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Foto: André Rubim Rangel

13 Set 2017, 12:06

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Opinião

O simbolismo do 13 na vida de D. António Francisco

Como alguém escrevia hoje, não perdemos um bom amigo, porque os amigos – os que são realmente amigos bons – não se perdem: perpetuam-se em nós pelas vias da memória e pelas veias do coração. D. António Francisco dos Santos é, indubitavelmente, esse sempre e belo ‘bom amigo’ e ‘amigo bom’ que ganhamos e que milhares e milhares de pessoas tiveram, inclusive eu. Graças a Deus, também eu que tanto convivi com ele – até por inerência das funções que exerço – e que privei da sua amizade distinta e, essencialmente, distinguida pela tríade da sua generosidade, proximidade e simplicidade. Morreu no dia 11, dia litúrgico de São Pafúncio, e é sepultado neste 13, dia de São João Crisóstomo: curiosamente, dois bispos (falecidos nos séculos IV e V, respetivamente) que intercedem agora pelo nosso Bispo e, também, o conduzem ao Pai. Mais um Anjo no Céu, para nos guiar. E com a luz do seu ser e olhar, integra a constelação como sua nova estrela, no intenso do seu brilhar!

Imagem de perfil de André Rubim Rangel

André Rubim Rangel é “tripeiro de gema” (cidade e clube). Licenciou-se em Teologia, tem curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” e é mestre em Ciências da Comunicação (ramo Jornalismo). Além de jornalista é professor profissionalizado contratado. Trabalha no semanário ‘Voz Portucalense’ (repórter e redator). Dirigiu alguns órgãos: o ‘JornalVERIS’ (que fundou e administrou), a revista ‘Espaço Solidário’ (co-fundou, além de diretor de Informação da ODPS); o marketing da revista ‘A Folha dos Valentes’ (e seu redator); e o ‘Jornal da P@z’. Como colunista e repórter voluntário, escreveu regularmente: no jornal ‘O Primeiro de Janeiro’; no semanário ‘Grande Porto’; no jornal ‘Diário do Minho’; e no jornal ‘Gazeta do Planalto e Região’ (S.Paulo, Brasil). É, ainda, presidente da Associação para o Diálogo Multicultural (ADM) e membro dos órgãos sociais da Associação Alma Mater Artis. Foi e é dinamizador e moderador de largas dezenas de debates e conferências de cariz geral, entre outros eventos. Em termos pessoais, é colecionador e amante de presépios, entre outros hobbies.

Destaco, de facto, a sua amizade porque falar dele é, em parte, falar também de mim nele e com ele, que fazia parte da minha vida (sobretudo profissional e eclesial). É falar daquilo que me é relevante, mesmo que não o seja para algum dos leitores. Que me perdoe / perdoem, por isso. Importa-me, portanto, dizer que – tal como todo e qualquer bom amigo deve ser –, ele mais do que me ouvir, escutou-me; ele ajudou-me quando, em verdade, precisei (e que só ele, ou ele melhor que ninguém, o poderia conseguir!); e confidenciou-me, como eu a ele, algumas das nossas preocupações conjuntas, inerentes ao nosso jornal diocesano, à vida docente (ainda no sábado veio ter comigo a perguntar-me se eu tinha concorrido, se já estava colocado e em que escola, etc.) e à Igreja do Porto. Sempre tão atento e tão atencioso. Meu Deus, como é possível, partir já e deixar-nos de coração partido? Ele era assim, tanto assim, para todos sem fim!

A propósito da foto escolhida para encabeçar esta crónica, devo apontar que, por um lado, não foi nada fácil seleccionar uma entre as mais de 500 que tirei em vários momentos e reportagens que fiz a D. António e com ele, por serem muitas; e que, por outro, até foi fácil, visto que entre essas tantas há algumas dezenas que ele dá-se para a foto, em que a foto verdadeiramente transmite e traduz aquilo que ele é, na sua plena expressão. E esta é uma dessas fotos, que lhe tirei precisamente há quatro meses: no dia 13 de maio de 2017, em Fátima, na visita apostólica do Papa Francisco a Portugal. Nada é por acaso e o 13, com toda a sua carga simbólica e virtuosa, também não!

Passemos então à reflexão principal e diferente do que já foi escrito nestes três dias, que queria aqui registar e com o qual se prende e apreende do título em questão.

Pela razão humana julgamos ser coincidência as exéquias de D. António Francisco se realizarem hoje, o dia 13 deste mês; todavia, na fé divina estamos perante uma evidência espiritual! Uma lógica centrada na espiritualidade profundamente mariana deste prelado.

