15 Mar 2013, 12:20

Texto de

Opinião

Ser professor hoje – heroísmo ou masoquismo

,

Para cumprir a sua elevada missão, a escola pública não pode ser o Prozac para as depressões sociais e os professores os "punching balls" de mães frustradas e violentas.

Adolescentes

Foto: SXC

Nunca fui um aluno exemplar, antes pelo contrário. Como já relatei noutras crónicas, ultrapassei a escolaridade primária à custa de porrada e dos pastéis da minha mãe. No início do ensino secundário a coisa não foi melhor. O meu pai, no início de cada ano escolar, esportulava os tostões dolorosos para me comprar os livros que um mês depois já estavam no alfarrabista trocados por cigarros e bilhar que me preenchiam os ócios no café perto da escola. Estudar, mandava eu para as calendas gregas, o que me dava tempo para muito vegetar numa doce abulia que eu julgava ser o sentido da vida.

Do alfarrabista escapavam os livros herdados do meu primo Nelson que por estarem já corroídos pelos ares dos tempos não tinham valia comercial. Esses levava-os para a escola às prestações e quando a professora de francês me mandava ler a lição, julgando que me apanhava desprevenido, retirava eu a folha do bolso e lá ia eu no meu parler aos supetões impante na figura de parvo em que eu me sentia importante.

Portanto, eu e muitos dos meus colegas não éramos pera doce para os professores mas nunca lhes faltámos ao respeito e nunca colocámos em causa a sua autoridade. Mais, a ameaça de chamar o pai à escola era suficiente para acalmar as nossas jactâncias de aprendizes de palhaço. A figura tutelar do professor estava imbuída de uma aura de respeito que ninguém ousava afrontar.

Hoje, ser professor no ensino básico e secundário, é estar recorrentemente marcado por diversos sentimentos em conflito. Alegria, sentido de missão, tolerância, empenho, espírito transformador e desejo de partilha mas também, medo, desânimo, tristeza e por vezes fuga (muitos colegas pedem a reforma antecipada para fugirem da sua violentação quotidiana).

Reconheça-se que não é fácil conviver dia-a-dia com “meninos” (o vocábulo correto seria energúmenos, mas não quero ferir suscetibilidades pedagogicamente corretas) cujo único fito existencial é dar vasão às tempestades hormonais que lhes correm nas veias e à má educação que recebem na família.

Felizmente que a maioria dos jovens que nos chega à escola consegue saudavelmente equilibrar as angústias do crescimento com o seu desejo de porvir e empenham-se com proficiência e respeito humano nas tarefas escolares que lhes poderão abrir as portas do futuro.

Alguns, poucos mas suficientemente desestabilizadores, além dos desvios comportamentais impostos pelas pulsões de um hipotálamo incontrolado, têm como missão “sagrada” destruir a paz de espírito do professor que é o viático mais precioso para a sua viagem profissional.

Ser professor, sempre foi uma aventura homérica que nos impulsiona a desbravar as matas cerradas da ignorância intelectual ou da anquilose corporal tendo sobre as nossas cabeças a espada de Dâmocles do erro e da falha. Com o advento da República iniciou-se a saga nacional de retirar o país do analfabetismo atávico que o caracterizava. Emerge, qual demiurgo, a figura do professor com a ingente missão de modelar culturalmente os “bons selvagens” que chegavam à escola retirados, por vezes compulsoriamente, à dureza do trabalho manual nos limites de uma economia não de subsistência mas de sobrevivência.

Relembro, relatos dos professores mais antigos que chegavam a emocionar-se até às lágrimas quando conseguiam detonar valores e inteligência naqueles corpos encardidos do frio e sujidade mas que transportavam em si todos os sonhos do homem. O meu pai, depois de ter emigrado jovem para o Brasil à procura do seu Eldorado, não o encontrando, regressa a penates e, com 28 anos, termina a instrução primária que lhe permitiu fugir da telúrica ditadura de uma agricultura que irmanava homens e bestas numa sinfonia corporal de escravos.

Encontrou um professor que conseguiu libertá-lo das amarras cruéis do analfabetismo o que lhe abriu espaço para a realização profissional longe das agruras do campo, em tempos em que os quartos de dormir ficavam por cima das lojas dos animais que premiavam as famílias com o calor emanado dos seus corpos e com os eflúvios olorosos dos seus descomeres.

