likes do facebook sobre alguma notícia ou os comentários num post de um jornal online traduzem a nossa consciência sobre o que estámos a ler? Ao empobrecimento cognitivo e reflexivo dos indivíduos desta Sociedade do Desconhecimento associa-se também uma necessidade de absorção compulsiva e consumista da informação, tendo como consequência a impossibilidade de nos situarmos de forma clara no tempo e no espaço. E isto torna-nos reféns do imediatismo informativo que tudo consome e que, acima de tudo, nos consome a nós próprios.

Opinião

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