6 Ago 2011, 14:40

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Opinião

Ser provinciano em Portugal

Quando a fusão de 2 freguesias de Lisboa ocupa mais espaço do que a fusão de 2 das 5 maiores cidades do país, estamos conversados.

Mapa do Porto

Um mapa do Porto do início do século XX. Imagem: DR

Começou a chegar às livrarias “Ser Jornalista em Portugal – Perfis Sociológicos“. O livro parece ser uma interessante e completa aproximação a uma das classes mais mal desconhecidas do país, que tão rapidamente se torna estranhamente corporativa como, no momento seguinte, se dissolve e digladia. Na primeira parte, o estudo levanta uma série de questões que ajudam a fixar melhor o que são os jornalistas de hoje (antiguidade, mobilidade, habilitações, situação na profissão, etc.).

Na segunda parte, que ocupa bem mais de metade do livro, como que para corporizar os dados do estudo, os organizadores decidiram entrevistar 47 jornalistas e estudiosos para se personificar alguns dos dados equacionados na primeira. Contudo, lê-se a lista dos entrevistados e estão praticamente todos sedeados em Lisboa. E o mais curioso é que da primeira e segundas vezes que pensei nisso relevei, demasiado habituado a algumas peculiaridades portuguesas, só numa terceira é que o considerei abstruso.

Sempre que vejo nos média este tipo de centralismo da cidade que calha ser capital, lembro-me que o jornal que tem (tinha?) 2 sedes publicou a entrevista da então candidata à Câmara de Lisboa Maria José Nogueira Pinto nas páginas de “Política” e a entrevista do então candidato a presidente da Câmara do Porto, e vice-presidente do PSD, Rui Rio na páginas de “Local”.

E esta semana, depois de ver o livro coordenado por Luís Rebelo, voltei a lembrar-me daquela dualidade de critério ao ler alguns artigos de opinião em jornais nacionais. Não se referiam ao livro, não, mas à fusão de freguesias em Lisboa. Pelos vistos, e pelo lido em artigos de opinião como o de, o meu preferido, Rui Tavares, eles andam lá a discutir que nome se há-de dar à Mouraria (literalmente) ou ao Bairro Alto ou às outras freguesias. É o que dizem as notícias de capa mesmo de jornais de negócios e os artigos de opinião dos jornais e nós, míseros provincianos, engolimos.

Quando a fusão de 2 freguesias de Lisboa ocupa mais espaço do que a fusão de 2 das 5 maiores cidades do país, estamos conversados. Eu, eu gostava mesmo era de saber o nome das freguesias de Faro ou do Funchal, de Bragança ou de Braga, de Viana do Castelo ou de Vila Real de Santo António, mas não sei. Há uns anos, com sorte, saberia se, por exemplo, algum dos autarcas dessas freguesias fosse acusado de corrupção. Hoje em dia, só veremos o nome dessas freguesias escrito em artigos de opinião dos jornais se for a terra de origem de algum dos cronistas ou do líder de um grande partido ou se, eventualmente, o presidente dessa junta for ao congresso desse partido dizer umas patacoadas.

Esta semana, para justificar a nova taxa do Governo que se mede em aumentos brutais dos transportes – que se somam à sobretaxa do subsídio de Natal, aos preços dos combustíveis e combater do buraco das Estradas de Portugal e, em breve, da CP e da Refer – o cronista Henrique Raposo, do “Expresso”, disse que as queixas pelo aumento dos transportes em valores à volta dos 20% é coisa de centralismos, de Lisboa (e do Porto), por causa do buraco das empresas de transportes. Os argumentos são coisas engraçadas. O ministro da Economia (o Álvaro, sabem decerto quem é) também disse que estes aumentos foram “uma atualização” dos valores, que, diz, em Portugal são muito baixos. E que os aumentos que estão já anunciados para janeiro serão, aí sim, os “indexados à inflação”. São coisas diferentes, estão a ver? E sabem porque tivemos estes aumentos agora?

Segundo “o Álvaro”, na comissão da Assembleia República, terça-feira, a atualização (em muitos casos em mais de 20%) foi “para evitar aumento de impostos”! Não perceberam logo? Bem, na sessão parlamentar, o ministro da Economia citou várias vezes os livros de um tal de Álvaro Santos Pereira, pode ser que se o lermos, percebamos.

Provavelmente, escrevo-o depois de confirmar o aumento dos preços na linha de Aveiro, preferia que em vez de estarmos a falar dos 25% de aumento na CP, estivéssemos a falar das freguesias: como é que chamamos a Campanhã/Santo Ildefonso, senhor bispo?

Filinto Melo escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

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