24 Set 2012, 17:30

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Opinião

A “virtualização” do espaço urbano

Reza a história que no século XIX existia uma grande árvore no centro do Porto onde era afixada a correspondência.

Telefone

Foto: Nate Steiner

O advento das comunicações à distância modificou completamente a forma como vivemos o espaço. Reza a história que no século XIX existia uma grande árvore no centro do Porto onde era afixada a correspondência. Também Pièrre Louys no seu livro “Afrodite” reconstrói, pelo romance histórico, a vida de Alexandria na época clássica. As prostitutas publicitavam os seus serviços num grande muro no centro da urbe.

Como procurar informação numa cidade desprovida de telecomunicações? Nada melhor do que eleger um local em que, com o acordo de todos, se concentram o conjunto de dados, das cartas, dos anúncios.

O telefone operou a primeira grande modificação nesta estruturação geográfica do espaço humano. Uma segunda adveio do telemóvel e da combinação destes dispositivos com redes sociais e outras plataformas internáuticas. Se no primeiro caso ainda existia uma relação de dependência com o espaço físico, na segunda não: o espaço urbano desprende-se e isso é por demais evidente na forma como os mais novos saem à noite.

Vejamos alguns exemplos concretos. Num mundo dominado pelos telefones era preciso combinar um local de encontro e uma hora precisa. Qualquer mudança de planos tornava-se complicada, uma vez que não era possível contactar a outra parte interessada em tempo útil. A este propósito, lembro-me de entrar em cafés cujos clientes mais regulares acabavam por atender telefonemas ao balcão, ou seja os amigos sabiam que o podiam contactar no estabelecimento em que era cliente costumeiro.

Atualmente o telemóvel modificou tudo isso. Não é necessário marcar um local preciso para o encontro ou sequer traçar grandes planos. A qualquer momento podemos comunicar.

“O José não vem?”; “Não vem já, mandou agora mesmo uma mensagem”. O grupo vai a um bar depois a uma discoteca. “E o José?”; “Parece que não pode vir.” Mas esteve presente, ainda que através de uma telepresença, tecida por mensagens escritas e toques, a noite toda.

Rui Tinoco escreve segundo o novo acordo ortográfico

Opinião

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