Image de Sismógrafo

"Self-service", de Fernando J. Ribeiro, foi a primeira exposição que a galeria Sismógrafo recebeu. Foto: Carlos Azeredo Mesquita

28 Fev 2014, 8:55

Texto de

Opinião

Sismógrafo

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Praça dos Poveiros, 56, 1.º andar, Porto

“Dizem que os elefantes têm sismógrafos nas patas” e sendo isso verdade, bem poderia servir de mote para dar a conhecer a nova galeria Sismógrafo situada no coração da baixa portuense e afastada do “Soho” agitado da Miguel Bombarda. Esta galeria nasce da associação de treze pessoas provenientes de diferentes áreas profissionais (artistas plásticos, designers, músicos, livreiros, fotógrafos, médicos investigadores e curadores) que apostaram numa programação ecléctica exigente vocacionada para acolher no seu seio eventos e projectos que promovam a reflexão e o debate em torno de problemáticas respeitantes às sociedades actuais. A criação artística contemporânea e o modo de pensar a cultura (urbana), tomada esta numa acepção ampla, que engloba uma multiplicidade de experiências criativas e intelectuais, encontram neste singular espaço sísmico do Porto o seu território de incubação.

Segundo as palavras de um dos fundadores e dinamizadores do projecto galerístico, Óscar Faria, curador e crítico de arte, o Sismógrafo pode ser descrito como um “espaço que promove a reflexão, mas que também procura detectar e registar sinais premonitórios dum presente em crise, um pouco à maneira do que fizeram Aby Warburg e Walter Benjamin” ao procurarem captar os movimentos e as ondas de choque invisíveis oriundos das profundezas físicas e psíquicas da arte e da história da cultura. Nesse sentido, o Sismógrafo procura detectar os sintomas que afectam a vida cultural das sociedades actuais em que passado, presente e futuro se misturam, separam e propagam de forma inesperada e disruptiva. O sismógrafo enquanto aparelho técnico capaz de registar e avaliar os mais pequenos movimentos subterrâneos invisíveis do que se passa nas profundezas da terra serve, neste caso, como termo de comparação para que se possa entender simbolicamente os sinais das crises e das catástrofes devastadores que ameaçam o homem, a cultura e a própria civilização.

Os eventos levados a cabo por esta galeria-associação, sem fins lucrativos nem apoios oficiais, podem resultar, nalguns casos, duma simples acção que se pode prolongar “ao longo de dois dias, à volta de uma mesa, onde serão propostos textos que podem nascer de uma página ou de uma voz”. Foi isso o que de facto aconteceu na sexta-feira e no sábado da semana passada, a partir duma curiosa proposta do artista Thierry Simões (Paris, 1968) que consistiu na oferta dum aquecedor e de luz eléctrica em troca de palavras e ideias intempestivas. Algumas dezenas de pessoas, na sua maioria jovens, reuniram-se então numa das salas da associação para assistirem à leitura de poemas e textos de vários autores consagrados como Lewis Carroll, Cesariny, Francis Ponge, Apollinaire, Camões, Raymond Roussell, Duchamp, William Beckford ou Kropotkin. A recém-criada galeria, além desta acção de cariz mais poético e performático, conta ainda com a realização de exposições, estando a próxima agendada para o dia 8 de Março, do artista plástico Sebastião Resende.

A música é igualmente uma das prioridades programáticas do colectivo, sendo por isso que esta sexta-feira, pelas 22 horas, se realizará no Sismógrafo um concerto de música experimental de Tetuzi Akiyama (Tóquio, 1964), um importante músico e performer japonês que actuou no consagrado “Café Oto”, em Londres, um espaço de referência na música experimental contemporânea, tendo também o conhecido músico nipónico tocado no Porto em 2000. Ficamos entretanto a aguardar por novos eventos “sismológicos”, tendo alguns deles, pelo menos, ficado hoje aqui registados.

Opinião

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