Eram tempos duros mas justos para a tarefa sagrada de ser professor.

Fui, durante largos anos, professor do ensino secundário. Tendo acabado o curso num ambiente de rebaldaria global subsequente ao 25 de Abril, fui recorrentemente agredido pelo espetáculo verdadeiramente indecoroso de ver a permissividade ganhar espaço ao respeito, a seriedade a ser substituída pelo oportunismo, a competência a ser tripudiada pelo desenrascanço e chico-espertismo. A escola foi atravessada por um vento de mudança mas, malgrado os excessos revolucionários que procuravam o “Homem Novo”, permanecia incólume, um módico de respeito humano que salvaguardava o professor na sua integridade física e moral.

Descobriu-se, mais tarde, que o homem novo preconizado pelas novas vulgatas políticas não era mais que o homem velho recauchutado e que, por debaixo duma pele luzidia de um pretenso modernismo, escondia os miasmas históricos da sua menoridade cívica e intelectual. O português boçal e sem valores emergiu com força quando as águas alterosas da revolução acalmaram. Aí, reforçado pelas mais amplas liberdades, encontrou caminho fácil para afirmar o seu direito ao desmando.

E não nos enganemos.

Temos cada vez mais jovens com formação cada vez mais elevada e que ombreiam com os melhores em todo o mundo, é verdade. Mérito aos pais e professores. Se ajudamos a construir os melhores é porque temos qualidade. Por isso, os professores, juntamente com bombeiros e médicos, são a classe profissional em quem os portugueses mais confiam.

Mas o número de jovens que vê a escola como um espaço de anulação da sua individualidade selvagem é também cada vez maior.

“Coitadinhos, a culpa não é deles mas sim da família”. Sim é, mas por isso o professor não pode pagar. O professor não pode ser o recetáculo das pulsões violentas de jovens sem valores de respeito humano e que consideram cada regra como uma afronta à sua liberdade. E quando a família que deposita o selvagem na escola se exime de ajudar na correção da delinquência então o quadro fica bem mais negro e temos meia dúzia de condottieri marginais a transformar a escola numa terra sem lei que prejudica a ambiência de paz que deve ser apanágio de uma escola saudável.

Como já não tenho medo de nada afirmo sem rebuço o que me vai na alma. A escola é um lugar sagrado e como tal deve ser respeitado. A escola pública tem a ingente tarefa de dar formação a todos e todos devem ter acesso a ela. Todos que a respeitem. A escola pública não pode ser o Prozac para as depressões sociais e os professores os punching balls de mães frustradas e violentas.  Para a escola pública cumprir a sua elevada missão deve fazer a “monda” dos escalrachos que crescem entre as flores saudáveis. Tenhamos a coragem de assumir que os cursos profissionalizantes são uma saída correta para muitos delinquentes escolares que podem deixar de o ser se não os obrigarem a essa coisa estranha e antinatural que é pensar e estudar.

Esta crónica é uma homenagem aos professores da Escola Básica 2+3 de Avintes que num meio socialmente difícil conseguem manter uma escola de excelência em que as regras são assumidas e cumpridas por todos.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Arlindo Silva says:

    Tens toda a razão. Subscrevo “quasi” tudo o que escreveste.
    Mas, quem te viu e quem te vê!
    Um abraço.
    Arlindo

  2. Marcelo says:

    Para os professores e diretores é muito mais fácil desejar a segregação destes alunos “problemáticos” do que ter que rever e alterar a sua própria concepção de ensino, só assim poderiam realmente ajudar estes jovens a se interessarem e/ou interagirem de uma melhor forma no ambiente escolar! Temos que lembrar que essa dificuldade de conseguir lidar com diferentes concepções vem justamente de uma sociedade antiquada que busca formatar e segmentar as pessoas, sendo assim mais fácil se organizar e controlar as massas para evitar os conflitos.

