23 Jun 2011, 13:09

Texto de

Opinião

Salvemos o país

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Será que Cavaco vem ao S. João do Porto? Espero que não tenha preconceitos ideológicos lá porque andamos todos na rua a martelar e a festejar até de madrugada e a cheirar manjericos.

Almoço na relva, Édouard Manet, 1863

Almoço na relva, Édouard Manet, 1863

No fim-de-semana, os lisboetas ficaram em pânico. De repente, a sua limpa e escorreita, e transitável, e cosmopolita, e calma cidade ficou em pantanas por causa do Continente, que foi para lá oferecer tomates e ameixas, e outros produtos do campo, e a ensinar os alfacinhas a fazer hortas. A lata. E ainda por cima pagaram e levaram animação de baixo nível do Tony Carreira.

Uma coisa impensável, que lata a destes campónios! Apesar de ser uma cidade suja, desorganizada, com filas de trânsito às 7h da manhã, com excesso de automóveis, com transportes públicos caros, Lisboa é ainda a capital deste país, caramba.

Mais compreensivos perante a extensa publicidade que a Sonae fez em plena rua, e em todo o lado, os jornalistas multiplicaram-se em reportagens sobre o evento patrocinado por uma empresa de distribuição que distribuiu, lá está, publicidade por tudo que era meio de comunicação social. Curiosamente, a televisão RTP foi a que mais destaque deu ao piquenique da Avenida da Liberdade: para além do tempo de programação preenchido com programas apresentados pelas estrelas da estação desde a festa do campo ou lá como se chamava, o Telejornal de sábado teve tempo, e justificação (!?), para passar 2 diretos com jornalistas a tentar dar informações sobre o Tony Carreira ou as hortas.

Estranho nenhum dos jornalistas destacados para fazer a cobertura destes conturbados tempos políticos se ter lembrado de perguntar à nova ministra da Agricultura (repararam em como são os ministros mais inexperientes os que têm mais pastas?) como reagia ao frenesim campestre no centro da capital. Quem diz à ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, diz ao Presidente da República, que quer que recuperemos a agricultura e defendamos o Interior.

E por falar em pantanas, em produtos hortícolas, em música pimba, será que Cavaco Silva vem ao S. João do Porto? Nesta terça-feira à noite, em que escrevo este texto, ainda não sei. Espero que o Presidente da República não tenha preconceitos ideológicos lá porque andamos todos na rua a martelar e a festejar até de madrugada e a cheirar manjericos. E se estamos, como disse o Presidente da República em relação à saúde, numa fase em que dispensamos os “preconceitos ideológicos, partidários ou de outra natureza” para a nossa “reflexão conjunta” vamos fazer “todos juntos” a regionalização.

Vamos deixar que Lisboa seja Lisboa com o seu “cosmopolitismo” e o seu excesso de funcionários, carros e sedes de empresas. Vamos deixar que o campo seja o campo, com as suas vacas e as suas hortas e os nossos produtores imaginários. Vamos fazer a regionalização, com coragem, sem pânico. Salvemos o país.

Ou será que o senhor Presidente quando se queixa de preconceito ideológico se está afinal a queixar dos que pensam diferente de si?

Se vier, apareça no melhor S. João de todos, o de Miragaia.

Filinto Melo escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

Opinião

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