21 Nov 2011, 17:11

Texto de

Opinião

Foi-se o wiki Sá

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Rui Sá foi quase sempre a voz mais atuante e mais esclarecida da oposição autárquica, trazendo o PS a reboque. Ele vai fazer falta.

Rui Sá

Foto: Arquivo

Apagou-se a Wikipédia da Câmara do Porto. Rui Sá, vereador da Coligação Democrática Unitária, disse adeus à vida autárquica e com ele vai-se a forma mais fácil de googlar qualquer pergunta sobre assuntos dos últimos 26 anos no Porto, tantos quantos ele leva na câmara. À sua memória, à sua capacidade de trabalho e conhecimento dos dossiês apelaram por inúmeras vezes os jornalistas, colegas de outros partidos e mesmo Rui Rio lhe fez o cumprimento, recorrendo a ele em pleno debate televisivo.

Esta é a primeira lição que nos fica de Rui Sá, a do exemplo do trabalhador incansável que tornou as manhãs de fim-de-semana uma rotina na vida da imprensa portuense. Ao todo, terão sido 206 as visitas feitas pelo vereador da Coligação Democrática Unitária, que assim conquistava o vazio mediático do fim-de-semana, marcando a agenda autárquica. Um trabalho junto do povo, muito mais do que junto de eleitores, em prova de coerência ideológica.

Sá foi quase sempre a voz mais atuante e mais esclarecida da oposição autárquica, trazendo o PS a reboque. E essa é a segunda lição que nos fica, a de que ele vai fazer falta. O contributo para o trabalho municipal não se faz só com tarefas executivas. O contrapeso da oposição é essencial para o equilíbrio e vigilância das opções da maioria, como bem sabe e praticou Rui Sá.

Não deixa de ser amargo que o seu outro amor em coerência para além do povo, o partido, o Comunista Português e não esta coisa da Coligação Democrática Unitária – que me obrigo a escrever sem usar a sigla, numa prova de vazio semântico –, o tenha levado a ferir essa oposição construtiva com a participação no executivo do primeiro mandato de Rui Rio, quando tudo o separava politicamente dele.

Por muito que ele contraponha a sua ação à frente do Ambiente e Reforma Administrativa, há momentos em que a democracia se faz melhor separando águas. E esta é a última lição, aqui pela negativa, que ele nos deixa. O todo nem sempre é melhor que o uno e é pena que a cabeça de Sá não tenha tido a capacidade de se impor para lá da acefalia que tantas vezes atinge o coletivo.

A democracia da cidade deveria fazer-se acima dos partidos, e por muito que a tática política o aconselhe, nunca foi muito agradável ver como, em época eleitoral, a Coligação Democrática Unitária gastava cartuchos contra os colegas de oposição. Até porque desconfio que, lá no fundo, com Rui Sá era mais fácil encontrar à esquerda o contraponto à coligação à direita, se um dia o PCP se dispusesse a isso.

Mas façam-lhe a justiça de acreditar que a cidade que Rui Sá tem na cabeça e no coração é bem melhor que esta, em que ele deixa de ser parte ativa após 12 anos e meio de vereação. Ele fez o que pode e foi muito. Por isso, as lições do wiki Sá já inscrevem no capítulo da saudade.

David Pontes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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