Ou seja, 13 é o dia de N.ª Sr.ª de Fátima; 13 é o número trinitário – como lhe chamava a Irmã Lúcia –porque junta o 1, de um só Deus, com o 3, das três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) que formam um só Deus. À luz desta aceção conceitual, como que adaptaria aqui uma outra significância do número em questão: o 1 representante de D. António, um entre nós, um de todos, com todos e para todos, ele que se dava por todo a tudo e a todos; e o 3, das três dioceses em que serviu no episcopado: Braga, Aveiro e Porto, todas elas em comunhão fraterna, tanto a nível religioso como a nível civil e autárquico. Prova disso, como já tem sido noticiado, foram os dois a três dias de luto municipal em mais de metade dos 26 municípios que compõe estas três dioceses. E sem esquecer, efetivamente, que o 1 com o 3 simboliza ainda o número de anos em que D. António foi o bispo diocesano deste Porto diocese com 477 paróquias e demais comunidades e institutos, com mais de dois milhões de habitantes, como ele gostava de referir e relembrar (ainda o fez na sua última homilia, de ato público, no sábado passado). Por tudo isto, no final da celebração fúnebre esta tarde na Catedral do Porto, igreja-mãe da diocese, serão colocadas 13 coroas de flores junto ao túmulo de D. António, na capela de S. Vicente (na cripta), onde será enterrado.

UMA DAS DUAS ÚLTIMAS ENTREVISTAS
Tanto eu – enquanto jornalista do jornal oficial da diocese – como a Agência Ecclesia, fomos os que beneficiamos das duas últimas entrevistas concedidas por D. António Francisco na antevéspera do seu falecimento. Dada a pertinência, a circunstância da mesma e o contexto envolto, partilho aqui essas palavras que o Bispo do Porto me deixou (hoje também publicadas na edição semanal da VP), numa análise à peregrinação diocesana do Porto a Fátima, realizada no sábado dia 9. Que elas possam ecoar, junto de tantas outras mensagens incisivas que D. António foi pronunciando, ao longo deste tempo e em tantos espaços.

“É um testemunho muito belo esta peregrinação da diocese do Porto a Fátima. Viemos agradecer a visita da imagem Peregrina à nossa diocese durante o ano 2016, viemos celebrar o centenário das aparições de Fátima, viemos iniciar o ano pastoral 2017/8 neste dia da dedicação da igreja-catedral. Esta presença tão numerosa numa assembleia tão participativa, de dezenas de milhares de diocesanas e diocesanos do Porto e da presença de mais de 200 sacerdotes e diáconos, testemunha a alegria da mobilização desta Igreja diocesana, o espírito filial e mariano que nos anima e também a capacidade de renovação de que somos capazes. Vamos, assim, começar um ano pastoral movidos pelo amor de Deus, sob o olhar terno de Maria. Quero agradecer a Deus o dom desta peregrinação e, sobretudo, o dom da amada Igreja do Porto”.

UM REPTO À IGREJA PORTUCALENSE
Para fazer perdurar a memória e homenagem a D. António Francisco dos Santos, proponho aos bispos auxiliares do Porto, aos conselhos presbiteral e de pastoral, às paróquias, às congregações, aos grupos e movimentos, às instituições eclesiais e demais fiéis que, doravante – em 2018 e nos anos seguintes –, fixemos o sábado seguinte ao dia 9 de setembro para se manter e concretizar a peregrinação diocesana da diocese do Porto a Fátima, como foi enorme desejo de D. António – na expressão sentida e vivida da sua imensa alegria – e que, certamente, seria sua vontade em repetir, como me deu a entender na conversa que tivemos sábado, após a entrevista que me conceder para a reportagem desse acontecimento tão importante. Entendo que esta poderá ser das melhores homenagens que podemos dedicar a D. António e entregar a sua vida e obra aos pés da Virgem de Fátima em peregrinação anual, inspirados pela sua ação e compaixão.

Aliás, atestando esta proposta concreta aqui lançada, não esqueçamos jamais o desafio que D. António deixou, proferido no final dessa eucaristia no recinto do santuário de Fátima perante cerca de 80-90 mil fiéis:
“Continuemos esta peregrinação entre este chão sagrado que nos acolhe e este céu abençoado que nos envolve. Que esta peregrinação seja sempre uma bênção para a Igreja do Porto”.

Termino esta crónica súbita, de forma inconclusiva – já que consciente do tanto que faltou dizer e escrever sobre D. António, mas que irá sendo depois continuamente escrito e lembrado –, trazendo à tona aquela oração que o Bispo “bom e santo”, como tantos já lhe tem definido, tanto gostava e tanto rezava. Aprendeu-a em criança, com sua mãe; ele que agora rezará esta mesma oração novamente com ela, na corte celestial que o recebe, com “o olhar terno e o manto materno de Maria” (como tantas vezes se exprimia). Assim rezava ele e assim rezaremos nós, juntando-nos à sua voz:
«Mãe, tudo podes, porque és Mãe de Deus; Mãe, tudo deves, porque és nossa mãe».

jornalvp.arr@sapo.pt

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