  3. Domingos Silva says:

    Parabéns Professor José Augusto pelo artigo de opinião que escreveu, cuja opinião partilho inteiramente. E é pena que os nossos governantes, especialmente o Ministro da Educação e Ciência, que também é professor, não tenha a mesma posição de defesa da classe a que pertence, em vez de eufemisticamente andar a delapidar o património da escola portuguesa e os seus mais importantes valores de saber e conhecimento, cultura e respeito, educação e cidadania. Felizmente que ao contrário destes senhores que atentam contra a escola pública, existem pessoas como o Doutor José Augusto que têm sensibilidade e são capazes de reconhecer publicamente o quão importante é a escola “para todos” enquanto espaço privilegiado de ensino-aprendizagem, onde os alunos apenas são capazes de aprender e apreender conhecimento com a ajuda dos professores.
    Domingos Silva

  4. Flora Castanheira says:

    Ora aqui está alguém que cumpre o que promete e de forma rápida.
    Gostei do que li e concordo com muito do que escreveu.
    A Escola Básica 2/3 de Avintes, viu o seu nome transformado em Escola Básica 2/3 Adriano Correia de Oliveira, o seu patrono, e que é o seu atual nome.
    Agradeço profundamente reconhecida a sua crónica de homenagem aos professores da Escola Básica 2+3 de Avintes, e mais sensibilizada estou por saber que fui, para o Professor, a “musa” inspiradora dessa sua crónica.
    Bem haja pelas suas simpáticas, e sei que, sentidas palavras.

  5. João Egdoberto Siqueira says:

    Meu Professor! A cada leitura me faz a alma mais leve por poder partilhar os mesmos anseios e, infelizmente, também fazer eco a estes acontecimentos que também no Brasil ocorrem. Para além dos governantes temos, também, os pais ditos “avançados” mas que são, sim, relapsos, ao que acrescem os professores que se furtam a suas obrigações, não respondendo ao que se propuseram quanda da escolha de nossa profissão. E ainda bem que estes são poucos, e os olhos e sentimentos devem ser voltados àqueles que militam e professam ser PROFESSOR. Permaneça. meu Professor, como já dizias, sempre “firme e forte”. Saudades do convívio e da amizade.

  6. José Nogueira says:

    Gostaria de convidar o Marcelo a leccionar uma disciplina qualquer em que else se sentisse à vontadae numa qualquer escola problemática do Grande Porto ou da Grande Lisboa (ainda melhor!)durante UMA SEMANA. Aposto o que le quiser que não aguentava nem um dia.

  7. José Vaz says:

    Caro professor, da Oliveira Martins recordo com saudade o Professor Camilo que me ensinou a gostar de História de Portugal, as partidas que pregávamos ao “Jesuita” de inglês, as saídas para cima das camionetas estacionadas no Passeio das Fontainhas, as sandes de sêmea com morcela na mercearia ao lado da cooperativa de víveres da PSP, e da juventude de então.
    Recordo ainda, e parece até que ainda me doem, algumas correadas do contínuo Meireles que por dá cá aquela palha molhava a sopa no pessoal.

  8. Sofia Seixas says:

    Entendo o Prof. José Augusto Santos, mas também entendo o Marcelo. Sou professora há dezasseis e adoro a minha profissão cada vez mais. Mas também sou mãe. E os meus filhos frequentam escolas diferentes em agrupamentos diferentes. Posso falar assim de três agrupamentos o meu e os dos meus filhos. E o que posso afirmar é que se faz muito pouco pela educação pública e pelos alunos. Hoje, por causa da crise, antigamente por falta de tempo… enfim. Não há só alunos “selvagens” e “problemáticos” na Escola, há os outros ditos “normais” e educados à espera de uma educação inovadora, moderna, inteligente. Os meus filhos vão à escola e não acontece nada. Por exemplo, o meu filho durante o ano inteiro não saiu uma única vez da escola para visitar o quer que seja… a minha filha idem aspas aspas. Isso não é assim muito relevante…mas não há motivação dos professores. E posso dizer que alguns professores têm pouca educação. Peço desculpa, mas é verdade. Posso dizer que a nossa educação em Portugal já há muito tempo que atravessa tempos difíceis. Uma certa desorganização e frustração transparece para as salas de aula. E muitos alunos “trepam” por sentirem isso. O que tento aqui dizer é que há excelentes crianças nas nossas escolas como excelentes professores, como também há alunos deveras complicados e professores que nunca deveriam lecionar.Concordo, na verdade com o Marcelo quando ele refere que seria importante “rever e alterar a própria concepção de ensino”. Temos alunos que andam na escola desde os 4 meses de idade. O “stress”, a corrida para estes alunos deste século e já do outro, começa cedo. Temos alunos muito desassossegados na escola mas muito inteligentes…mas as matérias, os conteúdos iguais há 50 anos atrás. E pior! O modo de transmissão igual.Enfim…muita coisa há para dizer sobre esta temática…

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.