16 Out 2012, 10:40

Texto de

Opinião

Notícias de um metropolitano no Porto

Coisa estranha esta de rogar o interesse nacional através da destruição da nação.

Metro do Porto. Foto: Miguel Oliveira

Foto: Miguel Oliveira

Desde muito cedo que cultivo um enorme interesse em observar a vida citadina. Deveria ter os meus 6 anos e vinha para o portão da casa da minha avó ver passar os carros na rua e as pessoas a caminharem a diferentes ritmos nos passeios, olhava e olhava e olhava e existia naquela movimentação sem interesse nenhum, admito que sem interesse nenhum, qualquer coisa de magnético que vibrava em mim e me fazia estupidamente olhar para alguém que passava na rua, ler-lhe o olhar, e ficar a imaginar muito tempo no pensamento que lhe ruminaria a mente durante o seu andar apressado.

Continuo, após este tempo todo, a interessar-me pela rua. E pelas pessoas que nela deambulam, pelos espaços, pelas esquinas e becos que fazem uma cidade. É por isso que considero os transportes públicos como os maiores palcos sintetizadores da vida urbana, a praça móvel citadina que congrega diferentes urbanitas.

Proponho desde já, na minha qualidade de modesto cidadão que até ao momento sempre pagou os seus impostos, a constituição de uma Assembleia de Autocarro, onde as pessoas, organizadas por algum critério que ainda não sei qual é, emitam as suas opiniões sobre a realidade circundante, e em que o motorista abandone a sua postura rezingona e mal disposta para com os utentes e seja o presidente daquela Assembleia Popular.

Proponho mais. Que os temas em debate na Assembleia da República, nessa onde atualmente se discutem coisas ridículas como aquela de os deputados do Partido Socialista andarem de Renault Clio, sejam o resultado das diferentes propostas geradas em Assembleias de Autocarro existentes no país, evitando assim a desculpa dos políticos de que as ruas não falam, nem governam pelo Governo. “As ruas podem não mandar, mas os autocarros podem!” Eis o lema perfeito para este movimento.

Andar no metro do Porto tem sido importante para mim. Mesmo nas alturas em que os lugares ocupados não me deixam usufruir da viagem sentado, não perco nunca a oportunidade de observar o olhar calado das pessoas, desde os mais esquivos aos mais estáticos e que denotam certamente pessoas com pensamentos e posturas diferentes perante a vida.

Vi no outro dia uma rapariga muito nova com um rapazinho pequeno ao colo, ele e ela mal vestidos. As faces demonstravam triturações da vida e bastou que ela me lançasse um olhar para compreender o seu sofrimento. Mesmo sem lhe perguntar, fiquei a imaginar quem seria aquela pessoa, qual a sua vida, o seu trajeto, qual a razão de me olhar com aqueles olhos tristes que seguravam pesadas lágrimas prontas a resvalarem pela sua face inocente. Mas não disse nada e a rapariga por vezes olhava para mim e eu via-lhe novamente as palavras que emanavam daquele olhar distante e que diziam assim:

– “O senhor por acaso pode ajudar-me?”

E eu, cobarde como sou, refugiei-me novamente no meu olhar como quem se quer ver livre de qualquer interação verbal, como para quem as palavras que sempre representaram muito tornam-se agora pequenas balas contra o brutal sofrimento que as pessoas atravessam. Eugénio de Andrade dizia que as palavras estão gastas e eu acredito que se justifica muita coisa com as palavras da “crise”, com a tinta gasta em notícias de jornal, com os comentários que se fazem sobre as medidas de austeridade, sendo essas palavras uma verdadeira alavanca para a exploração desenfreada da manada e para a manutenção de grupos sociais incólumes à situação, roçando-lhes ao de leve a faca que corta as designadas gorduras do Estado e deixando aquela rapariga pobre que vi no metro ainda mais magra do que aquilo que já é.

E é assim que a frase “estamos em crise” é tão basilar nos discursos de hoje em dia. Ouvem-se as pessoas nos autocarros e nos metros, nas conversas de café, nas ruas, nas praças, em casa, com os amigos, em família, a repetirem desmedidamente esta frase. Dela, acompanhada com um encolher de ombros resignado por parte das pessoas, emana, na minha opinião, um sentimento de submissão das populações, uma incumbência vinda de cima à qual temos que passivamente aceitar em nome do “superior interesse nacional”, sendo para mim uma coisa estranha esta de rogar o interesse nacional através da destruição da nação.

Faz-me lembrar alguém que coloca dinamite num edifício recém-construído e o faz detonar enquanto assegura, a pés juntos, que sempre gostou daquela construção e que é por ela que faz isto – ou então lembra-me um pai extremamente autoritário que, num momento fugaz de falsa ternura, diz ao filho que é assim na educação com ele porque ele é a coisa mais importante do mundo.

Por outro lado, aquela frase do “estamos em crise” traduz uma justificação da situação de miséria que o povo vive actualmente, atrelando ao mesmo tempo consigo outras frases como “O Governo não tem culpa”, “Se estivesse lá outro não seria diferente” ou então “A Grécia está muito pior do que nós”.

A crise que se instalou em 2008 com a crise do subprime tem servido, assim, para tudo. Por um lado, ela gera o descontentamento nas pessoas, elas revoltam-se, vão para a rua. Por outro lado, serve como uma alavanca mediática para os grupos hegemónicos continuarem a reforçar as medidas de sofrimento social e para, através disso, permanecerem os seus interesses intactos.

É por isso que a política, no seu sentido corrente do termo, me deixou de interessar. E já estive na política partidária, pertencia a uma juventude na qual os ideais, corretos ou não, norteavam e mobilizavam as pessoas em torno de valores nobres. Mas de há uns tempos para cá, apercebo-me que talvez fosse necessário muito menos política para as sociedades funcionarem saudavelmente. Até posso cair na afirmação grotesca de tasca ou de café e dizer que os políticos são todos iguais (e eu sei bem que não são, acreditem que sei), mas quero mesmo acreditar que são todos iguais.

Eu sei que não são, mas quero estar convicto disso porque estou farto de que a política seja o governo dos Poderosos, dos Mercados e dos Interesses, mais do que o governo da polis, das populações que vejo todos os dias no metro, nos autocarros ou nas ruas a andarem pela cidade.

E só para terminar, acho que quem merecia o Prémio Nobel da Paz era sim uma União, não a União Europeia, mas antes a União-de-Pessoas-Resistentes, que, apesar de serem constantemente roubadas nos seus direitos universais (e eu não recuo no termo roubo), resistem e mantêm-se firmes, talvez, quem sabe, como aquela rapariga com o olhar triste e apelativo que vi no metro no outro dia e em que, por vezes, lhe caem as forças com que se tem mantido de pé e me mostra que o mundo é um lugar injusto.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

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